A FENDA NA CRISÁLIDA

Por esses dias ando inquieto. Taciturno, tantas vezes, pra ser sincero. A verdade é que há uma rachadura em mim. Sinto-me quebrado. E quem gosta de estar partido? Logo, a princípio, me viera a dor. Desespero, até. Dói ver-se incompleto, violado. A fragilidade se desvela.

Num cenário desses, não se recolher é impossível. A postura ensimesmada é compreensível. E aos dissonantes, a indiferença. Quer-se estar fixado sobre um ponto seguro.

Mas, parado não quer dizer paralisado.

No como começo, a luz que entrava pela fenda em mim escancarada carregava agonia. Mas, aos poucos, vou me acostumando com a claridade. Assustado ainda, porém, curioso. Temer não é a ausência de coragem; falta de medo é estupidez. Valente que sou, encaro a fissura. A examino, a decoro, a questiono. Acostumo-me a ela. Isto, paulatinamente.

Passamos a conviver. A trato como a uma companhia. Em meu interior, agora, somos dois, a fenda e eu. E como sempre, do convívio, advém a compreensão. Em etapas, vou conhecendo melhor a nova inquilina de minha morada.

Não faz muito tempo, ela começou a falar comigo. Sua voz me soou um tanto asquerosa em primeiro toque. Hoje, é suave e confortável. Minha fenda falou que não estava ali por violência. Foram determinadas condições que a puseram em tal lugar. Entretanto, confessou-me que em breve, provavelmente, não comungaríamos mais o habitat. “Vai embora?”; perquiri. “Talvez.”. Calou-se de novo. Concluí o que estava por vir. A morte. Dela, ou, minha.

A rachadura que me aterrorizara, era, de fato, não uma invasão, mas uma libertação. Era a fenda na crisálida. A luz, então, entrou, ainda mais.

O recente ato brusco que me defrontou na vida apenas me fez revirar e notar a fenda que já estava ali. Tal choque balançou a estrutura do meu ser, retirando-me do ponto de conforto, fazendo que eu tornasse a visão para outro lado. E ao virar, lá estava a fenda. Como não havia a notado? Talvez, porque antes ela não me incomodava. E assim, também não me amedrontava. Contudo, tampouco falava comigo. Não me ensinava nada, relegando-me à minha própria ignorância.

Em reflexões, lembrei-me dos indícios da abertura da crisálida. Nos derradeiros meses, tenho visto o mundo com outros olhos. Melhor dizer, com a ajuda de outros olhos. Em nossa vida, há pessoas que pouco acrescem, há as que adicionam bastante, as que destroem, e, ademais, as que desconstroem.

Com isto à mente, a resposta veio num lampejo.

Fora uma pessoa quem me trouxera a importância da busca pela leveza. Mostrara-me quão belo pode ser a vida em sua simplicidade. Ela que a mim desnudara o perigo de errarmos com os que nos são importantes, pois isto pode marcá-los pra sempre. Agira comigo como ninguém antes, quando me vieram fatos que já me assombraram outrora. Fora sustentação, quando eu balançara. Sem saber, acertou meus desejos secretos, guardados tão profundamente que sequer eu os visitava. Deixou-me plenamente a vontade para contar pensamentos que jamais externalizara. Confiou a mim alguns de seus sonhos, e passei a sonhar com ela sua realização. Partilhara momentos comuns, que nada tiveram de comezinhos. Tropeçou sim, mas me fez sentir forte e útil, quando me pus ao seu lado para não deixá-la ir ao chão, e, de mãos atadas, demos mais uns passos.

