Andréa Dória — um texto sobre amizade.

Guímel Bilac
Nov 2 · 6 min read

Quando eu tinha 14 anos, tive o que posso chamar — embora hoje eu use pouco esse termo que muitos usam de maneira efêmera — de melhor amigo. Charles é meu amigo até hoje, à distância, porque ele mora em Araçatuba, mas até hoje nos emocionamos sobre nossa amizade.

“Amigos são a família que você pode escolher” — alguém disse, e como toda família, nem na amizade tudo é perfeito.

Andréa Dória, nome de um navio que naufragou, é também o nome de uma canção presente no segundo álbum da Legião Urbana. A música é sobre o fim de uma amizade. Alguns trecho são bem interessantes:

A música começa com: “Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo o que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro”. Amizades começam assim.

Andréa Dória é um hino incrível sobre uma amizade que termina, porque descreve bem tudo que se projeta numa amizade e o que a decepção pode fazer você se sentir a respeito de uma.

Eu aprendi com um amigo há 15 anos atrás que se não existe possibilidade de confronto numa amizade, então não existe amizade de verdade. Se não existe possibilidade de confronto o que existe é relacionamento de conveniência.

Todos nós no mundo de hoje, adquirimos meio que por osmose um jeito reativo de lidar não só com a vida e com o que não concordamos, mas com as nossas relações. Uma pesquisa recente da universidade de Harvard revelou que 60% dos americanos se sente só e, a mesma pesquisa, revelou que a mesma porcentagem de americanos sente dificuldade nas habilidades sociais, no tato com as relações. Uma pesquisa paralela revelou que 80% dos nossos pensamentos sobre nós mesmos é negativo e isso influencia o que pensamos sobre os outros.

Há alguns dias atrás eu me peguei observando com nós sempre estamos falando de alguém. Seja lá qual for nosso grupo, a gente sempre trás a mesa a vida de alguém — geralmente próximo e não presente — pra analisar, pra julgar, p’ra ter p’ro outro as soluções que não temos p’ras nossas vidas.

Na adolescência, quando minha mãe via a gente valorizando demais da conta os “melhores amigos” que a gente dizia que tinha, ela tinha um jargão: “meu amigo é meu umbigo, onde eu vou ele vai comigo.”. Era uma forma de alertar a gente que uma hora ou outra a gente se decepciona ou decepciona o outro numa amizade.

Não quero ser tão extremista assim, porque isso no fundo é uma resposta reativa que a maioria de nós daria por causa das nossas dificuldades relacionais, decepções, frustrações e etc… e isso seria uma justificativa pra gente se afastar de todo mundo, porque eu tenho veneno e você também tem.

Somos negativos sobre os outros, porque em algum lugar no nosso coração nós somos negativos sobre nós mesmos. Então, quando o outro é um espelho que reflete o que eu não quero que ninguém enxergue em mim, antes que vejam, eu aponto pro outro.

E aí, eu digo que cometemos nosso maior pecado: não guardamos o coração do outro e não guardamos o nosso também.

Nos últimos anos eu perdi a habilidade social. Fui ferido e feri muita gente também. Bauman usaria a pós modernidade e tudo o de liquido que a modernidade trouxe para explicar isso — e ele sempre esteve certo sobre isso. Porém, um dos motivos pelos quais decidi me isolar por um tempo foi observar esse comportamento padrão de uma geração como a nossa que anda ferida e lida mal com nossas feridas e frustrações, trazendo à tona fraquezas e falhas dos outros pra esconder nossas frustrações e falhas. É fácil parar pra analisar os outros, mas é confrontador fazer isso sobre si mesmo.

Um amigo me constrangeu esses dias enquanto conversávamos dentro do carro. Falou coisas que tinha observado em mim em algumas escolhas que fiz e pediu licença pra dar alguns conselhos. Engoli a saliva presa na garganta, porque essas situações não são confortáveis, mas agradeci. Encerrei a conversa com um “fique a vontade pra não me deixar cair no buraco e dizer essas coisas pra mim”. Porque é melhor que ele diga a mim do que esse ciclo que muitas vezes acontece de alguém que sabe tudo sobre a sua vida e tem um script de ajustes e críticas pelo que viu pela ótica do outro. E a verdade é que eu e você temos essa habilidade nada sadia de dar um raio-x da vida do outro pela nossa ótica (terceirizada).

“Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente quase parecendo te ferir”

Eu vejo que nossa dificuldade relacional tem vários fatores. As redes sociais, comprovadamente, nos deixaram mais tristes e mais atores também, porque elas potencializaram nossa mania de medir nosso sucesso ou fracasso baseado em comparação, como se rede social fosse um termômetro confiável de sucesso e realização.

Escrever esse texto p’ra mim é 50% do caminho da vulnerabilidade, os outros 50% estão em aprender a guardar o coração dos outros e guardar o meu sem me divorciar das pessoas, sem abraçar essa pangeia relacional que tem acontecido no mundo, onde ainda estamos conectados uns aos outros, mas divorciados dos sonhos dos outros, sem tato pra lidar com o coração dos outros e sem sabedoria para guardar suas fraquezas e batalhas, porque temos vergonha e não sabemos lidar com as nossas.

Andréa Dória é uma canção icônica e que soa como uma despedida e um reconhecimento de que uma amizade acabou mesmo. Ela termina com Renato cantando:

“Nada mais vai me ferir

É que eu já me acostumei

Com a estrada errada que eu segui

E com a minha própria lei

Tenho o que ficou e tenho sorte até demais

Como sei que tens também.”

Porém, se alguém é mesmo seu amigo e, é bom lembrar, eles não precisam ser perfeitos e inerrantes, sejam eles quem forem, os guarde. Mesmo que a pangeia relacional já tenha acontecido, mesmo que o afastamento tenha acontecido, os guarde.

Amigos são os que estiveram ao seu lado, sendo você sua melhor ou pior versão; estando você na sua primavera ou no seu inverno.

Um dia, dois amigos estavam juntos numa praia. Meio que de brincadeira um não mediu a força e o empurrando fez com que ele se machucasse ao cair. Esse amigo escreveu na areia “meu amigo me empurrou.”. Logo mais, esse mesmo amigo quase se afogou, o outro o salvou, então ele escreveu numa pedra “meu amigo salvou minha vida”. Vendo isso, o amigo perguntou: “Porque você escreveu sobre eu ter te empurrado na areia, mas sobre eu ter salvado sua vida você escreveu na pedra?”. O amigo respondeu: “Quando somos amigos, erros são inevitáveis, porém muitos acertos acontecem também. Na amizade, devemos escrever as falhas onde o tempo pode apagar, mas os acertos devem ter um memorial p’ra gente nunca esquecer.”

Como em Andréa Dória, toda amizade terá ciclos: encantamento, desapontamento, renascimento… todo amigo nosso vai de super-herói à vilão, de FDP à BFF. Mas no fim, todo amigo erra porque como eu e como você é humano. E a amizade é essa ferramenta de Deus de gerar o atrito que nos muda, se não a Bíblia não diria que “como o ferro afia o ferro, um amigo afia outro amigo”.

Agora você vai ouvir com outro ouvido, quando o Miltão cantar:

“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”

De um amigo não perfeito, mas que quer ser um melhor amigo.

Salmos de Rotina

Textos, poemas sem rima e canções sem refrão sobre a vida…

Guímel Bilac

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Brasília/DF. Meu coração é uma máquina de escrever, mas não sei se o que escrevo é poema ou poesia. Instagram: @guimelbilac. E-mail: guimel@globo.com

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