Recorte de “A criação de Adão”, de Michelangelo.

Reconciliação

Nos falávamos todas as noites. Por décadas frequentei Sua casa. Isto até certa idade. Em dado ponto, continuei a visitá-Lo, mas apenas por costume ou para acompanhar pessoas em comum. Continuava a ouvir Sua palavra. Acho que nunca me afastei tanto do cerne dela em minha rotina. Fui forjado, de pequenino a homem feito, no estudo de Seus ditos. Por anos fui educado em colégios com Sua bandeira. Completei todos os ritos exigidos em Seu nome. Não posso negar que Ele participou, intensamente, da gênese do meu caráter, da minha base, da formação de meus valores.

Visitou-me, então, a dúvida. Foi o bastante para balançar a relação. E um dia, simplesmente, deixei de sentir Sua presença. A princípio eu questionara, é verdade, entretanto, para mim, era como se Ele tivesse ido embora, ficando, eu, para trás, desacreditado, enquanto todos seguiam com Ele, acreditando. Não foi bem uma escolha, foi um fato. Sobrou-me o humano, o qual passei a amar, acima de todas as coisa; e continuei amando ao próximo como a mim mesmo.

Com o tempo, percebi certa incoerência em mim. Pois ao olhar para trás vi que parte dos questionamentos surgiram de decepções que tive com atitudes de tantos daqueles que diziam Lhe ser próximos. Porém, teria eu O julgado pelas irregularidades dos homens, os quais, mesmo com toda sua imperfeição, tanto prezo? Julguei; e julguei mal. Errei, pois, por óbvio, também sou humano. Ao passo que erravam com embuste em Seu nome, eu errava por cair em tal intrujice.

A partir disto, recolhi-me a um novo ponto de vista. Passei a observar, com maior acuidade, os outros e a mim. Investido de maior temperança, algo interessante aconteceu. Meu foco, aos poucos, deslocou-se do mal ao bom exemplo. Substituí a base negativa da hipocrisia alheia pelo alicerce do comportamento virtuoso, da inserção e manutenção de valores dignos, na força ofertada, no conforto proporcionado, na esperança derivada, na moderação inculcada, na alegria transmitida, no compaixão incutida. Presenciei, repetidamente, Seus dizeres como justificativas de boas condutas e motrizes de atitudes coerentes. Convivi, em harmonia, com os que fizeram Dele sua baliza. Hoje, por exemplo, admiro os que O admiram. Principalmente, os que se esforçam por orientar-se pelo que Dele extraem de bom. Inclusive estimulo e aconselho, quando posso, que busquem apoio Nele. Se isto os alimenta que se fartem Dele. Recuperei, assim, o apreço por Ele. Tão somente por vê-Lo fazer bem aos que tanto quero bem. Ao admirá-los, respeitá-los, amá-los, sinto-me amando, também, a Ele, pois vejo Ele nestas pessoas.

Sendo sincero, tenho até acreditado, ao meu modo, Nele. Não posso negar Sua existência no âmago dos Seus. Lá, Ele vive, reside, atua, opera, é completo e inabalável. Porém, tal noção peculiar não se adaptaria aos modelos mais populares de se professar, destes que dizem por aí estarem em conformidade com o que Ele deseja. E por isto, sou rotulado. Entrementes, confesso que, outrora, também busquei amparo em denominações preestabelecidas para sentir-me encaixado, pertencente, ainda que a uma minoria.

E tal giro, nem tão copernicano, adveio, como pus acima, da minha recolocação como observador renovado. Ao notar tantas pessoas iluminadas que conheci, muitas se pautando fortemente pelo que constroem Dele, senti-me abençoado. Por conseguinte, indaguei-me sobre a possibilidade Dele estar agindo em minha vida por intermédio das pessoas fantásticas que encontro. Ele falando com elas, no coração delas, e elas falando comigo. Pensei, ainda, que os valores que pude colher do tempo que andávamos juntos amalgamaram-se na base do meu ser, fazendo de mim, também, instrumento do que carreguei de bom de Suas palavras. E assim, agindo no espaço do meu livre arbítrio, sem sequer me declarar Seu arauto, levo parte Dele aos que encontro. Seriamente, penso que boa parcela de minhas condutas O deixaria contente.

Em face disto, concluí que nossos valores não são tão dessemelhantes. Talvez, o seriam apenas pela interpretação Dele, feita por alguns. Mas foi, justamente isto, as más interpretações, o vil emprego, o ardil, o abuso, a demagogia, a segregação, o preconceito, tudo sob o falso manto do correto, que convidou a dúvida à minha morada. Foi por tal espécie que algo em mim esmoreceu. Decepcionei-me vendo maus homens. Decidi não ser um. Se tivesse que dar meu testemunho, o daria em atos, dia a dia, não em discursos. Afinal, qualquer sentimento pode ser verbalizado, mas apenas pode ser demonstrado em ações.

Só que a dúvida permanece. Tenho a liberdade de mudar de opinião conforme minha percepção se altera, à medida que meu horizonte se amplia. Minha perspectiva se transforma, e renovo-me. Permito-me pender ao que me toca. Não quero dividir minhas dúvidas. Elas são minhas. E do mesmo modo que bastou dúvida para eu ir; tem sido ela própria suficiente para me fazer sentir como se estivéssemos mais próximos. Talvez, até, perto como nunca. É como se, mesmo sem nos falarmos, soubéssemos que um quer ao outro bem, concorrendo no pacto de buscar o melhor para o homem, para o próximo. Ambos, de igual lado, combatendo o bom combate.

Resgatado o apreço, parceiros em silêncio, agora, é como se eu esperasse Ele voltar, tocando-me, apresentando-se, novamente, a mim, para que eu, após tanto tempo, possa reconhece-lo. Concedo-me o direito de esperar e de continuar observando. Pode soar orgulhoso, mas creio ser o reverso. Aceitar que me encontro em estado volátil, em constate mudança, num aprendizado eterno, sem pretensões de certeza, buscando ser convencido, aberto em ouvido e peito, disposto a tomar a direção que for, almejando somente tornar-me homem melhor, faz-me sentir o ser mais humilde de todos, despido de qualquer anseio de razão absoluta, de julgamentos, sem intenção de diminuir, refutar ou persuadir o outro, pois todos estamos em patamar igual. Insisto, permito-me; e sinto beleza nisto.

Quem sabe O sinta, novamente. Tal dia pode ser hoje, amanhã, mês que vem, daqui a uma década, no leito de minha morte, ou, pode nunca vir. Entretanto, na jornada, espero, observo, ajo, vivo. Permaneço sereno, pois sei que, a qualquer um, no momento que for, é permitido voltar-se a Ele. Aliás, dentre os que agora se dizem tão juntos Dele, muitos andaram bem mais longe de Suas orientações que eu jamais caminhei. Por ora, sinto que nos reconciliamos. Não precisamos de denominações ou dogmas para que falemos a mesma palavra. O amor e a caridade hão de superar a carência de adoração. É o que creio, sem pretensão de certeza, ainda em dúvida. Até porque não se trata de certeza, e sim de sentir. Uma crença por outra crença. Confesso, assusta-me essa dúvida sobre a dúvida. Seria ela sincera? Enfim, acalmo-me. Que bobagem. Dúvidas são sempre sinceras, muito mais que brados de certeza.


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