Você Pode Me Dar Um Abraço?

Guímel Bilac
Nov 8 · 4 min read

Outro dia eu descia o prédio pra ir até a esquina pegar o carro que eu tinha estacionado mais distante. Uma moça tava sentada em um dos degraus da entrada de uma loja. Ela me olhou, sorriu timidamente sem mostrar os dentes e eu sorri levemente também, só que disse “bom dia”. Chegando perto do carro, lembrei que tinha esquecido o carregador do telefone, então voltei. Ela olhou de novo, só que dessa vez não com o mesmo sorriso. Subi rapidinho, peguei o carregador, desci e passei de novo por ela que, dessa vez, me interrompeu:

-Moço, me dá um abraço?

Eu nem pensei duas vezes, porque ninguém pede um abraço à toa. Não abracei ela só porque ela era bonita (e era muito), mas porque no tom de voz dela tinha alguma dor, algo não tava certo no dia dela, sei lá…

Eu a abracei e ela repousou o rosto sobre meu ombro demoradamente. Chorou e aquele abraço parecia abraço de quem se conhecia, mas eu não a conhecia. Perguntei se tava tudo bem e ela disse só um “uhum”… “eu só precisava de um abraço hoje… desculpa… uma estranha te pedir um abraço assim…”

Eu falei que tudo bem e perguntei se ela queria conversar. Conversamos coisas que não vou escrever aqui. Mas desse dia em diante passei a olhar pro lugar onde moro de um jeito diferente. Principalmente, quando ela disse que às vezes me observava. Perguntou pelos meninos (meus três filhos) e comentou que sempre olhava pela janela dela eu indo e vindo de algum lugar com sacolas nas mãos ou levando ou buscando os meninos de algum lugar. Ela usou com a mãe a expressão “aquele homem que mora sozinho com os filhos dele…”.

Eu li em algum livro de português durante o tempo de escola um poema (ou poesia) de duas pessoas que se cruzavam por acaso na entrada de seus apartamentos e, depois de conversarem, cada um tocava a sua vida. Eu sempre me vi dentro daquele poema, embora tivesse muito medo disso. Eu gosto de gente que escreve sobre coisas cotidianas. Na verdade o olhar do coração de gente que escreve sobre coisas cotidianas me surpreende. Renato Russo mesmo era um observador do cotidiano, repara na estrofe de Eu Era Um Lobisomem Juvenil: “Ontem faltou água, ante-ontem faltou luz/ Teve torcida gritando quando a luz voltou…”.

Então um dia eu me sentei na janela e fiquei ali parado, sem nenhum som pra me distrair (fora o da rua) reparando nas pessoas passando e em como hoje as pessoas não param pra conversar na rua, né? Tipo, aqui em Brasília os muros são todos altos e não é como nos anos 80/90 em que você abria a porta da sua casa e os vizinhos estavam na rua trocando as frutas que cada um tinha no seu quintal ou apenas conversando…

Aí reparei num tanto de pessoa que vive só por aqui, como se aqui fosse um condomínio de solitários. Tipo um senhor que mora sozinho e tem dois cachorros daqueles pequenininhos bem velhinhos também e que são inseparáveis dele. Ele tem um corsa azul que ele nunca dirige. Uma vez por dia ele entra no carro com os dois cachorros, liga o rádio, fica lá uma meia-hora e sobe.

Aí tem um senhora também que, além de morar sozinha, não sabe dirigir muito bem e sempre encosta no carro de alguém e eu parei de estacionar perto dela.

Tem outro cara que também mora sozinho num prédio aqui perto e quando a gente se cruza pelo estacionamento e eu pergunto “e aí, tudo bem?”, ele sempre responde meio reticente e eu entendo, porque eu sou assim e identifico bem uma pessoa que tá meio frustrada e brigada consigo mesmo. Eu sou assim em dias ímpares e, às vezes, em dias pares.

Então, nesses dias em que eu olho pela janela e procuro alguma coisa pra me roubar o fôlego outra vez, eu sempre lembro de uma época da minha vida em que algo sempre me encantava, me tirava o fôlego, me fazia querer escrever uma música que mudasse o mundo ou roubar um beijo da primeira garota cujo olhar me fizesse ficar com a bússola do coração desnorteada.

Mas dizem, e eu sinto que é uma opinião geral, que o mundo tá estranho, como se faltasse o que Herbert Vianna chamou de “a palavra certa que faça o mundo andar”.

E a última pessoa pelo qual me encantei (não, não fiquei apaixonado) foi por aquela garota que observava o cotidiano da janela dela também. Eu vejo muita beleza nessas pessoas que não se distraem com tantas coisas que existem pra nos distrair hoje, num mundo em que os algoritmos nos ensinam a ser egocêntricos.

E assim eu ando pela vida. Esperando encontrar algo que faça as engrenagens do meu coração funcionarem outra vez e encontrar algo que eu estou procurando, que nem sei o que é, mas que sei que ainda não encontrei. E p’ra isso escalo montanhas e corro, escrevo poemas e olho pela janela que dá de frente p’ra um prédio em construção, porque quero crer que ainda sou uma obra inacabada. Sim, muito dessa frase é referência a I Still Haven’t Found What I’m Looking For do U2.

Um dia minha terapeuta tava conversando comigo sobre a “Função dos Relacionamentos” e sobre o fato de a gente às vezes se ver enredado em um relacionamento por que, entre outras coisas, isso é a única fonte que a gente tem de afeto. E a gente tá sempre procurando por afeto. O corpo e a alma precisam de toque, de abraço…

Por isso abracei a garota que pedia um abraço, porque naquele dia eu era alguém que me sentia invisível procurando por um e penso eu, que fariam fila pra comprar abraços mesmo que eles fossem vendidos muito caro. E há muitas pessoas pedindo silenciosamente por um abraço num mundo onde as pessoas andam muito olhando pra baixo…

Salmos de Rotina

Textos, poemas sem rima e canções sem refrão sobre a vida…

Guímel Bilac

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Brasília/DF. Meu coração é uma máquina de escrever, mas não sei se o que escrevo é poema ou poesia. Instagram: @guimelbilac. E-mail: guimel@globo.com

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