A anonímia está no sangue

Tenho lido, nas idas e vindas do ônibus, “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf. Minha mãe me mandou depois de ler dizendo que lembrou muito de mim. Coisa que, já nas primeiras páginas, notei se tratar de uma espécie de desafio afetuoso. Neste caso, um desafio para a luta contra a anonímia:

“A anonímia está em seu sangue. O desejo de ficar escondida ainda a toma por inteiro. Mesmo hoje, ela não se interessa por cultivar a fama, como fazem os homens, em geral”

Anonímia, do grego, sem nome.

Sendo ambas mulheres, eu e minha mãe, crescemos com muitas diferenças mas uma semelhança importante: fomos acostumadas a ouvir, ler e viver uma história onde somos, por default, personagens e não narradoras.

Em 1920 a Woolf já escrevia:

“Vocês tem noção de quantos livros sobre mulheres são escritos no decorrer de um ano? Vocês tem noção de quantos são escritos por homens? Tem ciência de que vocês são talvez o animal mais debatido do universo?”

Sobre esses autores ela resume:

“homens sem qualquer qualificação aparente exceto a de não serem mulheres”

Ainda que de 1920 pra cá a gente tenha conseguido se livrar de boa parte da pseudo ciência criada para afirmar a inferioridade das mulheres (entre outros), na ficção, filosofia, poesia e afins mantemos um lugar majoritariamente de musas e não de narradoras. Ou seja, eu posso pegar esse livro de quase um século atrás e ler algo muito presente nos dias de hoje, quer ver?

“É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática, ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real era a escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas das palavras mais inspiradas, alguns dos pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido. Era certamente um monstro singular aquele imaginado por quem lesse primeiro os historiadores e depois os poetas — um verme alado como uma águia; o espírito da vida e da beleza em uma cozinha, picando banha. Mas esses monstros, ainda que agradáveis a imaginação, não existem no plano real”

Ironicamente, repensando a viela que me trouxe até aqui, escolhi escrever sobre anonímia e a dificuldade de desenvolver seu próprio discurso em um período da minha vida que não tenho conseguido escrever nada. E, por conta disso, me peguei pensando no velho Fócio: “Afasia: afonia”. Porque sem palavras não há voz: no silêncio profundo da minha alma turbulenta, como posso garantir que existo?

Talvez isso soe um pouco excessivo, mas no princípio do ser social também era o verbo. Disse o Antonio Candido que não existe sociedade sem a capacidade de ficcionalização e eu adiciono que não existe reconhecimento social sem que exista a “fala”.

Mas agora acho que é necessário voltar um pouco no texto, porque quando a gente pensa em anonímia é importante notar as diferentes formas.

Eu, por exemplo, por anos só associei anonimato com algo que é bem diferente disso que estou falando: seu caráter transgressor. Isso porque quando pensava em anonimato, pensava em rebeldia. Lembrava do editor John Twyn sendo enforcado no final de 1600 por se recusar a revelar a identidade do autor de um livro (que defendia o direito do povo de se rebelar diante de governos opressores), do Subcomandante Marcos, dos grupos de cyberativistas, enfim. Demorou realmente um tanto para eu conseguir entender que anonimato poderia ser uma opção estética. Que pseudônimos e heterônimos poderiam surgir exatamente do contexto artístico e se desdobrar dele, sem necessariamente precisar tocar o mundo em “vida”, como no caso do Pessoa. E que pseudônimos também poderiam surgir da ânsia por separar o mundo da arte, como no caso do culto de personalidade (a famosa adoração de gente feito fosse ícone) e de artistas contemporâneos como o Banksy, ou até de identidades não artísticas no universo virtual.

E talvez por usar internet há décadas como “meu boteco” eu consiga entender também o anonimato como uma maneira de existir, enfim. Tem uma ideia que o Zizek lança no “Perverts Guide to Cinema” que talvez seja muito óbvia para vocês, mas não foi para mim: a noção de que nosso verdadeiro dilema não é levarmos a ficção muito a sério, é não levarmos ela a sério o suficiente. Ou seja, quando alguém adota uma persona escrota em jogos, por exemplo, essa pessoa não está se vingando da sua realidade de sofrimento e opressão, está vivendo sua verdadeira realidade. Segundo ele devemos olhar essas personas como a verdade psíquica de quem as cria e que só não é manifesta plenamente na vida pelas restrições sociais. Ou seja, porque neste ambiente de jogo ou Twitter ou o que for, eu vou sair ileso, eu sou mais verdadeiro comigo mesmo.

Então a anonímia pode ser rebeldia, poesia, romance, libertação e realização.

Na verdade um dos meus textos favoritos da Sontag é exatamente sobre estética do silêncio. Ou como a arte tem adotado o silêncio como uma forma de comunicar. Em alguns casos, inclusive, como a fala última.

