Afinal, o que é o carnaval?

Saleiro
Saleiro
Feb 25, 2017 · 6 min read
Foto: I Hate Flash

Se há um período no Brasil em que todos os problemas são esquecidos, essa data é o carnaval. O trânsito para, escolas e muitas empresas suspendem suas atividades e as atenções da mídia se voltam às festividades das mais variadas naturezas. Dos blocos aos grandes desfiles nas avenidas do samba, esta é a festa popular mais importante e rentável do Brasil. Porém, a celebração desta data nem sempre teve a configuração que conhecemos hoje.

O carnaval não é uma invenção nova e muito menos carioca. Há relatos de festas dionisíacas e saturnais em povos como os gregos antigos, egípcios e romanos sendo celebradas com as mesmas intenções ou no mesmo período do ano em que a tradição católica atribui ao carnaval. Nesses festejos eram cultuados os deuses, os astros e outras divindades em festas extravagantes, quase sempre com dedicações de sacrifícios, danças, músicas e bebidas fermentadas. No entanto, a festa como conhecemos e presenciamos hoje, uma celebração pública marcada para os quatro ou cinco dias antes da Quarta-feira de Cinzas, é oriunda de uma determinação papal dos finais do século VII.

Gregório I, um dos pais latinos da tradição cristã, o primeiro papa a ser monge antes de assumir a cadeira de São Pedro, estabeleceu um período para que os fiéis católicos deixassem de lado os prazeres do corpo em detrimento de uma elevação espiritual. Esse período, hoje popularmente chamado de Quaresma, se estenderia por 40 dias em alusão ao tempo em que Jesus foi tentado no deserto. O início de tal temporada seria demarcado pelo desenho do sinal da cruz na testa dos fiéis com cinzas de fogueira, a chamada Quarta-feira de Cinzas. A partir dela, os próximos 40 dias seriam de privações e penitências até o domingo de Páscoa.

Tal determinação construiu uma cultura, no imaginário popular, de um “adeus à carne” — carnavale, em italiano –, ou seja, alguns dias de não privação de nenhum impulso, de liberdade (ou libertinagem) geral e irrestrita. A tradição de santificação a que a Quaresma se destinava teve um desdobramento inverso, a saber, o carnaval. Nesse período poderiam ser “descontados” todos os atos pecaminosos que deveriam ser reprimidos nos próximos 40 dias.

No Brasil, já no início da colonização, o carnaval se fazia presente. Os portugueses emigrados trouxeram o entrudo, uma espécie de festa em que os foliões sujavam-se mutuamente com polvilho, farinha, limões recheados de urina e outros ingredientes. Essa tradição perdurou por séculos, principalmente em Pernambuco. Há resquícios dela nas festas brasileiras atuais, como os balões d’água e os sprays de espuma que são lançados principalmente nos blocos, folias e micaretas.

Cena de Carnaval, Debret, aquarela sobre papel, 1823.

O entrudo popular começou a ser mal visto pelas elites, principalmente a carioca, a partir dos anos 1840, quando passaram a ser fundados os bailes de máscaras à estilo veneziano. Nesse novo modelo de festejar o carnaval, os objetos preparados manualmente para as algazarras do entrudo, como os limões de cheiro, passam por um processo de domesticação, sendo trocados paulatinamente por confetes, serpentinas e leques. Além disso, as figuras lendárias e mitológicas populares são substituídas por personagens de origem europeia, como o Arlequim, o Pierrô e a Colombina. O carnaval carioca passa a ser partido entre os bailes de máscaras tradicionais, como os famosos bailes da rua do Ouvidor e da praça do Rocio — hoje Praça Tiradentes -, no centro do Rio, e o carnaval de rua oriundo do entrudo, que passa a ser proibido e perseguido a partir de 1854.

A proibição do entrudo levou as camadas populares a criarem organizações licenciadas que pudessem funcionar pelas ruas da cidade. Surgiram os cordões carnavalescos, sendo uma mistura das festas do entrudo com as procissões religiosas oriundas do catolicismo brasileiro. Os cordões eram agitados por batuques de todas as espécies, apitos e estandartes, tal qual os blocos carnavalescos que hoje conhecemos.

