A estranha offseason de Bryce Harper e Manny Machado

As grandes ligas americanas compartilham o mesmo período alto de offseason. A época em que os jogadores ficam sem contrato e podem negociar um novo vínculo, também conhecida como free agency, costuma ser o ponto alto quando não há jogos para se assistir. Bom, até nesse ponto a Major League Baseball (MLB) vem falhando com seus fãs. Agentes-livres desde o fim da temporada passada, dois dos melhores jogadores da liga ainda estão sem contrato: Bryce Harper e Manny Machado ainda não assinaram com nenhum time e estamos há quase um mês do início da temporada 2019.

Todo mundo esperou a chance de negociar com eles… e agora? (Foto: Reprodução/CBSSports.com)

Bryce Harper negou, em setembro do ano passado, uma proposta de US$ 300 milhões por 10 anos do Washington Nationals. A franquia, que foi a única que o jogador defendeu ao longo da sua carreira, bateu o pé que esse seria o limite chegado. Harper decidiu testar o mercado e até agora as coisas não andaram como o esperado para o jogador. A esperança era bater o vínculo assinado por Giancarlo Stanton, em 2014. O então jogador dos Marlins assinou por 13 temporadas e 325 milhões de dólares. Caso isso não fosse possível, a ideia era assinar por algo perto do que Alex Rodriguez (10 anos/275 milhões) ou Miguel Cabrera (8 anos/247 milhões) assinaram.

Harper enfrenta o maior dilema da sua carreira nesta offseason (Foto: Geoff Burke/KBNR)

Nenhuma proposta chegou perto da que lhe foi oferecida em Setembro. Harper já teve reuniões com os próprios Nationals, Philadelphia Phillies, San Diego Padres e San Francisco Giants. Todas sem nenhum acordo ou perspectiva de algum consentimento. Os Yankees, outro time que poderia buscar o jogador, já se descartaram da corrida. Estamos falando da possibilidade de adquirir um jogador de 26 anos que tem projetado, para 2019, um fWar de 4.9. Não é alguém que apresentará um declínio num futuro próximo ou que tem um histórico complicadíssimo de lesões. É um cara que vai chegar e elevar o nível da franquia. Bryce Harper foi a primeira escolha do Draft de 2010, novato do ano em 2012, MVP em 2015.

Manny Machado ainda está sem time para 2019 (Foto: Reprodução/Chicago Tribune)

A mesma situação passa o shortstop/terceira base Manny Machado. Contemporâneo de Harper no Draft, foi o terceiro escolhido daquele ano. Também com 26 anos, Machado se destacou ao longo da carreira por Baltimore Orioles (2012–2018) e um breve período nos Los Angeles Dodgers (2018). Podendo atuar em duas posições importantes no lado defensivo do jogo, e diga-se de passagem, contribuindo bem em ambas, o dominicano ainda não assinou com nenhuma franquia. As projeções para 2019 são de fWar 5, com alguns sites colocando em 5,3. Um aproveitamento acima da média (28,8) e mais de 30 HRs, além da já citada contribuição defensiva.

Manny já se reuniu com San Diego Padres, Philadelphia Phillies e Chicago White Sox. Os Yankees, que também foram sondados como destino de Machado algumas vezes durante 2018, não chegaram a se reunir com o jogador. Fora isso, nenhum outro grande rumor tomou conta de onde será o futuro. Em janeiro, o pai de Manny afirmou em entrevista que o time menos provável assinaria com seu filho. Bom, estamos esperando.

São dois jogadores que muitas equipes se prepararam, com antecedência, para ter em seu elenco no início de 2019. Porém, a atual cultura de negócios da MLB, está prejudicando as duas estrelas. O site MLBTradeRumors projetava negócios estrondosos para os jogadores: enquanto Harper ganharia algo em torno dos 400 milhões de dólares por 10 anos, Machado assinaria por 13 anos e 390 milhões com os Phillies. Estão no auge da carreira, contribuirão imediatamente e, mesmo assim, não assinaram com nenhum time.

Sem que os dois assinem, existe um ‘efeito cascata’, que impedem outros bons nomes que também estão sem contratos a assinar longos vínculos. Se os melhores não assinaram, os times não tem um valor para barganhar com os jogadores ‘médios’, a grosso modo. Então o entrave tem desdobramentos por toda a classe de agentes-livres. Não existem precedentes para uma situação como essa na liga. Os nomes mais cobiçados do período sempre assinavam o vínculo com rapidez e logo sabiam onde jogariam. Ano passado o panorama mudou, com alguns jogadores assinando em janeiro os contratos.

Rob Manfred, comissário da MLB, nada faz para alterar o atual status da offseason (Foto: Reprodução/MLB.com)

Toda a situação é causada por um contexto em que, para os donos não é necessário ter um bom time para se lucrar. O Cincinnati Reds, time que não tem campanha positiva desde 2014, registrou um dos maiores lucros em 2017 — quando a equipe teve campanha de 68-94. Os jogadores não tem nenhuma vantagem ao pedir grandes salários para os donos e vão perdendo essa queda de braço.

A postura agressiva para buscar os melhores talentos, que era revertido em lucro, foi sendo subvertida gradativamente. Construir um time vencedor a partir de campanhas ridículas para conseguir boas escolhas de Draft (oi Chicago Cubs e Houston Astros) se mostraram boas estratégias. Os executivos sempre procuram o menor risco para a franquia e, ultimamente, têm conseguido por meio de trocas. Dentro do mecanismo da liga, foram reveladas maneiras de ganhar sem ser necessários os contratos gigantescos que outrora dominavam a liga.

Não há nenhum tipo de ação, por parte da MLB, que incentive um time que busque ser competitivo. Muito menos uma punição para aqueles que não se mostram minimamente competitivos. É inevitável imaginar que, caso esse impasse não seja solucionado, uma greve dos jogadores acontecerá quando for negociado o próximo acordo coletivo entre jogadores.

A situação é complexa e vai exigir dos envolvidos muita negociação para que seja estabelecido um denominador comum. Até lá, estranhamente, dois dos melhores jogadores da atual geração, encontram dificuldades para assinar um novo contrato. E isso, pelo que parece, será uma tendência.