Sintonizar memórias, reavivar lembranças

Dois projetos têm ajudado no combate a síndromes de deterioração cognitiva, em especial o mal de Alzheimer

Inúmeras vezes, Real Madrid e Barcelona dão espetáculos dentro de campo. A seleção espanhola, nos últimos anos, também encanta com o futebol vistoso, o denominado tiki-taka — uma alusão aos passes curtos e à movimentação dentro de campo. E o futebol, sem dúvidas, é capaz de inspirar boas ideias. Prova disso são iniciativas da revista Líbero, da Espanha, em parceria com a Universidade Autônoma de Barcelona e a Federação Espanhola de Futebolistas Veteranos. Dois projetos têm ajudado no combate a síndromes de deterioração cognitiva, em especial o mal de Alzheimer.

Em uma das propostas, em 2014, a Líbero — uma revista que conta com temas ligados ao futebol — produziu quatro edições como se fossem antigas, entre as décadas de 50 e 90, e as distribuiu em centros de tratamento de Alzheimer, de forma que acometidos pela doença nutrissem suas recordações a respeito do esporte. Na segunda ação, em 2015, o veículo de comunicação criou uma rádio online, com narrações de jogos importantes do mesmo período, enfatizando que “o Alzheimer é um rival duro e este ano vamos marcar outro gol nele”.

Líbero encampou duas ações: elaborou uma revista “antiga” e criou rádio que “sintonizava lembranças” (Crédito: Reprodução / Internet)

Ambos os projetos receberam o acompanhamento de especialistas que, depois da experiência vivida pelos pacientes, atestaram que o futebol realmente influencia na capacidade de trazer lembranças à tona. Com o auxílio das ondas sonoras, aliás, o propósito era “no lugar de frequências, sintonizar memórias”, como o próprio slogan da campanha deixava claro. Nos vídeos publicados pela revista em seu site, é fácil perceber a felicidade dos pacientes ao folhearem as páginas — a capa de uma delas, curiosamente, exibe Pelé. A emoção ao ouvir as narrações, então, é indescritível.

Uma das capas da revista, curiosamente, exibe o “Rei” do futebol (Crédito: Reprodução / Internet)

Que o Alzheimer é cruel, não há mistério. Literalmente é um mal, diagnosticado por um psiquiatra alemão há mais de 100 anos. Hoje, Alois dá nome à doença. Paralelos à parte, para quem descobre tê-la, assim como para seus familiares, a tristeza certamente é inevitável — muito maior do que a vivida pelos brasileiros após o 7 a 1 sofrido para o país de origem do psiquiatra, na última Copa do Mundo, em 2014. Se você, brasileiro, lembra-se disso, agradeça. Se o parente querido ao seu lado também, agradeça outra vez. São memórias.

Ações como as encampadas pela Líbero são os verdadeiros “7 a 1”, do ponto de vista de quem vence a partida. Pensando nos espanhóis, um recado: deveriam ser obrigatoriamente elogiadas as iniciativas — pioneiras — da revista. Precisam ser tão celebradas e enaltecidas quanto o gol de Iniesta, em 2010, que deu o título mundial à Espanha diante da Holanda. Para isso, basta que o povo imagine, mesmo que rapidamente, o entusiasmo de alguém que, muitas vezes, sequer lembra qual foi sua última refeição e, de repente, lembra-se de momentos futebolísticos um tanto quanto distantes no que se refere a tempo.

REDAÇÃO SPORTV EXIBIU VÍDEO SOBRE A AÇÃO (+)

É praticamente impossível dimensionar a alegria dos pacientes — e de seus familiares — com Alzheimer beneficiados pelas iniciativas da Líbero. O sorriso de um dos senhores que participou da campanha — divulgado no vídeo institucional — ao ouvir uma partida longínqua entre Real Madrid e Barcelona, no entanto, deixa claro que a satisfação é memorável. Além da distribuição gratuita nos centros de tratamento, parte da venda de exemplares nas bancas foi revertida ao enfrentamento à doença no país ibero-americano. Outro “gol de placa”, com uma estratégia aparentemente simples, mas que certamente trará resultados consideráveis no que diz respeito à atenção à doença.

Emoção é evidente entre os pacientes de Alzheimer estimulados pela ação da Líbero (Crédito: Reprodução / SporTV)

No Brasil, reportagem publicada pela revista Exame, em 2013, estimava que o país tivesse 1,2 milhão de pessoas acometidas pela doença. E continha projeção da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), informando que o número de casos vai mais que dobrar até 2030. Assim, que tal adotarmos o tradicional “nada se cria, tudo se copia” a nosso favor? Ou então pensarmos na possibilidade de um possível “nada se cria, tudo se inspira”. Que nossos veículos de comunicação possam encampar ações semelhantes às da revista espanhola e produzam não só informação, como também recordações.

Melhor ainda, que a imprensa da própria Espanha continue multiplicando boas ideias. E por que não sonhar com a imprensa mundial compactuando com excelentes causas? Se acontecer, de fato, não há dúvidas de que lembraremos delas por muito tempo. Tempo suficiente para que não se apaguem de nossas memórias.