Ilustração de Jenny Yu

O cara do emoji

- Até agora você não me disse nada de grave, Renata — Fernanda levantou os olhos do conteúdo que mexia na panela e olhou séria na minha direção.

Nós tínhamos combinado um jantar para colocar os assuntos em dia. Enquanto ela dava os últimos ajustes no molho, eu colocava a mesa.

- Não sei… Parece bobo, mas tá me fazendo mal, sabe? Claro que eu não fico mal com isso o tempo todo, mas é uma coisa que eu não resolvi e sempre volta pra me assombar — eu disse e fui sentindo as palavras atolando na garganta. Disfarcei demonstrando uma concentração extraordinária para posicionar o jogo americano sobre a mesa.

- Bom, acho que se é algo que está te fazendo mal, é muito legítimo que você queira resolver e procure ajuda. Mas eu queria que você parasse de ouvir um pouco o que o Carlos diz. Não tem nenhum problema com você. Não tem nenhum problema com essa situação com esse cara…

Eu agora me concentrava em pegar os pratos e copos na prateleira. Ela sempre fazia de tudo para eu me sentir melhor, mas eu não sabia se, dessa vez, poderia deixar por isso mesmo.

- Assim… — Fernanda tateava em busca das palavras — desde que você me falou desse cara, eu sempre achei que você poderia estar, sei lá, ficcionalizando um pouco…

- Exato! — soltei demonstrando uma concordância mais efusiva do que eu mesma esperava. — Acho que é isso que tem me incomodado, essa minha tendência a ficcionalizar a minha vida. Eu não sei parar… — comentei olhando triste para a mesa completamente posta.

Sem meu disfarce, me joguei em uma das cadeiras e esperei o que mais Fernanda teria para falar.

- Eu acho muito importante você já saber disso — ela disse animada e aliviada, apagando o fogo. — Cê sabe que eu sempre recomendo terapia, né? Acho que todo mundo deveria fazer. Me ajudou muito!

- Acho que eu realmente preciso — eu disse jogando os braços em cima da mesa — Ando tendo esse medo de estar passando por cima demais das coisas, de ter deixado algo passar e dessa coisa, que eu não sei o que é, estar desestabilizando tudo.

- Rê, — ela tinha se sentado na cadeira em frente e servia o macarrão (uma nova receita de molho de cenoura e beterraba) — eu acho que, enquanto cê procura um analista, cê já podia começar a escrever algumas coisas… Não foi isso que você sempre fez?

Concordei com a cabeça.

A escrita sempre tinha sido a minha primeira opção. Mas, de uns tempos para cá, eu simplesmente me recusava a recorrer a isso. De uns tempos para cá não. Desde você. E eu sabia o porquê. Em parte, tinha a ver com um amadurecimento. Pelo menos eu assim o encarava. Às vezes, não me enxergava mais na autora que vislumbrava pelas frestas entre as palavras de meus textos antigos. Too much drama. Eu pensava nisso e tinha vontade de jogar minha cabeça para trás. Talvez o drama ainda fizesse parte de mim. Pensando bem, o problema poderia estar nesse meu movimento de tentar escondê-lo. Mas eu não queria dar o braço a torcer. Não queria que o Carlos e nem nenhum dos meus amigos soubessem que eu ainda era a mesma menina que dava um valor exacerbado para os relacionamentos amorosos. Não queria que achassem que a única coisa que tinha mudado eram os nomes, Thiago, Marcelo e, agora, você.

Por outro lado, não era só para os meus grandes amigos que eu tinha vergonha de admitir tudo isso. Era para mim e, principalmente, para você. A gente sempre esteve nessa disputa para saber quem era menos problemático. E, sinto muito, mas perder para você estava além dos defeitos que me dispunha a admitir.

- Vai escrever um texto sobre isso, vai? — você perguntou irônico me pegando desavisada.

Doeu. Ele me leu? Por que ele nunca falou nada? Por que isso soa tanto como uma crítica? Muitas perguntas passearam pela minha cabeça, mas duas coisas foram assimiladas na hora. Uma: você não disse que gostava do que eu escrevia. Duas: você achava que eu só escrevia sobre as coisas que aconteciam na minha vida. Não lembro se me defendi primeiro. Eu não escrevo sobre isso. Ou se tentei disfarçar que tinha sido nocaute.

- Você leu o meu blog?

- Claro, ué, você coloca o link na sua descrição do Twitter — você fez pouco caso.

- Mas ninguém lê isso.

- Eu leio.

Sorri pro prato de macarrão.

- O que cê tá pensando? — Fernanda perguntou de boca cheia.

- É engraçado… Eu ficcionalizar tanto a realidade e ser acusada de “só contar a minha vida” quando escrevo ficção — eu disse dando de ombros.

Ficamos em silêncio empenhadas em devorar mais macarrão.

- Rê?

- Oi?

- Quem é mesmo esse cara? Não é o do Tinder, né? — ela perguntou franzindo a testa no esforço de recuperar algum detalhe.

Eu acho engraçado quando meus amigos perguntam isso. Nunca soa como uma ofensa. Às vezes até me sinto tranquilizada por ter conseguido minimizar a tua influência na minha vida.

- Não. Esse é o João. O João é um amor.

- É o bonitão?

Eu rio.

- Não… — e me surpreendo sentindo uma pontada de dor.

- Também não é o escritor, né? Eu lembro que cê só falou muito por alto dele.

- Ahh, não não. Não tenho nada com o escritor.

- Quem é ele?

- Lembra do cara que me deu um bolo?

- Hum… — ela obviamente não lembrava.

Tentei pensar em uma referência melhor.

- Puxa, foi um cara que eu gostei bastante de sair…

- Hum…

- Já sei! Lembra da história da bostinha?

- Lembro! — ela respondeu contente porque finalmente tinha se encontrado.

- Ele é o cara da bostinha! — eu disse rindo, mas algo no ressoar do riso, reverberou dentro de mim.

Você é. O. Cara. Que. Me. Mandou. Um. Emoji. De. Bostinha. Caramba!

Às vezes eu esqueço dessas merdas.