Ilustração: Jenny Yu

Vamo tomar um café?

– Tem ouvido Haim?

Você perguntou aleatoriamente no momento em que eu enfiava uma colher de açaí na boca e eu fiquei sem saber se tinha exagerado na colherada ou se eu tinha gelado por conta dessa pergunta. O que ele quer dizer com isso? Te encarei pálida com a colher ainda em suspenso. Por mais que eu achasse que devia haver outra explicação para aquela pergunta, dentro de mim algo dizia que você não podia ter esquecido de que essa tinha sido a banda que ouvimos no nosso primeiro encontro. Normalmente nem eu me recordo desses detalhes, mas, no nosso caso, a música nunca tinha sido um mero detalhe. Ela tinha sido o motivo daquele encontro.

Abri a boca ainda atordoada.

– Não… — consegui dizer.

Você encarou a mesa constrangido. Continuei te encarando incrédula. Por que ele perguntou isso? Como se o universo quisesse responder à minha pergunta, o som ao redor foi penetrando na minha mente. Uns cariocas conversando na mesa ao lado. Garçom servindo. Garçonete recolhendo. O barulho metálico das panelas e…

But if I was to say

I’ll forget it…

Devo ter arregalado os olhos quando percebi.

– Perguntei porque tá tocando — você disse finalmente, olhando para a tigelinha de açaí que a gente dividia e enchendo uma colher.

– Percebi — tentei disfarçar a reação exagerada que eu acabara de ter.

Fazia pelo menos três meses que a gente não se via. Até aquele meu convite para tomar um café. O convite tinha sido para tomar um café literalmente já que você tinha me avisado em mensagens que não estava bebendo. Mas, como você só confirmou às 22h30, tínhamos acabado na padaria 24h que você conhecia, dividindo um açaí. Quando convidei você, não fazia ideia do que dizer. Algo precisava ser dito? De alguma forma, eu esperava encontrar as peças que faltavam no meu quebra-cabeça. No entanto, me sentia constrangida por voltar a te encontrar com isso ainda na cabeça.

Há três semanas, se alguém falasse o seu nome perto de mim, só me causaria um leve incômodo. Aquele incômodo, ocasionado pela certeza de que eu nunca saberia o que você pensava sobre mim, que já era um grande conhecido meu. Eu o afastaria com uma leve abanada na cabeça e pronto. Mas eu tinha tido a ótima ideia de entrar no Tinder. Depois de você, eu já tinha saído com outros e, principalmente, tinha aprendido a não esperar muito de uma só pessoa. Decidi me virar no Tinder.

Encontrei o João num sábado. Bonitão, simpático, meio introspectivo. E ele mexeu com muita coisa dentro de mim. Quase te contei isso. Até ensaiei na cabeça:

Eu tava muito bem sem você, sabe? Apesar de não entender nada do que aconteceu entre a gente e porque você começou a agir tão estranho, eu juro que tava superando. Foi por isso que te excluí de tudo aliás. Mas daí comecei a sair com esse cara e ele é maravilhoso. Faz três semanas que a gente se encontra sem esperar nada um do outro. É tranquilo, é confortável, é só isso… Eu não lembro há quanto tempo não sinto o que você me fez sentir.

Quando cheguei ao metrô já tinha desistido de falar. Apenas me perguntava se você ainda seria capaz de me fazer sentir tudo aquilo. Tanta coisa aconteceu nesses três meses! Quando te vi me esperando do outro lado da catraca, rasguei mentalmente o papelzinho com o discurso. Nem a pau confesso isso. Você me deu um sorriso tímido.

– Fiquei feliz que você aceitou meu convite — você disse parecendo desarmado.

– Ué, mas eu que te convidei — respondi para mostrar que a vitória não era sua. Já estava desarmada.

Durante as duas ou três horas que passamos na padaria, enquanto você me contava todas as boas notícias da sua vida (você tava ótimo!), eu me segurava para não dizer que estava com saudades.

– Perdi o metrô

– Vai querer pedir um táxi?

– Vou. Mas não quero agora… — Eu já tinha decidido voltar para casa com você, só precisava te contar.

– Hum…

Fiquei te olhando e sorrindo do outro lado da mesa.

– Você quer ir lá pra casa? — você perguntou mudando de cor e se esforçando para olhar em todas as direções exceto aquela de onde eu te olhava.

Peguei minha comanda e levantei da mesa. Vamos! Sua vergonha passou imediatamente, você me seguiu se adiantando em desculpar o estado do apê. Não estava esperando.

– Tava com saudades? — você perguntou em cima de mim — Tava com saudades do meu pau? — disse mais baixo, parando alguns segundos para me olhar nos olhos.

Segurei a vontade de dizer “não” só para te provocar. Há três meses, eu teria negado com certeza. Mas, nessa noite, eu me sentia submissa e, perceber isso, me deu um certo prazer. Sim, eu senti.

– O que você acha? — provoquei ao mesmo tempo em que enlaçava teu corpo com as pernas.

Eu não sei mentir. Mas também não gosto de admitir.