Ilustração Jenny Yu

Uma coroa transona

A porta do elevador se abriu quando cheguei ao quinto andar. Saí dele e a luz automática me saudou. Mais adiante, vi a porta no fim do corredor se abrir. E então vi o Pedro, sorrindo aquele sorriso largo (“Sorriso de gente do bem”, vi uma tia comentar na foto de perfil do Facebook dele), de cueca box preta.

Para falar a verdade, não sei se o Pedro anda sempre de cueca box ou se ele coloca porque sabe que eu fico louca. Mas, às 4h da manhã, desconfio que a escolha do dress code tinha sido para me agradar mesmo.

Não lembro se caminhei até ele ou se fui sugada por aquele sorriso caloroso. Não senti minhas pernas. Quando dei por mim, já estávamos nos cumprimentando com um beijo.

Chego em casa e lembro de avisar ao Pedro que cheguei bem.

“Cheguei”.

Ele manda uma carinha sorridente. Ainda não dormiu pelo visto.

Verifico as horas no celular e constato que já são 6h da manhã. Atravessei a Rua da Consolação com o céu já claro. Rua deserta. Devo ter feito em menos de 15 minutos.

“Que delícia de visita”. Chega uma nova mensagem dele.

“Também achei”. Respondo sem saber se é verdade. Começo a tirar a minha roupa novamente. E me obrigo a banhar. Não consigo dormir sem banhar depois de uma transa e ainda preciso colocar um absorvente. Penso no sono que vai ser adiado com pesar, mas tento não procrastinar o processo.

Meia hora depois, finalmente reencontro a minha cama. Pego o celular para checar se Pedro disse mais alguma coisa. Nada. “Que delícia de visita”. Sei bem do que ele está falando, mas fico mais satisfeita recordando todos os elogios que me fez naquela noite. Meu deus, olha essa barriga. Reencontrar um caso antigo depois de um ano tem dessas vantagens. Porém, tento não pensar em todos os flashes daquele encontro que me vêem a cabeça. O que ele quis dizer com “você vai ser uma coroa transona”? Ah, não vou encanar com isso. Foi um elogio. Ele falou como se fosse um elogio.

No entanto, ainda me demoro tentando imaginar qual impressão Pedro tem de mim.

- Menino, faz tanto tempo que não dou uma — confesso triste.

- Não acredito, bela — ele diz com uma piscadela divertida, mas realmente não acredita.

Não insisto. Passei dessa fase de achar que tenho que jurar que transo pouco.

Também penso em como o tempo não parece passar com ele. A gente ficou horas e horas conversando como se nunca tivéssemos perdido o contato. Sempre foi assim com a gente, aliás. Porra, Pedro, cê me fez cair na real. Praguejo para mim mesma quando concluo que não adiantava continuar saindo com o ruivo se faltava essa empatia. Eu quero sentir isso!

Pego o celular mais uma vez. Nenhuma mensagem nova. São quase sete horas agora. Abro minha caixa de e-mails e começo a deletar as mensagens publicitárias enquanto o sono não vem. Também abro o Facebook para checar se tem alguma notificação que me interessa. Dois novos convites de amizade. O cara que me deu a carona deve ter mandado, certeza. Vou tentando adivinhar enquanto a página carrega. Erro. Reconheço o rosto do cara que tinha me dado um drink. Simpático. Adorei ele. E, então, vejo o seu convite. Ih, esse cara quer me pegar mesmo. Aceito.

Programo o celular para não emitir nenhum som e vibração e, finalmente, fecho os olhos. Antes de pegar no sono, ainda penso no Pedro. Eu quero sentir isso. Não aceito menos…