Abaixando a guarda

(Foto: Reprodução)

As competições de MMA se tornaram uma febre ao redor do mundo. Hoje em dia, o torneio norte-americano Ultimate Fighting Championship, o UFC, é transmitido para 150 países em 22 diferentes línguas. Apesar de contar com aproximadamente 562 competidores de todos os continentes, ainda não houve um lutador do UFC que se declarasse homossexual.

O assunto foi colocado em pauta em julho de 2014, quando o americano Kyle Kingsbury exibiu uma cueca rosa com os dizeres “Legalize Gay” no bumbum, durante a pesagem do “UFC: Lawler x Brown”

O gesto foi um ato de apoio à regulamentação do casamento gay nos Estados Unidos. A canetada que daria às pessoas do mesmo sexo a opção de juntar as escovas de dente na terra do Tio Sam só viria um ano depois.

Porém, nem todos os lutadores se mostraram à vontade com a decisão da Suprema Corte americana e com a reação dos mais de 26 milhões de usuários das redes sociais, que adicionaram um filtro com as cores do arco-íris em suas fotos de perfil para celebrar o feito.

“Quer apoiar mesmo a causa e tá com vontade DÊ!!! Mulher é tão bom que quem não gosta tem mais é que tomar no “C&” mesmo!!

É a este tipo de reação que o CEO do UFC, Dana White, se refere quando assume ter medo do que alguns atletas dirão caso um lutador assuma a sua homossexualidade. “Entre as centenas de lutadores do UFC, temos alguns lunáticos”, afirmou ele, em 2012.

Durante a pesagem do UFC Belfort x Henderson 3, que aconteceu em São Paulo, no último dia 7 de novembro, o Se Joga questionou os fãs da modalidade sobre qual seria a reação deles caso descobrissem que um de seus ídolos do MMA é gay. Todos afirmaram que continuariam torcendo da mesma maneira, porém algumas considerações relevantes foram feitas por aqueles que não se limitaram a dar respostas monossilábicas e nos encarar com olhar de reprovação pela pergunta um tanto quanto improvável.

“Claro que devem existir lutadores gays, mas parece que eles acham que o mundo não está pronto para ouvir isso deles. Eu ainda acho que, para os atletas, esse medo de falar sobre o assunto deve ser muito pior do que de fato a repercussão que isso traria”, disse o alemão Ben, que assistiu à pesagem no ginásio do Ibirapuera.

Leandro Barbosa, atleta e professor de Muay Thai, afirmou que o fato não influenciaria na sua torcida por seus competidores preferidos. Apesar disso, admitiu temer as consequências que a decisão acarretaria. “Iriam acabar sofrendo uma certa perseguição”, disse ele.

No esporte que precede o MMA na história dos ringues sob holofotes, o boxeador porto-riquenho Orlando Cruz sentiu na pele a intolerância dos torcedores.

Salido X Cruz (Foto: Jeff Bottari/Getty Images/AFP)

Após se tornar o primeiro pugilista profissional em atividade a assumir sua homossexualidade, em 2012, Cruz foi alvo de gritos homofóbicos enquanto tentava fazer história e conquistar o cinturão da Organização Mundial de Boxe contra Salido, em 2013.

Entre as mulheres, que recentemente se tornaram protagonistas do UFC, uma atleta desafiou a intolerância e levantou a bandeira da diversidade dentro do octógono. Assim como Cruz, Liz Carmouche também passou perto de se tornar a primeira homossexual a vestir um cinturão, mas foi derrotada pela “musa” do esporte, Ronda Rousey.

“Desde o arco-íris no protetor bucal até às camisetas. Faço tudo para mostrar quem eu sou e que superei as dificuldades. Quero que as pessoas saibam que também podem fazer isso” disse Liz.

Nogueira x Silva

Anderson Silva e Minotauro são dois dos maiores lutadores da história do MMA e têm em comum o fato de já terem conquistado o título do UFC em suas respectivas categorias. Porém, quando o assunto é a aceitação de colegas de profissão homossexuais o discurso é oposto.

Em entrevista a Revista Trip, em 2011, Minotauro reproduziu um discurso comum entre os homofóbicos de plantão ao dizer que não tem nada contra homossexuais, desde que bem longe.

“Não [tenho preconceito com gays], mas eu não treinaria com gay. Eu não tenho maldade, não acho aquele contato físico sexual, mas vai que ele tem essa maldade de ter um contato físico comigo, de ficar ali agarrado… Eu não teria problema nenhum de ter um aluno gay na minha academia, mas preferiria não treinar com ele”.

Dois anos depois, à mesma revista, Spider se mostrou avesso à intolerância do amigo e chamou atenção pela seguinte declaração:

“Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: ‘Olha, que eu saiba não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui um tempo eu descubra que eu sou gay’”.

No bate-papo, Silva disse que não teria problemas em dividir o tatame com atletas homossexuais e afirmou existirem, sim, lutadores gays no MMA. A cueca combativa de Kyle, a presença de Cruz e Liz e as palavras de Anderson, o grande nome da história da modalidade indicam que, apesar da incapacidade de alguns em aceitar as diferenças, é uma questão de tempo até que essa barreira seja quebrada e os octógonos fiquem um pouco mais coloridos.

Confira um trecho da entrevista de Anderson Silva, ao jornalista Ricardo Calil.

No MMA tem muita discriminação contra gays?

Acho que não tem preconceito, mas tem homossexuais no MMA. Tem vários que não se revelaram ainda.

Eles estão no armário porque, se saíssem, ia pegar mal nesse meio?

Acho que hoje em dia é uma coisa tão boba não expressar o sentimento. Desde que você respeite o espaço das pessoas, respeite seus limites. Você tem que viver sua vida em paz e ninguém tem nada a ver com isso.

Capa da Trip, com Anderson, fazendo menção a histórica capa da Revista Esquire com Muhammad Ali como São Sebastião, em 1986 (Foto: Marcos Vilas Boas)

Quando entrevistei o Minotauro, há dois anos, ele disse que preferia não treinar com gay. Você treinaria?

Claro, desde que me respeitassem, está tudo certo. Acho que não tem muito a ver. O fato de o cara ser gay não quer dizer que ele vai te assediar. Ele pode ser gay, ter um relacionamento, pode conviver em grupo com caras que não são gays. Ele faz o que quiser da vida particular dele.

Você é assumidamente vaidoso, metrossexual. Tiram muita onda com você na academia?

Tiram. Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: “Olha, que eu saiba não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui um tempo eu descubra que eu sou gay” [risos]. Eu tomo muito cuidado com as minhas coisas, ponho todas as coisas na minha bolsa, coloco sabonete, passo um creme quando acaba o treino. A galera acha frescura. Mas é de cada um. Não quer dizer que você é mais macho ou menos macho, mais gay ou menos gay.

Pra se jogar no sofá

Na série norte-americana Kingdom, o cantor Nick Jonas interpreta um lutador em ascensão que, após conquistar o público — e boa parte do elenco feminino do seriado -, revela-se gay. O programa ainda não está disponível na programação de emissoras brasileiras, mas para os aficcionados por lutas, por Jonas Brothers ou simplesmente pela combinação Netflix + cobertor, isso não deve ser um empecilho para acompanhar a história.

Confira o trailer da série que atualmente está em sua segunda temporada.

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