A partir dela, também pude perceber que mesmo os que nos querem bem podem agir mal quando tentam se proteger, mas que isto é uma oportunidade para praticarmos compaixão e moderação. Que podemos retribuir condutas ruins com carinho, e esperar nada em troca. Todos temos pontos de melhorias, e tanto os nossos, quanto os do outro, devem ser compreendidos e trabalhados, a dois. Que ambos devem ser claros quanto às suas expectativas e objetivos. Problemas e temores, estes hão de ser conversados e enfrentados, em conjunto, pois seus reflexos podem abalar todo o fundamento. E que pouco se resolve, se quatro pés não decidem seguir a mesma direção em marcha contígua. Por isto é preciso entrar pra fazer dar certo, e não apenas esperar que dê certo. E se não vingar, o esforço comum, certamente, será mais reconfortante que a mera postura de espectador da própria vida.

Ademais, aprendi que todos têm o direito de tomar suas próprias decisões. Por vezes suas razões nos serão insondáveis ou inalcancáveis, mas isto apenas porque as pessoas diferem entre si, em valores e vivência. Cabe apenas o respeito à postura alheia, quando esta é tomada de forma digna e correta. A insatisfação pela discordância é aceitável. Deve-se e evitar a mágoa extra decorrente de má conduta. Entrementes, perdoar também é necessário. Afinal, ante o passado imutável, é preciso selecionar as boas lembranças que farão parte da nossa história. Ninguém deve guardar o que for negativo, pois as melhores narrativas são as que revelam o que se captou de bom das próprias experiências. Todo mal carrega em si um pouco de bênção. Basta olhar direito.

Diante disto, ou seja, de mim, notei que dela jazia a nascente que em mim aflorara, de ser um homem melhor, e o melhor homem que posso ser. Ela, o fato; eu, o ato.

No curso da minha vida, ao topar com ela, a fenda na crisálida já devia estar lá. Mas foi seu não que me matou, descerrando mais a abertura, tornando-a visível. E isto, não foi ruim. Pois como na fé dos cristãos, morto, ressuscito, para me tornar o que devo ser. Era lagarta, tornei-me pupa, e agora, irrompo da crisálida, para ser quem sou, quem quero ser.

Não pretendo voltar ao casulo. Pois, em epifania, assisti ao homem que no futuro quer falar com orgulho de seu passado, cujos os sonhos quer partilhar e as conquistas dividir. Vi os compromissos que quero assumir; o rumo que buscarei ter. Hoje, as crenças alheias me conquistam, de modo que não acredito mais nas minhas antigas descrenças. Ressignifiquei aquilo que sequer via significado. E mais, enxergo os casais por outras cores; os risos das crianças entoam melodiosos; os problemas rotineiros a mim se apresentam como vindouras anedotas a serem contadas em noites de calma; os dias em que nada acontecem possuem o charme de um dia inteiro numa vida plena; dois agora é um número bem vindo, especialmente ao se acrescerem pequenos um, dois, três. Entendi que nada vem fácil, e que sem comprometimento, qualquer coisa boa pode perecer.

Sim. Pessoas operam milagres em pessoas. Somos todos potenciais instrumentos de transformação. Ainda que por um encontro fugaz. Ainda que fiquemos para trás, e a mudança à diante. Cada um de nós deveria ter consciência disto, e nos orgulharmos de tal bênção e responsabilidade. Porém, em regra, tal alcance transcende nossa limitada percepção.

Inobstante, por enquanto, preciso reconstruir meu eu. O que antes parecia um cenário lógico e exato é um quebra-cabeça embaralhado, com partes da vida emaranhadas, aguardando ser remontado. É o que farei. Como ouvi uma vez, começarei pelas peças azuis, pois, ao olhar pro céu, a imagem do horizonte amplia a perspectiva do porvir, e preenche o vazio de esperança.

Mesmo assim, simplesmente, sou grato. Afinal, pretendo o melhor do reedificado.

Pois bem, a fenda na crisálida se abriu. E agora? Acho que virá o que tiver de vir. Incerto em fatos, como o futuro sempre é. Mas, se pudesse escolher, neste momento, como meus dias seriam, e o que faria com eles, penso que já sei o que responderia.

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