Fortaleza: O dia em que o velho Castelão me escondeu os gols do Tricolor de Aço

No primeiro texto da série de relatos de viagens, falo sobre a capital cearense e um dos jogos mais curiosos a que já assisti

Castelão em 2005, muito longe ainda do atual Padrão FIFA (Crédito: Arquivo pessoal)

Julho de 2005. Eu e minha mãe faríamos a clássica viagem de férias no meio do ano, aproveitando a parada escolar. Todo ano ela fechava nesse mês um pacote para algum lugar no Brasil e lá íamos nós passar cerca de uma semana fora, para descansar e curtir. Meu pai, por conta do trabalho, sempre ficava preso em São Paulo durante as minhas férias e infelizmente nos acompanhou pouquíssimas vezes. Dezembro, janeiro e julho eram meses importantes no serviço e dessa vez, quando fomos para Fortaleza, ele ficou mais uma vez em casa. Porém, de alguma forma ele se fazia presente, como por exemplo nas camisas de times de futebol locais que me pedia para trazer da viagem. Era sempre uma aventura correr atrás das camisas que meu pai queria.

Antes mesmo de chegar na capital cearense eu já havia dado uma olhada no calendário do Campeonato Brasileiro e vi que um Fortaleza x Juventude aconteceria bem na semana em que eu estaria por lá. Era a minha chance de conhecer o Castelão e assistir a um jogo no Nordeste, uma experiência pela qual todo fã de futebol deveria passar e um evento tão (ou mais) importante quanto uma ida ao Beach Park. Consegui convencer minha mãe e na quarta-feira à noite partimos para o Estádio Governador Plácido Castelo.

A essa altura eu já tinha ido ao shopping dias antes para comprar uma camisa do Fortaleza - muito mais bonita que a do rival Ceará, por sinal- para estar a caráter no dia do jogo. Meu pai, que sempre pedia camisas, me deu a ingrata tarefa de encontrar uma do Ferroviário, o terceiro time da cidade, difícil de achar. Ficou sem. Com a camisa do Tricolor de Aço, chegamos ao Castelão e combinamos com o mesmo taxista o retorno para o hotel. Ele disse que estaria exatamente no mesmo lugar onde nos deixara, debaixo de um outdoor gigante que não lembro o que anunciava.

Hoje, passada a Copa do Mundo no Brasil, fico imaginando como está o entorno do Castelão. Certamente menos feio do que em 2005, penso eu. Naquela época, sem o tal “Padrão FIFA”, era só um velho gigante de cimento no meio de uma grande área cimentada e um breu danado para onde quer que o olhar te levasse. No caminho até lá, favelas e mais favelas. Isso provavelmente não mudou com o Mundial, uma pena. De melhora, apenas o próprio estádio, transformado em “arena”.

Inaugurado em 1973, o Castelão passou por uma grande reforma após ser anunciado como uma das sedes da Copa do Mundo no Brasil. Reinaugurado em 2013, no Mundial do ano seguinte foi palco, entre outros, do jogo entre Brasil x Colômbia, válido pelas quartas de final da competição

O movimento de torcedores para a partida era tranquilo. Achamos a bilheteria e insisti com minha mãe que queria ir na arquibancada. Era uma fase da minha vida em que torcidas organizadas geravam fascínio pelas músicas e pela festa que faziam nos estádios. Ou seja, queria porque queria ver a Leões da TUF de perto. Até cogitei comprar uma regata deles que vi à venda no Mercado Central de Fortaleza, mas deixei para lá — eu já era ridículo com o meu cabelo comprido, não precisava de mais nada. A fila para a compra de ingressos era grande, mas a paciência enorme. Ainda. À medida que o horário do jogo se aproximava, a mesma paciência que sobrava na chegada ao Castelão já mostrava sinais de fraqueza, especialmente na minha mãe, esbravejando para que comprássemos uma numerada e entrássemos logo. No fim, ela teria razão. Mas eu odiava — e ainda odeio — numeradas. Como diz a música, “eu vou de arquibancada pra sentir mais emoção”. Numerada não!

