// Rio de Janeiro e a morte de Jesus no corpo dos Pequeninos.

Yago Gonçalves
Aug 23, 2017 · 3 min read
Foto: Erick Dau

Rio de Janeiro, 2017. Isso não é um diário de guerra, mas as vezes parece. Essa não é uma foto de guerra, mas as vezes parece. Cotidiano Violento.

Essas fotos não são de Mossul ou Aleppo, essa criança não é uma menina síria ou iraquiana. São fotos tiradas no Jacarezinho, em 2017.

No dia 16 de Agosto, o Jornal Extra do grupo Globo “inaugurou” seu editorial de Guerra, Segundo o jornal:

“A partir de hoje, o leitor do EXTRA passará a encontrar, em nossas páginas do jornal impresso e no site, uma expressão que, até então, nossos jornalistas evitavam: guerra do Rio. Não se trata de uma simples mudança na forma de escrever, mas, principalmente, no jeito de olhar, interpretar e contar o que está acontecendo ao nosso redor.”

Eu não sei você, mas essa foto mexeu comigo, tocou o mais fundo da alma. Não é uma foto digna de um Pulitzer ou uma grande premiação, mas essa foto fez algo comigo.

Eu não sei quem é essa criança, mas se eu pudesse iria abraça-la, eu não consigo pensar no que está passando pela mente dela ao ver essa cena. Talvez essa cena suma logo, ela pode estar acostumada com o horror da “Guerra” ou talvez isso nunca mais suma da mente dessa menina. “Memórias de Guerra”.

Algo nessa menina se foi. Alguma coisa morreu ali, essa “revista” do cotidiano diz muito sobre nossa cidade e sobre as violações de direitos que principalmente os mais pobres sofrem nessa cidade com nome de Santo.

Essa menina como tantas outras está crescendo em meio à normatização da violência, onde a violação dos corpos é permitida, onde não existe direito de ir e vir, onde o Estado tem autorização de violar o seu corpo, onde homens que pensam que são “Deus” ou “estão à mando dEle”, puxam o gatilho que viola o menino Jesus na cidade.

Esse lugar é o lugar onde, assim como essa menina, o Menino Jesus não tem direito de ir e vir, onde o Deus Criança tem sua virgem Maria violada pelo Estado. Na cidade do Rio de Janeiro, o Deus criança não tem espaço. O deus celebrado por aqui usa farda preta e não escuta as orações dos fiéis.

Até quando ficaremos em silêncio vendo a morte e a violência do nosso Senhor e Salvador Jesus nos corpos dos pobres e oprimidos? Como não nos levantamos indignados com essa situação? Por que isso acontece?

Existe alguma coisa errada em nossa devoção. Isso acontece na cidade do Bispo, da bancada evangélica, da “Marcha pra Jesus”, do Malafaia. Na minha cidade e que talvez seja sua também. Na nossa.

E infelizmente a foto famosa de 22 anos atrás se repete. Aqui crianças pobres não são crianças, são alvo.

Por isso eu fico com o educador que tem me ensinado a aprender com as crianças, o saudoso Rubem Alves:

Prefiro o Deus criança. No colo de um Deus criança eu posso dormir tranquilo.

O deus da cidade do Rio, dos pastores em silêncio, do BOPE, me parece um diabo. Desse deus eu sou Ateu, mas falo baixinho pois seus fiéis tem bons ouvidos e andam armados.

Que todos os pequeninos encontrem descanso no colo do Deus revelado em Jesus, que é um menino mas também é Pai.

Amém.

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    Yago Gonçalves

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    Crônicas sem sucesso, textos sobre publicidade, espiritualidade e algo mais.

    Saleiro

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