O problema está em entender que a anonímia não surge assim, essa é uma leitura desviante do “silêncio original”, porque ele só se torna estética quando é precedido pela fala, ou seja, quando existe a opção em calar tendo quem ouça. Do contrário (e aí chegamos no “silêncio original”) ele é uma imposição da realidade. E essa forma de silêncio não é voluntária, ou seja, é uma forma de calar. O silêncio como imposição da realidade na obra e na vida é violento, não artístico, tampouco rebelde.

“Na verdade, arrisco-me a dizer que Anônimo, que escreveu tantos poemas sem cantá-los, com frequência era mulher”
Safo

Durante muito tempo uma mulher não anônima (ou mesmo anônima) existindo na esfera mental era tão pouco aceitável quanto provável. O degredo existiu tantas vezes quanto existiram Safos. Depois passou a ser apenas pejorativo, como no caso das Irmãs Bronte que escolheram pseudônimos de homens para sua primeira edição porque, segundo a Charlotte escreveu em 1850, “nós tinhamos a vaga impressão de que autoras estão sujeitas a ser vistas com preconceito”. Na minha infância já era só raro. Tão raro que em 2013 li uns ensaios da Regina Dalcastagne, pesquisadora da UnB, e descobri que 72,7% dos escritores publicados pelas maiores editoras brasileiras eram homens (93,9%, brancos).

Por isso é que no princípio da mulher, e de tantos outros, era o verbo já que, até então, a mulher existia como relato, assim como existem os deuses e as assombrações. Mas então o verbo. E o verbo estava e está em tudo. E o verbo, a afronta à anonímia feminina, ainda não é certeza, é processo.

“Contanto que você escreva o que tiver vontade de escrever, isso é tudo o que importa; e se isso importará por eras ou por horas, ninguém pode afirmar.”

Mas esse silêncio não está só no discurso literário, na verdade esse discurso reflete uma realidade que o antecede, da vida cotidiana.

Então, quando nos anos 80, a Trebilcott diz que seu primeiro Dyke Method é falar só sobre si ela está abrindo o microfone. Ela não faz isso porque acredita não interessar a ninguém o que vai dizer, nem porque não se interessa por mais nenhum discurso; ela faz isso porque sabe que o discurso dos outros pode ser uma imposição de silêncio, já que também se viu mais na narrada que na narradora.

Ou seja, a fala também pode ser rebeldia, romance, libertação e realização. E poesia, porque é quase impossível não lembrar, por exemplo, da poesia feminina contemporânea (especialmente dos EUA) quando falamos desse primeiro método aí de cima.

A luta contra a anonímia tem muito disso: lutar pela perspectiva de que sejamos vistas, por default, mais como potenciais narradoras que apenas como musas. Seja na poesia, seja na vida.

Diz a Alcoff sobre o lugar de onde se parte, na fala, e o quanto isso pode impactar a voz de outras pessoas: “não só a localização é relevante, mas algumas localizações privilegiadas são discursivamente perigosas (…) pessoas de grupos dominantes que falam por outros são com frequência tratados como presenças autenticadoras que conferem legitimidade e credibilidade para as demandas dos falantes subjugados”.

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não só por duzentos anos, mas desde o começo dos tempos”

Uns anos atrás eu e amigas fizemos um site sobre mulheres onde só mulheres escreviam. De pronto muitas outras ouviram e responderam. Então alguns homens mais desatentos começaram a notar um ruído e outros homens foram lá e traduziram para eles aquilo que nós estávamos falando. Isso aconteceu não porque falássemos línguas diferentes (ainda que eu falasse a língua dos homens, sem falo eu nada seria), mas porque é preciso ouvidos para ouvir. Ou seja, ainda que alguns desses caras tivessem boas intenções eles estavam apenas confirmando a importância da nossa luta contra a anonímia. E da nossa própria voz, partindo de nossos lugares sociais, porque não existe uma ruptura delicada entre o silêncio e o som. Afinal, se o outro (no caso, nós) é tão incompreensível e, ao mesmo tempo, insuportável, o silêncio ainda manda.

Mesmo assim, olhando de longe, pode parecer estranho falar de anonímia neste mundo onde, como estamos profundamente convencidos, todos tem voz. Nesse mundo doido também existe a certeza de que processos de preconceito e exclusão construídos ao longo de séculos não foram apenas suprimidos como foram revertidos em décadas. Mas, como disse Belchior, “a vida é realmente diferente, a vida é muito pior”.

Daqui

A anonímia feminina não é uma demanda apenas por silêncio, é uma demanda por modéstia. Disse a Maya Angelou: “Eu não tenho paciência com a modéstia. A modéstia é uma adequação aprendida (…) Tu não quer modéstia, tu quer humildade. Humildade vem de dentro. Diz que alguém esteve aqui antes de mim e eu estou aqui agora porque essas pessoas bancaram. Eu tenho algo para fazer e farei porque estou bancando alguém que ainda está por vir”.

Ou seja, o processo de afronta à anonímia feminina não é apenas um processo de afronta ao silêncio, é uma afronta também ao modo como devermos falar, quando temos fala. O que, é claro, ainda percorre a literatura mas permanece um delimitador muito mais poderoso e frequente em interações humanas e no discurso interno que nos constitui, mesmo.

