O exemplo da bola oval e os novos ares de tolerância

Foto: Reprodução
“If you’re gay and want to go into sport, it’s the bullies who should be afraid, not you”

“Se você é gay e quer ir para o esporte, são os valentões que devem ter medo, não você”

Antes de se tornar o primeiro árbitro gay a apitar uma final da Copa do Mundo de Rugby, em outubro, o galês Nigel Owens viveu um drama que se repete todos os dias ao redor do mundo, até sair do armário, literalmente, em um programa de TV norte-americano em 2007.

“Em 1996, eu tentei tirar minha própria vida. Durante os nove anos seguintes eu escondi de todos o motivo por ter tentado, mas chegou a um ponto que eu não conseguia mais. Eu não era capaz de continuar apitando porque não estava feliz com quem eu era. Contei para minha mãe e para alguns amigos em 2005 e, dois anos depois, falei para a imprensa”, afirmou, em depoimento ao jornal The Independent.

Um estudo publicado pela Universidade de Columbia indicou que jovens homossexuais têm cinco vezes mais chances de cometer suicídio. A principal causa é o ambiente frequentado por eles, em que boa parte dos casos são vítimas de bulliyng durante a adolescência.

“Cheguei a um ponto onde pensei: Eu me preocupo com minha vida ou tento esconder e continuar apitando? Vale a pena me assumir e colocar minha carreira em risco? Não havia nenhum gay assumido no mundo do Rugby até então. Eu tinha tanto medo, mas na realidade eu tive muito apoio, especialmente dos jogadores e da Federação Galesa de Rugby”.

Assim como Nigel e outros milhares de jovens, o medo da aceitação das pessoas fez com que a lenda do esporte bretão Gareth Thomas também cogitasse acabar com a sua vida. Ele foi o primeiro galês a completar 100 jogos pela sua seleção, porém mais significativo que isso foi ter sido o primeiro jogador de Rugby a se assumir gay, em 2009.

“Eu estava com medo de que todo mundo me virasse as costas. A batalha que tive que travar como pessoa foi dez vezes pior do que as batalhas no campo. Eu era forte fisicamente, mas mentalmente fraco e com medo” disse ao Evening Standard.
Gareth Thomas (Foto: Daniel Hambury/Focus Images Ltd/Evening Standard)

A história do jogador virou documentário, e até anúncio publicitário.

“Quando me assumi, eu esperava que isso encorajasse outras pessoas e isso aconteceu. A mídia foca em atletas profissionais, mas eles são apenas uma pequena parcela. Tenho recebido cartas e sendo parado na rua por pessoas que não são profissionais, mas estão tomando coragem para jogar com os amigos no fim de semana. O mundo é muito maior do que a bolha do esporte profissional”.

Dentro da bolha, ou melhor, dos campos de Rugby, outros dois jogadores se juntaram a Gareth e Nigel em agosto deste ano. Os britânicos Keegan Hirst, da Rugby League, e Sam Stanley, da Rugby Union.

Do apito ao campo de jogo, o esporte mais popular em alguns países de colonização inglesa, como a Austrália e a Nova Zelândia, está a um abismo do futebol ou do MMA quando o assunto é a igualdade e a diversidade dentro das quatro linhas, e aos poucos, consegue erradicar qualquer tipo de atitude preconceituosa por parte dos atletas.

No clássico de Sidney, entre NSW Waratahs e ACT Brumbies, em março deste ano, o asa aberta e titular da seleção australiana de rugby David Pocock denunciou o forward Jacques Potgieter por ter chamado um dos Brumbies de “faggot” (“bicha”) durante a partida.

Potgieter X Poccok (Foto: Matt Bedford)

“Como jogadores, nós dissemos os Brumbies não vão tolerar qualquer tipo de insultos homofóbicos. Você pode ser o homem mais duro do mundo, mas isso não tem nada a ver com o uso desse tipo de linguagem”, disse o capitão.

Potgieter foi multado em US$ 20 mil pela Federação Australiana de Rugby. “Não se trata de uma caça às bruxas, mas é nosso papel educar os jogadores para que o Rugby se torne cada vez mais inclusivo”, explicou Pocock.

Ativista por natureza, o australiano acredita que medidas como essa podem contribuir para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja aceito no país. “De muitas maneiras, o que acontece no esporte reflete o que está acontecendo na sociedade”.

Em 2013, o parlamento australiano considerou inconstitucional a emenda que permitia as uniões homossexuais. A eleição do premiê Malcom Turnbullo, em setembro deste ano, é um sinal de que a decisão pode ser repensada, visto que, em sua campanha, declarou ser a favor do casamento gay.

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