Roda Gigante | Os diferentes tons de uma mulher em conflitos

Woody Allen sempre retratou com precisão quase cirúrgica os sentimentos mais intrínsecos do ser humano ao contornar suas tramas com um surrealismo que encontra morada entre a fábula e algo que podemos chamar de determinismo situacional. São histórias estanques - com um começo e um fim muito bem delineados - e que justamente por serem simples conseguem se tornar complexas em suas minúcias.

Em Roda Gigante, o cineasta nos apresenta o cotidiano de Ginny, uma garçonete de Coney Island que mora com o marido e o filho em uma residência um tanto precária em um parque de diversões das redondezas. Cansada de ver a vida em preto e branco, a moça encontra novos tons ao conhecer o jovem salva-vidas da praia, interpretado por Justin Timberlake.

Em contrapartida, a chegada da filha do primeiro casamento de seu marido, traz para a vida de Ginny o contraste de sua quase atingida meia idade com o frescor e a vivacidade de sua enteada. Está posto assim um conflito que é o sustentáculo desta nova obra de Allen.

É importante destacar que, embora cores e cenografia emulem a ideia de uma comédia, talvez este seja um dos filmes mais dramáticos da carreira do diretor. Existem subtextos muito interessantes que, embora pouco alardeados, performam bem de maneira implícita e fornecendo insumos para que o público complete as lacunas deixadas pelo roteiro arenoso.

Ginny, tenta a todo custo evitar que seu marido beba álcool. Em certos momentos é sugerido que o mesmo agride a esposa depois de beber. E embora os diálogos não se aprofundem no caso, é fácil perceber que este também é um fator que fundamenta a infelicidade da protagonista. Outra alegoria interessante é o filho da personagem. Richie é um menino com sérios transtornos. O mais sério e notável deles é o fato do garoto ser um incendiário e ser aficionado por fazer fogueiras em locais impróprios.

Um dos recursos mais interessantes da fita sem dúvidas é o uso inteligente - e por que não, inovador? - das cores. A iluminação “esquenta” e “esfria” de acordo com a verborragia e o humor da personagem. Entrando em incandescência nas horas mais tensas e ganhando a leveza do azul nos momentos de calmaria. Vittorio Storaro assina esta direção de fotografia impecável que é certamente o que de melhor o filme tem a oferecer.

As interpretações também podem e devem ser consideradas um acerto. Kate Winslet atinge uma maturidade invejável aqui. A atriz passeia por diversas nuances em um papel que lhe oportuniza o exercício pleno de seu potencial. Timberlake, nas mãos da ótima direção de elenco, vai bem e convence em suas cenas.

As belas cenas e atuações, entretanto, não conseguem suprimir as deficiências que o roteiro atinge em seu ato final. Allen sofre ao tentar colocar pontos finais em alguns arcos e os últimos vinte minutos de fita parecem um tanto corridos. Apesar de ser um excelente contador de histórias, o cineasta não consegue repetir aqui a mesma performance de Meia Noite em Paris e Blue Jasmine - para citar seu cinema mais recente.

Roda Gigante é um filme para ser contemplado por sua beleza imagética, mas sem aguardar enormes aprendizados ou reflexões. É muito mais do que a maioria dos filmes atualmente em cartaz, mas nada realmente significativo em meio a uma filmografia premiada como a de Woody Allen.

Nota: 🍺🍺🍺🍺

[Agora as críticas do Saideira receberão uma nota. Sendo um chopinho a nota mais baixa e cinco chopinhos a nota mais alta]

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