Aqui volto ao meu silêncio atual, a viela que me fez escolher falar sobre a necessidade de enfrentar a anonímia: estivemos por tanto tempo caladas de tantas formas que o silêncio é reconfortante, é o lugar onde não existe ameaça já que é onde a entidade mulher cumpre seu papel de existir inexistindo. Calar-se é como voltar voltar para casa.

Depois de inúmeros eventos traumáticos lembrei que não importa o caminho que eu percorra nem a postura que adote, sempre existirá (ao menos a possibilidade de) uma narrativa externa me colocar de volta em meu lugar de criatura que não é senhora do seu relato. E quando isso me fez voltar ao silêncio em busca de conforto, me dei conta de que eu era só mais uma vivendo o fenômeno da impostora.

xkcd

O fenômeno da impostora (mais conhecido como síndrome da impostora) é uma incapacidade de olhar para suas qualidades e feitos sem o medo (às vezes a sensação iminente) de ser “desmascarada” como uma fraude. Alguém que não sabe nem é nada.

Sobre o fenômeno da impostora tem uma coisa que eu acho especialmente interessante. Normalmente a gente se atem ao fato de que a pesquisa começou, nos anos 60, focada em mulheres. Ocorre que, nas últimas décadas, ela expandiu e descobriu que afeta de maneira quase equivalente homens e mulheres. A real diferença está na forma de reagir. Quando homens acreditam estar prestes a ser desmascarados como farsas, eles se sentem desafiados. Quando mulheres se sentem assim, elas se sentem erradas. Enquanto homens confrontam, mulheres se calam.

Eu entendo. Muitas vezes acho esta postura belicosa (que é quase o default das interações sociais) uma emulação brutal de códigos masculinos que não me cabem, mas a alternativa é necessariamente calar-se? Também entendo que, muitas vezes, quem “está com o microfone” dita as regras e colocar-se como um discurso igualmente relevante sem a postura agressiva pode dar a sensação de que estamos sambando no meio de um tiroteio extenuante e brutal. Mas acredito que nós que estamos bancando nosso discurso estamos também criando a possibilidade de um outro nível de diálogo.

“Ainda assim, poderiam vocês argumentar, por que você atribui tanta importância a essa escrita de livros pelas mulheres se, de acordo com o que diz, isso requer tanto esforço (…) Meus motivos, devo admitir, são em parte egoístas. Assim como muitas inglesas sem educação formal, gosto de ler — gosto de ler pilhas de livros. Ultimamente minha dieta se tornou um pouquinho monótona; a história fala demais sobre guerras; as biografias, demais sobre grandes homens (…) Por essa razão, eu pediria a vocês que escrevessem todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja”

Ironicamente mesmo quebrando meu silêncio escrevendo este texto, estou faz dias sem usar redes sociais pois fui visitada por hordas hostis dizendo que só querem o bem das mulheres (em geral de homens que historicamente não se portam assim mas acreditam que só porque falam que sim, a coisa instantaneamente vira realidade).

Então eu sei, Deus como sei, que esse processo de buscar outro nível de discurso e, portanto, de diálogo não é uma coisa simples. Muitas vezes sequer temos espaços para falar ou sequer podemos dialogar sem que isso se torne palco para homens viciados em acusar mulheres — preferencialmente diante de uma platéia — e também para mulheres que buscam seu valor em odiar e expor outras mulheres. São essas pessoas as que, normalmente, se ressentem muito pelo fato de, tantas vezes, “lugar de fala” ser usado como uma carta coringa esvaziada, ao mesmo tempo em que acham bobagem a falta de representatividade ou mesmo a compreensão de que nosso lugar social altera o que falamos e o que vemos. Essas pessoas diminuem qualquer passos que seja dado simplesmente porque nunca estiveram tão distantes de lugar nenhum.

“Acredito que se vivermos por mais um século — estou falando da vida comum que é a vida real, não das vidinhas isoladas que levamos como indivíduos — e se tivermos quinhentas libras por ano e um espaço próprio; se cultivarmos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco das salas de visitas e enxergarmos o ser humano não apenas em relação aos outros, mas em relação à realidade, ao céu, às árvores ou a qualquer outra coisa que possa existir em si mesma; se olharmos além do fantasma de Milton, porque nenhum ser humano deveria bloquear nossa visão; se encararmos o fato, porque é um fato, de que não há em quem se apoiar, e de que seguimos sozinhas e nossa relação é com o mundo da realidade e não só com o mundo dos homens e mulheres, então a oportunidade surgirá”.

Mas como, para mim, calar não é a alternativa, mesmo exausta e tendo sido, pessoalmente, feita mais para o amor que para a guerra (tal qual Antigona), consegui terminar este textão.

(todas as citações sem referência são da edição de 2014 da Tordesilhas de “Um teto todo seu” da Virginia Woolf)

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