De credor à fiador

Santo Irgo
Jan 29, 2018 · 3 min read
Tradução: “Antes de eu fazer qualquer coisa eu me pergunto ‘um idiota faria isso?’ se a resposta for sim, eu não faço aquela coisa” (Dwight Schrute — The Office US)

Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem — e tremem!
Tiago 2:19

Esse versículo já foi muito utilizado para responder a quem diz que é crente, como se o vocábulo utilizado fosse muito importante. O que a gente perde, ao dizer isso é simplesmente genial. Vamos pegar um pouco antes e um pouco depois pra entendermos o contexto da fala de Tiago:

Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia
e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso?
Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.
Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras.
Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem — e tremem!
Insensato! Quer certificar-se de que a fé sem obras é inútil?
Não foi Abraão, nosso antepassado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar?
Você pode ver que tanto a fé como as suas obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras.
Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus.
Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé.
Caso semelhante é o de Raabe, a prostituta: não foi ela justificada pelas obras, quando acolheu os espias e os fez sair por outro caminho?
Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta.
Tiago 2:15–26

Em um trecho que causa muita confusão, principalmente em acalorados (e geralmente insensatos) debates entre calvinistas e arminianos, entre fé, obras e salvação, advogo pela interpretação de que Tiago fala sobre como a fé modifica o agir do sujeito. A partir do momento que o homem crê, e tem fé, age através desta fé, construindo obras. As obras neste sentido são consequência da fé; e não pressuposto.

Mas o que isso tem a ver com crer?

Crer vem do latim credere — quem crê, crê em algo: io credo in te (eu acredito/creio em você). Não é à toa que quando alguém empresta para alguém torna-se credor: porque a pessoa acredita naquela para quem empresta o dinheiro. O credor confia no devedor, por isso, empresta.

Crer é diferente de ter fé. Fé, que também vem do latim fides é algo que você tem acerca de alguém. O fiador,no nosso direito comercial não é aquele que confia em alguém algo que lhe deu; o fiador é aquele que simplesmente confia. Por isso, se a pessoa não cumprir com sua palavra perante um terceiro, o fiador será executado em seu lugar.

Logo, a diferença é que o credor não se arrisca. No máximo, arrisca algo que tem: o credor arrisca o que lhe sobra, por isso abre mão, tendo confiança de que irá receber de volta; o fiador não. O fiador acredita no outro e por isso abre mão do que tem em nome dele.

O que Tiago fala é que Abraão foi fiador: entregou o que tinha, arriscando seu próprio filho; Raabe foi fiadora: disponibilizou o que tinha, arriscando a sua própria cabeça. Sem a menor segurança se arriscaram em nome do que não só acreditavam, mas tinham fé.

santoponto

Pensamentos, reflexões e não-devocionais.

Santo Irgo

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Advogado, chato de sapatos e prendedor de gravata.

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