Por dentro da manifestação pró-governo de 31/03
Acompanhei hoje (31/03/2016) grande parte do ato pró-Dilma da Carioca. Cheguei a chamar de etnografia mais cedo, no Facebook, mas evidente que não se trata disso, no máximo observação participante. Pretendo honrar o diploma não fazendo o uso leviano dos conceitos e metodologias que alguns “cientistas” sociais fazem nas redes.

Por volta de 16 horas o ato começou com um gigantesco palco e muitas bandeiras do PT, CUT, MST e em menor número do PCdoB. Duas do PSOL também. Fora os transeuntes aos esbarrões pra passar, basicamente filiados dos partidos, sindicalistas liberados e integrantes do MST, UNE, UBES e outras juventudes partidárias. Preferi não conversar com nenhum deles nessa hora, fui para um bar do Edifício Central acompanhar o café de quem assistia a atração. Um grupo de homens, de 30 e pouco a 60 anos, 8 no total, comentavam. Negativamente. Chamavam de vagabundos, diziam que estavam todos ali pra “faturar um trocado”, etc. Embora eu saiba que é verdade o que dizem sobre os “guerreiros” de coletinho vermelho, como sindicalista aquilo ainda me incomodou. Terminei meu café, os termos se repetiam e eu mesmo poderia escrever o roteiro da conversa deles. Destaco só que ali a rejeição do governo Dilma e do PT era 100%. E que os indivíduos aparentavam ser humildes, trabalhadores como seguranças, serviços gerais e até mesmo atividades informais da região a Carioca, dois visivelmente já eram aposentados.
Entrei no BOB’s e fui pro segundo andar, de onde tinha uma vista privilegiada da praça. E onde tinha para observar algumas famílias lanchando. Os gritos do palco eram desnecessariamente irritantes. Não era necessário gritar, estender as vogais e repetir três ou quatro vezes a mesma frase como se estivesse sido abafado pela multidão. Nem multidão havia. Essa forma de comunicar prejudicava a recepção do conteúdo e irritava quem lanchava. O apresentador passava de um para o outro o microfone repetindo o bordão “não vai ter golpe, vai ter luta, o golpe é contra você”. Numa das vezes, uma mulher, 40 e poucos anos, negra, duas filhas, berrou de volta, inutilmente ela sabia: “Contra mim porra nenhuma, não fode!”. Todos riram no salão e aí sim o assunto pegou nas mesas.
Esse rompante parece que libertou os demais, que me atordoavam com comentários sobre economia, corrupção, Cunha, Dilma, Lula, problemas familiares com desemprego, etc. Escolhi duas mesas pra me focar. Uma de duas vendedoras de chip de celular que esperavam o responsável da área para relatório, outra de um casal. Jovens na faixa de 28 a 30 anos os quatro. O casal estava meio dividido. A mulher destilava verdadeiro ódio do PT e de Dilma, o rapaz contemporizava sem no entanto defendê-la. Só dizia que isso era geral, que sempre foi assim, que já foi pior, citou Cunha e Collor como inimigos de Dilma que também roubam. Errou sobre Collor, claro. Não que ele não roube, mas sobre não ser aliado do PT.
As duas moças tinham uma história mais interessante, porque davam conta da vida delas, de amigas, mães, etc. Os nomes em profusão só tinham uma coisa em comum: todos perderam o emprego recentemente. Uma delas mesmo só falava do emprego de call center que perdeu. Lamentava por não ter mais o salário, não pelo emprego que era uma merda. O comentário da amiga foi definidor: “amiga, ninguém tá comprando nada, ninguém vai ligar pra reclamar do que não compra”. Poderia escrever um artigo só sobre elas, os juros de banco absurdos que elas pagam por móveis que compraram, etc.
Antes de sair do BOB’s (eu não comprara nada, estava somente tomando água), um rapaz da minha idade entrou, camisa vermelha escrita CCCP, foice e martelo nas costas, duas crianças gêmeas de 6 ou 7 anos. Mulher veio logo atrás. O menino não parava de cantar “não vai ter golpe”. Fiquei mais um pouco. Eram mais de 30 enfurecidos com o ato no ambiente, e eles. Eu queria ver o que ia acontecer. Não aconteceu nada. As reclamações continuaram e a família ouvia tudo caprichosamente alheia. O pai tirou uma selfie de todos eles juntos no janelão que dava vista pra toda a praça. A foto deve ter ficado boa e já deve estar no face deles. Não tinham a menor pinta de que iriam pro meio do ato em si, então desci, porque já enchia.
Por volta de 5:30 aquela parte da Carioca estava cheia. Durante a eleição tinha ali o comitê de Dilma, e eu vi atos mais cheios ainda no primeiro turno. Mas estava cheio mesmo assim. As falas agora eram mais profissionais. Me postei do lado de um povo do PSOL e fiquei ouvindo. Após um representante da CTB gritar algo sobre imperialismo e CIA, um rapaz da CUT que eu conheço bem falou que o “golpe” era contra os trabalhadores. Rapidamente elegeu Moro como o inimigo, acusou a Lava-Jato de nos jogar no desemprego e de prender as lideranças de esquerda e os geradores de emprego (Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa… Esses, entendeu?).