Os cordões e ranchos, outra espécie de comemorações coletivas do carnaval, foram se espalhando pela cidade do Rio de Janeiro nos fins do século XIX. Não eram apenas as classes subalternas que participavam dessas procissões, mas também classes médias de profissionais liberais e filhos das elites. Tais grupos se apresentavam em desfiles com carros alegóricos, marchinhas e fantasias elaboradas. Simultaneamente surgiram os blocos, que eram de organização mais frouxa, com menos investimentos e menos cobranças em relação ao vestuário e a infraestrutura. Desses movimentos, após muitas modificações e diversos interesses, se digladiando por espaço na cena pública, foram se expandindo pelo território os blocos, as escolas de samba e os movimentos de carnaval tais quais conhecemos hoje.

Após esse breve histórico do carnaval, devemos nos perguntar o que nós, cristãos, fazemos com esse emaranhado cultural que recebemos de herança. Qual será a perspectiva do cristão diante do período entre a sexta de carnaval e a Quarta-feira de Cinzas? A tradição mais pietista e fundamentalista, das quais muitos dos crentes mais experientes compartilham, defenderia uma separação entre o cristão e a celebração do carnaval, seguindo a tendência de rejeição à cultura oriunda do carnavale. Em certo sentido, nessa forma de pensamento, a cultura é vista como inimiga da fé cristã e a igreja está sempre sobre tensão em relação a como deve ou não se adequar ao mundo.

Outro tipo de tradição, de aspiração liberal, confunde o evangelho com a cultura, de forma que, em muitos casos, a estrutura cultural se torna a medida como os cristãos enxergam o mundo, as Escrituras, Deus e a si mesmos. Nessa perspectiva, o carnaval seria visto como uma festa legítima do povo e uma manifestação importante das identidades brasileiras, portanto, o cristão brasileiro pode e deve participar das festividades com consciência tranquila.

Talvez você esteja lendo este texto procurando respostas em relação ao que deve fazer nos próximos dias. Certamente elas não virão assim “de bandeja”. As Escrituras afirmam que aqueles que têm se alimentado de coisas sólidas, ou seja, os experimentados na fé, pelo exercício permanente, têm desenvolvidas as suas faculdades de discernir o que é bom do que é mal (Hebreus 5.14). Você deve julgar por si mesmo se tal festa é conveniente ou não para a sua saúde nos mais diversos aspectos (física, espiritual, social, moral e psicológica).

Para isso, deixarei algumas considerações que considero importantes para que você julgue bem o que fazer durante o feriado que para o Brasil. Em primeiro lugar, devemos salientar que Deus é o criador da cultura, que tudo o que é bom, belo e perfeito foi criado por Ele e para Ele. A Queda no jardim maculou com o pecado o que Deus criou de forma perfeita e saudável para o homem, inclusive a cultura. Ora, se Deus pode regenerar e tornar novamente agradáveis a Ele os corações humanos, Ele também pode fazer isso com a cultura, que, assim como eu e você, é parte da Criação. O papel do cristão em relação à cultura se torna redimi-la. É preciso ganhar as esferas culturais para o senhorio de Cristo e para a glória de Deus. As manifestações culturais do carnaval também devem ser redimidas pelo evangelho, tal qual o samba, as artes, a dança, a poesia, entre outras.

Em segundo lugar, devemos lembrar que a recomendação paulina em relação à cultura não é analisar se tal manifestação é lícita ou permitida, mas se ela convém, ou seja, se ela produz justiça e retidão (I Co 10.23). Você deve fazer algumas perguntas a si mesmo, às Escrituras e a Deus antes de participar de qualquer coisa relacionada ao carnaval. As Escrituras foram dadas por Deus para nos guiar no caminho da justiça, portanto, nesse momento de indecisão — e em todos os outros –, use-as.

Deixo algumas perguntas para reflexão: algo que eu vá fazer vai exercer domínio sobre mim (I Co 6.12)? A intenção para qual a festa foi criada fere de alguma forma os meus princípios? Eu preciso dar um “adeus à carne” uma vez ao ano para me santificar nos próximos dias? Há algo que eu vá presenciar ou fazer do qual eu possa me arrepender depois? Respondidas essas perguntas com sinceridade ao seu coração, você, cristão, pode julgar por si mesmo o que fazer nos próximos cinco dias.

— Pedro Henrique Alves

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