Como dobrar um smartphone?
A moda da vez são os dobráveis. Quem vai criar o melhor modo de se dobrar um smartphone?

Em 2007, a Apple apresentava ao mundo o primeiro iPhone (aliás, a apresentação é tão legal que vale a pena rever ali > aqui). O formato de celular de tela gigante sensível ao toque (gigante para 2007, cabe ressaltar), retangular de cantos arredondados estava no seu ‘estado da arte’. Essa descrição, semeada pela Apple —mesmo sob protestos judiciais da exclusividade do formato, que convenhamos é bem generalista— pode ter sido até ‘melhor resolvida’ realmente por Steve Jobs e seus pupilos, mas engana-se quem acha que o pioneirismo da ideia, o ‘Ovo de Colombo’, foi materializado por ele ali naquele palco.
A ideia de um dispositivo (nada de smartphone ainda) sem teclado físico e controlado por toques diretos na tela nasceu em 1994 na forma do IBM Simon, uma espécie de avô dos “PalmTops”. Mas depois dele diversos ‘smartphones’ com telas resistivas ou capacitivas, com ou sem canetas para controle foram lançados. Mas quando surge a pergunta sobre qual foi o primeiro smartphone lançado sem teclado físico a resposta é quase sempre uma só: iPhone.

Isso acontece porque a glória do sucesso — e da memória— recai apenas sobre aquelas que executam o tal do ‘Ovo de Colombo’ como um autêntico chef de cozinha extrai de um simples ovo, um belo ovo poché. A Apple fez isso com o iPhone e tem repetido essa fórmula desde então, passando pelo iPad e por diversas ferramentas em seu iOS, que na grande maioria das vezes são soluções já vistas em outras empresas.
Recontada a história, podemos dizer que 2019 marcou oficialmente o início de uma nova corrida. A descrição de ‘dispositivo retangular com cantos arredondados’ ganhou oficialmente o rótulo de boring, e as grandes empresas de tecnologia do mundo todo iniciaram o seu ‘Jogos Vorazes’ da vez para ver quem se sai com a melhor encomenda na nova categoria alvo do futuro: os dobráveis.
A chinesa e desconhecida Royole Technology foi a dona da primazia de um aparelho com tela dobrável flexível com o seu FlexPai, e dando uma conferida em um hands on chinês da época do lançamento (outubro de 2018) dá pra entender o porquê de ser o primeiro não significa ser digno da alcunha de “o criador” de determinado conceito. O FlexPai de 2018 era lerdo nas transições e um tanto desengonçado.

Contudo, o pioneirismo entre os ‘dobráveis’ cabe à ZTE e o seu Axon M, lançado em janeiro de 2011. E dobrável, neste caso, não significa automaticamente tela flexível. A empresa chinesa lançou mão de um aparelho com duas telas unidas por uma dobradiça, como em um notebook onde o teclado fosse a tela. Uma das boas soluções que o modelo proporciona é a excelente transição multitarefa entre as duas telas. Mas ainda assim, o design é bastante destrambelhado.

A Samsung foi a primeira empresa do ‘escalão de cima’ a se lançar no inóspito mundo dos dobráveis, com o seu Galaxy Fold. Fez barulho, muitos torceram seus narizes para o design do aparelho (especialmente sobre a estranha tela central que funciona como principal no modo ‘receba uma ligação’), e alguns torceram o próprio aparelho com seus primeiros testes nos mais renomados canais de tecnologia do mundo e suas bizarras falhas e quebras na tela flexível. Este fato levou todo o recém-nascido segmento dos aparelhos dobráveis de tela flexível a um descrédito quanto a maturação da tecnologia. A chinesa Huawei, por exemplo, achou por bem adiar o lançamento do seu Mate X, sem se dar ao luxo de ter sua credibilidade posta em xeque como os sul-coreanos. A própria Samsung teve de adiar a estreia comercial do Fold, e redesenhar pontos importantes do aparelho, e o que conseguiu foi ter um celular cheio de recomendações no uso. Nada funcional.

A LG lançou o V50, um modelo ‘normal’ que pode adicionar um módulo com uma tela a mais, mas ainda assim muito parecido com o destrambelhado Axon M da ZTE. Estava quicando na área a possibilidade de uma empresa do escalão de cima desenvolver um modelo de duas telas e dobradiças mais elegante, ou melhor acabado. A Microsoft então apareceu com o Surface Duo, versão menor do Surface Neo um tablet de duas telas. Aparentemente bem acabado, o modelo esteticamente lembra um daqueles cadernos de bolso da Moleskine, pelo tamanho e formato. Totalmente fechado não apresenta nenhuma tela externa, o que pode ser bom para evitar descuidos, mas deixa desapontados aos adeptos do ‘always on’. E o sistema (Android, o Windows Phone morreu mesmo) parece bem adaptado para as duas telas.
A corrida está lançada: tela flexível ou duas telas, o fato é que o smartphone dobrável é o novo retangular com cantos arredondados. Teremos pela frente uma década de boas ideias em cima desse conceito, e com a concorrência pesada do IoT para disputar espaço com a ideia de smartphone. No final saberemos que vai ganhar a disputa da primazia aquele que melhor adaptar a forma e a função. Não ache que a Apple está quieta à toa.