Uma representante da UEE, que conheci há uns 13 anos quando fui da AMES, falou que o golpe era contra a juventude e a educação. Estudante da [em estágio calamitoso] UFF, disse que os efeitos do ódio ao PT já chegavam à universidade, que todos deviam se unir contra a destruição da educação pública que Serra e o PSDB pretendem com o “golpe”. Percebo nesse momento que ainda não ouvi qualquer referência à Aécio, nem nos cartazes e faixas.
O apresentador grita que quem não pula é golpista. O gargarejo pulou, o resto era tudo golpista, eu no meio. Em seguida ele fez uma saudação aos partidos presentes no “ato contra o golpe” — e pra mim esta foi a declaração mais genuína contra todo o marketing diversionista sobre democracia: O ato era pró-governo e ponto. Saudou o PT, depois “os comunistas do PCdoB”, o MST, a UNE, UBES, UEE, UJS, depois destacou o imperceptível PCO e, por fim, o PSOL.
Uma mulher discursou que o golpe era contra os negros, os gays, as mulheres, os pobres. Que a elite odiava Dilma porque ela é mulher, porque ela luta pelos direitos das mulheres, dos gays (really?), e porque os negros e pobres agora estão melhorando de vida. Um outro sindicalista, metido a saber de sociologia e história (engenheiro de formação — eu o conheço) foi didático em dizer que estamos às portas de 1964, que a luta de classes era aquela praça contra os fascistas de verde e amarelo, que seu sangue é vermelho e ele está pronto a provar isso vertendo-o na luta. Comparou Dilma com Jango, que a elite está desesperada pra tirá-la pois a presidente estava prestes a promover reformas como as de base.
O último que acompanhei era um jovem, perdi a organização que pertencia, mas falava do fascismo (sic) das ruas. “Novamente caçam quem usa vermelho” disse ele. Imaginei referência ao regime militar, mas ele falava de 2013. “Companheiros foram espancados por estar com bandeiras do PT” continuou rememorando os conflitos que a esquerda tradicional manteve com a multidão que foi às ruas em 2013. Ele destacou que esses “quinta coluna” mais uma vez estavam nas ruas ontem — teve um ato de anarquistas, autonomistas e muitos ativistas ontem (30/03) contra a polarização e por pautas concretas da população oprimida. Terminou exigindo união e alertando sobre o risco “desses” voltarem às ruas para a alegria da direita. Se referia ao uso da tática Black Bloc por autonomistas e midialivrismo por coletivos não cooptados como a Mídia Ninja.

Fechei o pad do celular e fui me afastando ainda com tempo pra ouvir, sob muitos aplausos, algum dirigente do PT dizer que “nos livramos do PMDB” e que agora Dilma poderia enfim fazer seu governo pela esquerda. Parabenizava os presentes por essa vitória do governo em “defenestrar o PMDB”. Ok, foi o PT que os expulsou, nem está de joelhos pedindo que voltem, ok.
Eu me acostumei com os atos de 2013 e 2014, fui em dois ano passado e nesse contra a tarifa, e me pareceu absolutamente estranho o comportamento dos presentes. Bebendo, conversando sobre qualquer outro assunto, estáticos segurando enormes faixas, balões, bandeirões, se abanando, ansiosos pelo fim, alheios às falas repetitivas, etc. Vibrando por frases que não ouviram, aplaudindo por osmose… Era também um ato velho. Embora contando com colégios inteiros trazidos pelas entidades estudantis, por animadores no palco que dançavam e faziam rap, a plateia era maciçamente acima dos 50 anos. Não vou comparar com os atos “dos verde e amarelo” porque não fui — nem quando esses eram os petistas dizendo #VaiTerCopa.
Fiz duas entrevistas que colo o resumo abaixo. Nada de muito especial. Não foi difícil saber quem seria contra e quem a favor. Fui no pipoqueiro, feliz da vida com o movimento, puto da vida com o governo, e numa senhora idosa, lenço vermelho, pintura vermelha no rosto, convencida que tinha dedo do Obama nesse “golpe”. É caricato, mas como disse, eu fui na variável de teste e na de controle. Não tinha como eu saber, para além da minha hipótese, a posição do pipoqueiro.

