Outra Vez

Outra vez.

Aquele mesmo olhar me fita, repisando sua indagação intermitente.

Se me incomoda? Sim. Claro.

Mas não é a pergunta. Não é a resposta. Sequer a dúvida.

Não é a postura incisiva e intimidadora do inquisidor.

É o próprio sujeito. Figura que insiste em descrer. Teimosa em temer.

Indivíduo que conheço tão bem.

Ali, suspenso ante o espelho, vacilo, pelejo, finjo, fujo, insisto, persisto.

Em fração de segundo. Sem racionalidade. Quase imperceptível.

E assim seria, se minha garganta e pulso não delatassem tal inconstância, repelindo a desejada auto indulgência.

Penso em falha, fracasso, queda.

Resultado: rumo adiante.

Tento pensar que tremer não é coisa tão séria assim.

E que tampouco seja relevante o próprio medo, apelidado “preocupações”.

A incerteza do porvir apavora, mas não posso lhe ofertar correntes para que me aprisionem.

Devo ir. Vou. Ponto. Mesmo que não pronto.

Infeliz é ser estático. Não falo do estar, mas do ser.

Ser inerte, retumbando aflições, de modo surdo-mudo.

Quem não cai, não levanta. Quem não gela a espinha, não pode valorizar o calor nas veias.

Aos mornos, que não vão nem ficam, lhes farão companhia minhas condolências.

Como fugir? O erro é tão certo quanto a morte. Esta definitiva, aquele rotineiro.

Ainda que nem sempre irrelevante, é cotidiano.

Obrigo-me a lembrar de sua face, tentando torná-lo amigável.

Afinal, creio — e se trata de fé e esforço — que seu semblante será o último que verei antes de contemplar o acerto.

Dito tudo isto, e meu olhar ainda fincado no espelho.

Agora completa aquele segundo por inteiro.

Afasto-me do reflexo.

Viro-me, e vou. O certo é que vou.

E se der errado, reengenho, “rearrosto”.

Sei que retornarei nesse ponto.

Mas vou.

Não por talento ou coragem. É por não saber ser diferente. Nada de tão especial.

E enquanto me movo, há coisas que não quero saber.

Talvez só saber disso baste.

Vou.


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