5 passos para o amor moderno

(ou “o amor nos tempos da falsa independência emocional”)

Pintura de Duarte Vitoria.

O título, antes de mais nada é uma mentira calculadinha pra chamar a atenção, me desculpem, desculpem.

Não trabalho com adestramento de gente.

Nem mesmo de gente bidimensional que manuseia manuais de autoajuda e consegue muito bem viver com frases de efeito, curtas e calorosas, sem que isso afete sua vida. Existem inúmeros do tipo nas esquinas virtuais, nas igrejas e nas livrarias.

A sintonia de quem escreve essas coisas varia com o coração, mas todos querem o mesmo: papejar e regular as irregulâncias imprevisíveis das palpitações dos sentimentos. Vão tentar ensinar a idealizar, a minimizar os danos, a controlar as experiências, a tentar mapear o imapeável dessas coisinhas cinzentas e sofríveis que nós somos. Vão tentar pintar novos excessos que não são excessos pra ninguém, velhos que já são. Vão tentar podar o diferente, aquilo que incomoda, sem sucesso. Se forem especialistas, definirão termos complexos para enjaular as sensações que eles mesmos sentem, e sentem-se duplamente culpados por saberem que o sentem e negarem. E inevitavelmente irão escutar é essa palavra complicada a sua que eu sinto mesmo e foda-se.

Há pois, um manifesto político, um estudo psicopatológico, um passo de autoajuda que explicará o amar de uma marca de nascença que só você pode ver, e que se modula perfeitamente com as covinhas de sorrisos da pessoa? O torto de um dente que inspira certo charme? Um hálito tão vulgar num rostinho de anjo que você passa a amar e amar como o maior perfume floral? Há pois, nesses manifestos de sofrimento mútuo causal algo que explique aquela alegria de serem três horas, a pessoa ter que ir embora às quatro, mas já serem cinco, o sol naquele meio entardecer amarelo luminoso douradíssimo escuro refletindo polígonos dourados alaranjados na parede e naquele corpo nu e suado, até poucos meses atrás estranho e inicialmente tão, tão incômodo, você podendo notar imperfeições nele tanto como se constrange de suas próprias, mas agora você mais que o ama

por favor não vá embora jamais!

Porque há uma cumplicidade entre você e aquele corpo que não há com mais ninguém neste mundo, mesmo naquele silêncio do encarar sem qualquer palavra. Vocês querem fazer qualquer coisa ainda que nada e já é hora de fingirem lá fora tarefas importantes coordenadas pelo fuso horário do país e a tarde termina devagar em vapores de suor saindo da janela e conversas que já não fazem o menor sentido, e haverá de doer como uma lembrança todos os dias de dias que foram e virão a nunca mais ser como aqueles e sua mente te traindo, te dando inúmeras palavras pra chamar àquilo que não amor.

Deveria haver também o passo de autoajuda a respeito de amores que são tortos, que não se podem compreender, como o homem flácido e triste de meia-idade que visita aquele quarto seboso e é atendido pela menina jovem do interior que veio assim, quem sabe, buscar um trabalho de secretariado na cidade mas uma amiga disse que seria mais fácil ficar lá naquele quarto e daria muito mais dinheiro. E o homem vai lá todo dia, e às vezes nem transa, só quer abrir o coração diante da própria hipocrisia que é a vida dele, seu casamento há muito já perdido e existido apenas enquanto formalidade e lá o único lugar onde ele pode de verdade se abrir, e talvez ouvir os dois corações batendo juntos num silêncio de horas contadas a cinquenta reais. E ela ri da tolice abarangada, finge ligar, finge pois tem um namoradinho na cidade do interior que tem uma moto e é um escrotinho, tem tatuagem de índia e o nome dela e o da filha com a ex assinados nos antebraços e ela nem gosta muito dele, mas ninguém quer ficar sozinho, né? Mas aí o cara de meia-idade deixa de aparecer por uns tempos que vão só espaçando e ela sente uma pequena lufada de vento no coração, como um buraco de rato na parede que vai crescendo e se esvaziando de reboco até virar um túnel e ela chora sem saber o porquê, não pode entender como pode chorar para um sujeito flácido, cor de frango depenado e papada, pau frouxo e cueca velha, mas ela chora até se acabar e cheira, deve estar bonita e séria pra outro dia de trabalho.

Há o passo da pessoa de sorrisos em fotos de praia no perfil virtual, corpo torneado e cheio de promessas de sexo e aventura que conhece outra pessoa de corpo extraordinário, ambos são livres, livres de uma intensa liberdade tão estupidamente livres, meu secular Deus, que nada têm a perder além dos grilhões que oprimem a hipersexualidade incontrolável de ambos.

E ambos estão dolorosamente sós.

E ambos lutam intensamente um estranho jogo de amor livre e amor preso, de promessas complexas e calculadas, ameaças sombrias e sórdidas, diluídas em encontros com amigos. E ambos jogam esse jogo perigoso todos os dias e sentem-se aptos a jogarem ele, mesmo sabendo que encontrariam verdadeiro carinho e cumplicidade caso abram mão do próprio orgulho doloroso da hiperliberdade.

E continuarão a insinuar a liberdade sexual a todo custo, num longo mercado, custoso e contabilizado de corpos, mesmo estando juntos. A liberdade da juventude deve ser vivida na intensidade da duração da beleza dos corpos, mesmo sendo a mesma ideia de liberdade da propaganda de tênis. E logo se odiarão mutuamente em conversas, glorificações do sexo sem rosto, de entorpecência afrodisíaca do álcool. Os dados menos sexuais serão excluídos da auto-propaganda de liberdade. O filho, a idade, o rosto cansado de choro, o quarto perdido na casa da família, com bichinhos mofados de pelúcia, as fotos de criança guardadas, as incertezas, os dias horríveis, a falta de dinheiro, o medo do futuro, as inseguranças sexuais, o medo de falhar, de errar socialmente, o medo de parecer menor que colegas de trabalho da pessoa que se (ama?) a certeza de que a traição não só é inevitável, como deve ser calculada num jogo de potencialidades; mais forte no relacionamento é quem mais tem potencialidade de eminente traição, mesmo não querendo isso e sabendo a carga emocional dolorosa e pesada que isso poderia acarretar, mas jogo é jogo.

Só serão vistas belezas sinceramente selecionadas de noites feéricas, preto nos trajes e belos braços tatuados. Vida é dinamismo, e quem não entende o charme de estar em ativa beleza, não entende os jogos intensos do amor moderno. Beleza é movimento e atividade. Aventura e promessa de que a próxima pessoa não trará outro pacote de incertezas.

Trará.

Exigirá um movimento de amnésia complexa, desapego sexual, impessoalidade absoluta. Se tiver sucesso, como conseguem os garotos de programa, não haverá limites para seu ranqueamento no mercado dos corpos, mas por quanto tempo você conseguirá manter sua mente presa nessa espiral despreocupada e sentimentalmente negligente?

Emocionalmente independentes, parabéns para nós que conseguimos a emancipação dos ditames do coração. Das ilusões do amor romântico. Dos tropeços sentimentais. Amar é sofrer, e quem quer sofrer nesta época de redução de danos, aumento do conforto, satisfação em primeiro lugar? É uma escolha racionalmente estúpida. Custará nossa juventude. Custará nossa liberdade. Temos algo melhor pra nós.

Temos algo melhor pra nós, temos algo melhor pra nós, temos algo melhor pra nós. Temos a nós. Temos nós. Muitos nós.

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