As duas entrevistas foram bem rápidas. O primeiro foi o pipoqueiro. Ele estava no meio da manifestação, e eu o procurei ainda 5 e pouco da tarde, quando a manifestação o envolvia mas havia bastante espaço livre — vi que ela encheu mais depois. Marcelo é pipoqueiro há alguns anos, sempre pelo Centro. Perguntei, pra introduzir, se ele estava “se dando bem” com o movimento. Ele sorriu e disse que sim. Me devolveu a pergunta se eu estava junto com o pessoal. Respondi que não, que estava passando e fiquei curioso. Já tinha pedido uma pipoca. Enquanto ele preparava a minha, já tinha mais 2 em volta pedindo, vestidos de vermelho, tirando sucessivas fotos. Perguntei então o que ele achava, e narro abaixo a conversa, de forma resumida:
- É democrático né? Teve a do pessoal contra, agora dessa galera aí.
- E você, é contra ou a favor?
- Ih eu não vou escolher não — disse rindo e olhando em volta — nem que eu fosse contra eu ia dizer aqui.
- Ué, porque não? O pessoal é pela democracia, você tem seu direito pô.
- É melhor não. Agora, acho que todo mundo tá cansado né? Tá tudo caro, eu mesmo to adorando aqui porque de forma geral o movimento tá mais fraco que de costume.
- E se o Temer assumir, melhora?
- O vice? Pô, sei lá… Ele já tá lá, né? Tá lá desde a outra, se não me engano.
- Sim. Tá com a Dilma desde 2010. E o partido dele também tem metade dos ministérios. [Exagerei pra denotar bem minha questão]
- Aí! O cara vai dizer o que? A merda também tem dedo dele, do partido dele. Tem ninguém santo. Só eu, que vendo pipoca! — e deu uma gargalhada me dando a pipoca.
- E se fizessem novas eleições, votaria nele ou nela de novo? — perguntei enrolando pra pagar.
- Vô falar pra você — falou em voz mais baixa e se inclinando — Eu não tenho como votar de novo neles não. Nem sei em quem votaria se a eleição fosse hoje. O outro também tá todo sujo. Eleição seria um jeito de dar uma limpa, mas com quem?
- O Aécio? Tá envolvido na Lava-Jato também. Mas quem lidera hoje é a Marina. E não dá pra receber mais doação de empreiteira pra eleição agora.
-Pô, aí dá uma esperança né? Mas a Marina… não sei se ela apoia esse pessoal do poder aí. Ela era da turma… Vai acabar tendo eleição com só ela de candidata, todo mundo preso, aí nem tem como escolher outro né? — me deu o troco e passou a atender os outros.
- Valeu, força aí! — disse me despedindo.
Quando eu ia embora, já na ponta do Largo da Carioca, um grupo de senhoras estava sentada num canteiro público, roupas vermelhas, bandeiras de Dilma (confesso que não atentei se tinham coberto o nome do Temer) amarradas no pescoço e estendida às costas. Uma delas, mais animada, tinha pintado o rosto com tiras vermelhas, como uma índia. Sentei do lado, pensei como puxar o papo e comecei assim:
- Tá bastante cheio né?
- Tem mais de 100 mil aqui meu filho! [Tinha umas 15 mil na hora]
- Tudo isso? Caramba… Agora a Dilma ganha um fôlego né?
- A mulher é forte rapaz. Ela não vai aceitar esse golpe não. A direita quer voltar, mas não vai não!
- Mas o governo dela tá bem de direita também né? — falei, arriscando sair dessa ladainha fechada e tautológica.
- Tá nada! Era o Temer, o Cunha, esses merdas que ela tinha que aturar. O povo agora tá na rua pra ela, quem precisa de PMDB?
- Mas foi assim que ela se elegeu e reelegeu. Tenho medo, vou falar pra senhora, que ela volte pros braços deles na primeira hora. Minha avó reclama direto que o aumento da aposentadoria dela é sempre menor que o salário mínimo…
- O meu também é uma miséria, nós somos pobres menino, por isso a gente tá do lado do Lula. Ruim com o PT, pior sem ele. Você nem deve ter visto isso aqui na época do FHC…
- Vi sim. E minha família perdeu o dinheiro de uma casa na época do Collor…
- Aí, tá vendo? São eles que vão voltar. Não, não vão não! Não vai ter golpe! — disse sorrindo, feliz por ter me ganhado com o apelo ao meu passado triste do confisco.
-É. Espero que a gente não leve golpe de novo, ela ganhando com a esquerda e governando com a direita, né?
Essa minha última fala fechou o diálogo, ela não respondeu mais minhas perguntas. Tentei abordar a possibilidade de novas eleições, mas ela me olhou tão feio, que entendi que ela ouvia o que eu dizia, mas fazia a escolha de sacudir um bandeirinha do PT, gritar contra o “golpe” e me ignorar. Nem tive coragem de perguntar o nome. Bebi um gole d’água, peguei a mochila, me despedi das demais e dela, e ela, sendo simpática, me disse: “não vai ter golpe, hein!”.
*Ilustram este relato imagens da “democracia” deste governo para movimentos sociais autônomos e para os pobres e negros nas favelas sob intervenção militar, e o cantinho “psolista” que fiquei, junto do carrinho de pipoca.