O amor de fantasia inesperada

Batem à porta da sua casa. Dia comum, início da noite.

- Quem é você?

- Sou seu amor.

- Quem!?

- Seu amor.

- E por que você está vestida assim?

- Assim como?

- Ora, com essa fantasia de pirata?

- Por que essa sou eu.

- Tem certeza que veio ao lugar certo?

- Acho que sim. Diga-me você. Confira aqui o nome e o endereço desta encomenda que chegou em minha casa. Nela está escrito que eu te amo e você me ama.

- Sim. Confere. Mas quem a enviou.

- Sei lá. Dizem que quem faz isso é o cupido, ou os deuses, ou…

- Sim. Já entendi. E você acredita nessas coisas.

- Na verdade não. Mas a essa altura já não importa tanto. Que diferença faz? Já estou apaixonada por você e você por mim.

- Compreendo. Acontece que eu queria um amor com fantasia de enfermeira.

- Pois é, mas eu sou pirata. Essas são minhas únicas vestes.

- Mas e a enfermeira?

- Sei lá. Você conhece alguma enfermeira?

- Não.

- Então, só sobrou a pirata.

- Mas e a enfermeira?

- Qual enfermeira?

- A fantasia de enfermeira que sonhei pro meu amor.

- Você ama alguma enfermeira?

- Não. Já disse que sequer conheço uma enfermeira.

- Então qual o problema em amar a pirata?

- É que eu esperava a enfermeira.

- E vai continuar esperando?

- Não sei. Pensei que… é…

- Respeito sua posição. Mas, me responda, e se a pirata for embora e a enfermeira nunca vier? Ou se ela vier de um jeito que você nem goste tanto?

- Bem… Jamais havia pensado nisto.

- Então. Até onde a gente sabe, eu te amo, você me ama. Onde está o erro?

- Acontece que não foi desse jeito que imaginei.

- Ai, ai, tinha que ser um palhaço.

- Calma, não precisa ofender.

- Não. Estou falando da sua fantasia de palhaço.

- Qual o problema dela.

- Nenhum. Mas também não é o gladiador romano que eu queria.

- E quem é esse tal gladiador?

- Está com ciúmes?

- Negativo. Apenas, curioso. Não é por eu te amar, como está escrito aí, que nós dois…

- Devem ter errado mesmo.

- Quem?

- Quem me fez amar o palhaço. Sempre fiquei observando o gladiador perfeito que eu conheço. Mas o pacote do amor chegou com o nome do palhaço. Palhaçada, né.

- Engraçadinha.

- Viu. Ponto pra mim. Você gosta de pessoas bem humoradas.

- Gosto mesmo. Mas como sabe disto?

- Simples. Li na sua ficha. Ela não está completa, mas acredito que existam coisas sobre o outro que temos que descobrir juntos.

- Faz sentido. Deixe-me ler a sua ficha.

- Toma.

- Nossa. Tem muita coisa interessante aqui.

- E ainda está incompleta.

- Mas se eu não gostar do que eu ainda for descobrir.

- Esse é o jogo. Do contrário não teria graça. Seria só preencher uma requisição.

- Mas…

- Não vai falar da enfermeira de novo né!

- Geniosa você.

- Sim. Está escrito aí. Linha 6.

- É mesmo.

- Olha, então vou indo.

- Calma. Por qual motivo?

- Por que não sou enfermeira. Você só quer tentar amar enfermeiras.

- Não disse isso.

- Mas também não falou o oposto.

Um breve e embaraçoso silêncio.

- Não quer entrar? A gente conversa com mais tranquilidade.

- Decidiu?

- O que?

- Me amar.

- Mas já te amo, está escrito, não está?

- Sim. É pegar ou largar. Eu já arrisquei vindo aqui. O amor é presente, e presente não se recusa. A gente recebe, agradece, experimenta. Se não couber, paciência.

- Então vamos tentar, não é. Vai que a enfermeira nunca chegue.

- Vai que eu te faço esquecer a enfermeira e sonhar com a pirata.

- Falando assim, acho que já sei por que te amo.

- Mesmo sendo só uma pirata?

- Se você aceita o amor do palhaço, ao invés da expectativa pelo gladiador, penso que não terá como não te amar.

- Então sai logo de frente dessa porta e me deixa entrar, seu palhaço.

*****

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