Se eu tiver que falar de você

Recebi sua mensagem antes que o mundo começasse a desabar. Cai a massa que cobre os tijolos do escritório, vão caindo os tijolos em câmera lenta e eu ainda na cadeira giratória, olhando para a tela. Deu tempo de mandar um emoji sorrindo. E então foi a vez de cair a ficha. Preciso deixar isso, preciso de ajuda.

- Vou fazer terapia. — eu escrevi para dois amigos no celular, porque tenho essa mania de ter que anunciar minhas decisões. Decidir fazer terapia, no entanto, não era a parte difícil.

- Por quê? Aconteceu alguma coisa?

Difícil era explicar que você tinha sido o gatilho da decisão. Pensei em tudo que eu precisaria fazer antes de começar uma terapia: pedir indicações de analistas, descobrir o valor e provavelmente pedir pra minha mãe pagar. Mas, de tudo o que era necessário para chegar até lá, o que mais me aflingia era o medo dessa hora em que alguém perguntaria por que eu estava ali. E se eu tiver que falar sobre você?

Por onde eu começo? Talvez seja preciso fazer um roteiro preliminar na minha cabeça. Por onde eu começo?

Pelo começo…

Você está deitado na cama. Nu, sempre nu. Eu engatinho por cima de você só para dar um beijinho bobo pós-transa. Paro diante de você e fico te fitando feliz.

- Por que você falou comigo na festa? — você pergunta.

- Como assim?

- Cê queria me pegar, não queria?

- Não.

Você me olha surpreso.

- Como não? Você que puxou assunto comigo! — diz em tom acusatório.

- Cê tava sozinho, ué. Não gosto de ver gente só. Eu tava sentada do lado, sem fazer nada e você todo excluído…

- Cê não me deu bola naquele dia? — você pergunta muito confuso e um pouco irritado.

- Não — digo rindo enquanto na minha cabeça me perguntava se você não tinha visto o bonitão que estava na festa.

- Você não me achou bonito?

- Ah, Fofinho, eu nem pensei sobre isso naquela festa. A única coisa que eu lembro foi de ter achado o teu sorriso bonito.

Você corou, mas continuou com ar contrariado. Não estava convencido.

Todo o nosso encontro foi um engano. Hoje, essa cena volta para a minha cabeça , mas sou eu quem me pergunto: por que eu falei com você?

Não te vi chegar na festa. Quando eu te vi, não sei que horas eram. Não lembro quão cansada eu estava. Já tinha dançado com certeza, mas naquele momento, estava sentada e pensava se não tinha sido chata demais com a menina que defendia que o livro “50 tons de cinza” era machista. Você estava em pé ao meu lado. Olhando pela varanda, mexendo no celular e tomando uma cerveja. Parecia bem deslocado. Perguntei alguma coisa qualquer. Não vai dançar? Você deu alguma resposta. E, então, começamos a falar sobre o nordeste. Talvez tenha sido o meu sotaque. Você me contou que tinha viajado recentemente para lá e de como era apaixonado pela região. De certa forma, achei bacana aquele desconhecido adorar a região de onde eu vim, mas, ao mesmo tempo, nunca tive paciência para visões idealizadas do nordeste. Você falava e eu, de onde estava sentada, olhava teus dentes brancos. Que sorriso bonito, o desse moço. Talvez eu tenha dito que tinha planos de voltar para lá. Mas que não sentia muita falta. Exceto da praia. Com certeza eu falei de praia. Porque a praia me fazia muita falta nessa época, nesse ano, aliás. Você não achou grandes coisas. Praia? Eu tô sempre na praia. Eu moro aqui, mas sempre vou pra Santos.

Nada de significativo, nada. Em algum momento, eu comecei a pensar em como acabar a conversa. Não tinha ido para a festa para ficar fazendo sala para o amigo de alguém.

Luz, na passarela que lá vem ela…

Foi a minha deixa. Opa, vou dançar. Escolhi um lugar meio afastado de você na roda de pessoas a nossa frente, porque tinha um pouco de vergonha de dançar na frente de estranhos. Esperava que você não me olhasse. Ainda espero que não tenha, na verdade.

Apesar de que…

- Eu não sei dançar.

- Não? Não foi isso o que eu vi na festa — você escreveria alguns dias depois em uma mensagem de celular.

Deixa para lá.

Tenho alguns outros flashes guardados aqui. Mas talvez eles comecem a fazer mais sentido no desenrolar dessa história, quando você começa a ocupar um lugar maior na minha cabeça. Naquela festa, você chegou tarde. Havia um rapaz tão bonito no mesmo lugar! Dele, eu lembro da chegada até as três palavras que trocamos a noite inteira, confesso. Recordo-me ainda da mensagem que recebi por volta das 2h da manhã. Era o Pedro, me chamando para dar uma passada no apê dele, na Augusta. (Pô, beibe, tô naqueles dias…). Nós estávamos entre os três últimos a ir embora. Pegamos carona juntos. Você seguiu para a Barra Funda e eu fiquei na esquina da R. Augusta com a Peixoto Gomide.