Então é Natal, e o que você desaprendeu?

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4 min readDec 11, 2019

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Ao invés de pensar no que você fez, que tal parar para repensar seus aprendizados e as formas como você encontrou saídas para os desafios dos novos tempos?

Todo dezembro é sempre a mesma coisa. Entramos todos numa espécie de portal do tempo dezembrístico, onde entoamos uma mesma ladainha. Para alguns, é o momento de fazer o balanço do ano, de importar a tradição gringa do dia de Ação de Graças e agradecer às oportunidades que pode experimentar. Para outros, é a hora de remoer o que não foi possível fazer — todas as férias não aproveitadas, todos momentos não bem vividos — e lamentar. É como se a cantora Simone ainda ecoasse nos nossos ouvidos, e já que então é Natal, “o que você fez?”

Claro que cada um sabe a melhor forma de passar o próprio fim de ano, mas no meu caso, eu sempre sugiro evitar as nostalgias, porque apesar de trazerem boas memórias, elas ainda se mantém cheias de carinho por um passado que já não tem nada a ver com nossos desafios, necessidades ou anseios do presente ou do futuro. Um exemplo claro disso é a retomada do #10yearchallenge, ou “desafio dos 10 anos”, que também parece se renovar a cada dezembro. Seja a brincadeira uma maneira de treinar (ou não!) inteligências artificiais (isso é papo para os especialistas da tecnologia), fato é que a maioria das pessoas olha para o passado analisando o que mudou em si mesmo, ao invés de parar para analisar como os contextos em que elas viveram também se alteraram.

O genial Kaique Brito, por exemplo, entrou na brincadeira de se comparar com fotos de 10 anos atrás. É possível que Kaique estivesse surpreso com como cresceu, como suas feições mudaram ou como atualmente ele precisa lidar com os desafios dermatológicos comuns à adolescência. No entanto, as mesmas fotos também podem nos lembrar que, há 10 anos, já era comum que crianças de 4 ou 5 anos, como o Kaíque de 2009, tivessem acesso a smartphones para fazerem suas próprias fotografias. A selfie, foto tirada com a câmera frontal, talvez ainda não fosse tão popular ou não estivesse nos domínios de conhecimento de uma criança, ao passo que hoje, com 15 anos, Kaique se tornou um criador de conteúdo provocador e bem humorado em plataformas que nem mesmo existiam na década passada, como Musical.ly e TikTok.

Nesses últimos 10 anos, não foi a escola quem ensinou Kaique como se expressar e produzir conteúdo em suas contas; não foi a educação formal, o aprendizado de sala de aula, que o auxiliou no refino de suas habilidades com edição de vídeos, ou a compreensão do tipo de material que faz sucesso com o seu público, a ponto de ele se tornar um influenciador agenciado. Hoje, o novo contexto não só permite como incentiva que os adolescentes aprendam na prática, busquem o conhecimento online, procurem por maneiras de se inserir e de crescer, convivendo com as tecnologias de uma maneira que um adolescente dos anos 2000 não faria.

E da mesma forma que a escola formal não preparou Kaique para saber como se comportar com as novas mídias e novos desafios que ele encontraria no seu futuro (que vão desde “o que é ser um criador de conteúdo”, “o que significa ser agenciado” até “quanto cobro por um desses meus vídeos”), assim também aconteceu com cada um de nós durante os últimos 10 anos. Já parou para listar todas as habilidades que você precisou aprender na prática, todo o conhecimento profissional que você adquiriu por conta própria, todos os cursos livres que fez, todas as leituras que mudaram a sua forma de trabalhar?

A cada novidade que nos aparece no mercado, há um esforço real em cada um de nós em “desaprender” o que achávamos que sabíamos, para reaprender algo novo, algo diferente, uma forma alternativa de resolver os capciosos problemas que a contemporaneidade nos apresenta.

Nenhum dos experts em TikTok hoje teve aulas de como usar a ferramenta. Os principais jornalistas de dados contemporâneos ralaram muito com aulas coletivas online e muitos tutoriais de como raspar dados, limpar planilhas e filtrar informações até que se tornassem as sumidades que são hoje. E se pensarmos no longo prazo, dados do Fórum Econômico Mundial sugerem 65% das crianças que estavam no ensino fundamental em 2016 irão atuar em funções que ainda nem mesmo existem. Como vamos fazer para ensiná-las a lidar com o que ainda nem sabemos que está por vir?

É sobre essa mudança de paradigma do aprendizado, que não estará mais confinado dentro das escolas, mas que vai acontecer durante toda a nossa vida, que é o principal tema do meu primeiro livro, “Aprenda, Desaprenda, Reaprenda”. Mais do que propor um futuro de lousas inteligentes, videoaulas e inclusão dos smartphones na educação, vamos precisar repensar o conceito de educação, que vai bem além do formal, assim como também repensar as maneiras de formar educadores, gestores e mediadores, mas também de motivar e incentivar os aprendizes, que vão precisar se acostumar com o desenvolvimento de ferramentas e modelos mentais que estejam preparados para uma vida de aprendizados contínuos.

E você, já pensou o que você desaprendeu neste ano?

Por Leila Ribeiro, co-fundadora e CDO (Chief Design Officer) da Sala — Consultoria de aprendizagem disruptiva

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