
Seus olhos
Bem próximo ao meu rosto, sua respiração ocupava o ambiente. Sentia a ardência do seu sangue e inalava o que sua pele me entregava. Era daqueles momentos em que palavras significam quase nada. O mundo havia ficado do lado de fora da janela, e até então, quem estava ali não se importava. Morte ou nascimento, alheio à cena, era irrelevante. O que não contribuía para o instante fora expulso, porta afora, pela intensidade dos corpos. Último sujeito restante, o “nós”. Era sublime e sujo, brutal e sereno, devasso e doce.
Sempre fui aficionado pela beleza, e a estética do corpo que havia buscado possuir, por capricho, deleite ou tédio, do modo que estava a fazer, bem me agradava. À cada parte que vencia a desnudá-lo inundava-me a certeza que a sorte encontra o atrevido. Estava tendo o que queria, e queria mais. E no meio de bocas, mãos e braços enroscados, fui arrebatado. Assaltou-me a atenção seu olhar. Não recordo de ter visto algo parecido em outro alguém. Aqueles olhos apontavam diretamente para os meus. Senti-me alvejado por uma saraivada de flechas. Trepidante, seu olhar emanava feixes de sentimentos incontáveis. Uma supernova, contornada por prazer e afeto. No emaranhado circunscrito era difícil nomear o que se via. Uma tormenta de emoções.
Impactado, surgiu em minha mente a indagação de como deveria ser difícil controlar aquela tempestade. Provavelmente, seria algo altamente exaustivo. Mas quem é louco o suficiente de tentar erguer muros sobre o pantanoso terreno dos sentidos? Emoções são, na melhor das situações, manejáveis, entretanto, indomáveis. O peito, como um cachorro estúpido, fará o que bem desejar, indiferente ao que lhe for comandado.
O olhar tremulava. Lampejos de luta por sensatez contra arroubos de permissão à loucura. Um turbilhão, vacilante em dever, insistente em querer. Impressionava-me ver vontade ser rasgada pelo medo, e no mesmo espetáculo, assistia o desejo afogando-se na culpa. Em minha mente, a taxei tola, por possivelmente ignorar que sentimentos se robustecem em luta. Ao lhes repetir o não, ainda se está a falar com eles. Logo, ficam, e não se esvaem. Por vezes, bem mais fácil é dar-lhes vazão, pois possível é que o maremoto anunciado não passe de marola.
Voltei-me aos seus olhos. Delatavam um ir e vir, do passado ao futuro, à baldear no presente. Fascinado, observava a moralidade tão próxima da lascívia, o remorso coabitando com a entrega, a castidade sendo despojada pela ousadia. Era a palidez de quem tem fome enlaçada ao rubor de quem quer ser devorada. Seus olhos borbulhavam em perguntas defensivas e respostas prontas, de modo tão caótico, que estas não conseguiam se reunir. Sentimentos disléxicos em efervescência.
Contive-me, suavizando o ar com ditos de carinho. Tais sementes vingaram e pareceram abreviar a derrota da racionalidade. Mas há pessoas que insistem em crer na primazia da razão, como se esta, divorciada dos sentidos, fosse o oráculo da rotina. Seu olhar levemente desviado denunciava novo levante da palavra “não”. E antes que a expressão deixasse os lábios, eu os preenchia, prontamente, com os meus. Resgatava a luxúria do momento. Suor, saliva, o inebriante cheiro almiscarado de dois corpos friccionados e atados. Beijava sua boca, mas não conseguia deixar de espiar seus olhos. Estes permaneciam cerrados. Era o momento da rendição. Passeava pelo seu corpo e, involuntariamente, me surpreendia em olhadelas ao seu rosto. Tudo por mais um vislumbre do que, pra mim, fora um fenômeno. Estava deslumbrado. Repito ser refém do belo, tenho forte inclinação à aprazível forma do corpo feminino, e mesmo me deitando com obra tão acabada, não me desprendia do que presenciara. Com tanto para me ocupar, fora o olhar que me tomara.
E em pouco ele voltou. Imersos no silêncio, perturbado apenas pelo nosso arfar, decidi investigar seus olhos e dissecar aquele enigma extasiante. Falhei. Usei então da arma dos covardes, entregando um leve sorriso, seguido de palavras mansas com timbre carinhoso. Aquele espírito, já aparentemente quebrantado, não poderia resistir. E assim foi. Contou-me seus temores, seu passado, seus valores, seu abalo. Trocamos o farfalhar dos corpos pelo farfalhar do verbo. Ouvia, como um garoto que, maravilhado por fantásticas histórias, desenha em sua mente cada passo do protagonista. Ela, heroína de sua narrativa, não ostentava empolgação ao falar de si. Eu, por outro lado, empreendia em fingir naturalidade. Saber blefar por vezes é útil. Não queria espantá-la. Para mim, era eu caçador, ela caça, eu mirando, ela vivendo, envolvida em coisas de caça. Não; não era mais isto. Naqueles lençóis se dera minha conversão. Não era mais adequado equiparar-me a predador e ela à presa. O jogo mudara, melhor seria chamar-me ou fotógrafo, ou algo do gênero. Já não me importava tanto finalizar o iniciado. O oposto disso. Queria capturar o instante. Ou mais, salvar-lhe a vida, encaminhá-la ao éden, dar-lhe a mão, o ombro, o colo. Tudo pelo encanto dos seus olhos. Deixaria o “eu”, pelo que ali se escondia. Entusiasmado em compreendê-la, tentava ler-lhe por completo, numa só sentada, pretendendo reunir capa e contracapa só ao dominar as linhas centrais. Mas era Camões, não Paulo Coelho. Denso, profundo, irretocável.
Por melhor que estivesse o papear, rompi o diálogo. Voltei a brincar com seu corpo, dando-lhe prazer, tomando-lhe prazer. Era inevitável. Meigos, enérgicos, lento, elétrico. Continuamos.
Sei que sempre é cedo pros amantes, mas a noite, que tão bem os recebe, é geniosa, e jamais reluta em os enxotar quando resolve repousar e não mais interagir.
Vestes recolhidas, vergonhas recompostas, voracidade contornada; e a saudade se mostrando. É a despedida. O até breve com a silhueta de adeus, típico de corpos prematuramente arrancados. Tal qual taça tirada de quem ainda tem sede, ficava apenas a boca úmida e a garganta seca.
A porta se fecha, e saco em minha cabeça os sussurros, as carícias, os puxões, os dentes, a tonalidade rosácea do seu corpo, o beijar, o ser beijado. E em três passos, afastando-me da porta, torno-me pra trás. Ela não está mais lá. Seus olhos, porém, sequiosos de paixão e aterrorizados pelo risco iminente e incontrolável desta, permanecem comigo. Ela ficou pra trás. Mas tais olhos estão incutidos na minha existência. Não quero libertar-me deles, pois me alertam que pecado não é dar corpo ao pedido de corpos que se querem; e sim furtar ao coração e espírito que lá residem as veleidades que os inteiram.
E ao cabo, se temor e descrença afastaram a intimidade do nosso convívio, a confidência expiou a repressão à carne desejosa e a culpa da alma reticente.
Obviamente, não deixa de me entreter a libertinagem corriqueira. Só que após seus olhos, por vezes, no olhar de outras, o torpor da volúpia não dura tanto, e, em recaída, me faço cúmplice oportunista, para ver se encontro contemplação parecida. Até esta data, ainda busco. Quem sabe hoje.
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