Chegou uma hora em que a fila na qual estávamos já afunilava para a do lado, pois nosso guichê não tinha mais ingressos. Para alegria geral de todos os torcedores presentes, o guichê do lado também ficou sem ingressos e, portanto, três filas passaram a comprar em um único guichê. Insisti, por orgulho, naqueles ingressos de arquibancada. Mas o jogo já tinha começado e nem eu aguentava mais ficar ali. Minha mãe então… Por ela estaríamos de volta no hotel.

Com o jogo iniciado, tivemos que dar a volta no estádio pois a bilheteria das numeradas era do outro lado. Andávamos quando de repente o Castelão explodiu pela primeira vez: GOOOOOL! Sabia, pelo som da torcida, que o gol não era do Juventude. Apertamos o passo e enfim chegamos na bilheteria, vazia. Compramos e entramos. Admito que o fato de estar na numerada não me agradava, mas se eu soubesse que perderia um gol pela insistência em ficar na fila da arquibancada, teria ido direto para lá. Mazinho Lima foi o autor do gol que abriu o placar, com apenas 12 minutos do primeiro tempo. A espera para comprar os ingressos e a longa caminhada me deixaram com uma vontade implacável de urinar.

Já tinha feito o que aparentemente foi o mais difícil, que era entrar no Castelão. Urinar com o jogo rolando não seria um problema, ainda que o manual do torcedor deixe bem claro: nunca vá mijar durante o jogo. Pois bem, não segui o manual… GOOOOOOOOOOOOOL! O estádio pareceu cair sobre mim. Levei um susto e mijei fora da privada - minhas desculpas ao povo cearense por isso. Saí correndo do banheiro, encontrei a minha mãe e fomos sentar. Rinaldo havia marcado o segundo, aos 17 minutos. Puto por perder mais um gol, encontrei tranquilidade na esperança de que, com esse ritmo, o Fortaleza aplicaria uma goleada histórica sobre o Juventude. E eu estaria ali para presenciar a história acontecer. Não faltaram chances. Lembro de uma bola que praticamente rolou sobre toda a linha do gol dos gaúchos. Eu, de pé, fazia uma espécie de força mental para que a bola desviasse sozinha o seu curso e entrasse para dentro da meta, defendida por Doni. Sim! Aquele Doni, que sairia do Juventude para a Roma sem que ninguém no mundo do futebol conseguisse entender como. Na verdade, não sei se esse lance realmente aconteceu ou se, no meu inconsciente, eu só quero lembrar que ele aconteceu, pois foi o mais perto que eu teoricamente vi de um gol naquela noite.

Fortaleza e Juventude terminaram o Brasileirão de 2005 na 13ª e 14ª colocações, respectivamente. Hoje, as duas equipes disputam a Série C. O último confronto entre ambos na elite do futebol nacional ocorreu em 26 de novembro de 2006, empate em 2 x 2 no Alfredo Jaconi, em Caxias

Coisas do inconsciente ou não, fato é que o jogo não saiu do 2 a 0. O Fortaleza, de Bosco, Ronaldo Angelim, Fumagalli e Paulo Isidoro martelou e jogou para ganhar de mais. O Juventude, de Doni, Túlio Maravilha e treinado por Dorival Júnior, não foi capaz de correr atrás do placar depois do ótimo início dos donos da casa. Em 2005, não tinha ainda o desejo concreto de me tornar jornalista e tampouco tive interesse em analisar a partida sob qualquer ponto de vista que não fosse o da festa e o da novidade de ver uma partida em um estádio que não conhecia. Eu era um adolescente e o que eu queria era ver festa e futebol. Olhava a todo instante para a arquibancada, invejando quem estava lá, mais próximos da Leões da TUF do que eu.

Leões da TUF fazendo a festa atrás de um dos gols do Castelão. Eu queria mesmo era estar perto deles (Crédito: Arquivo pessoal)

Terminado o jogo, encontramos o taxista exatamente no ponto onde nos deixara, debaixo do outdoor. Não sei dizer qual era o estado de espírito da minha mãe nesse momento — alívio, talvez. O meu era o de alguém contente por estar ali e mais certo de que o futebol mexia comigo de forma especial, diferente. E olha que praticamente nada saiu como eu queria. Não fui à arquibancada, perdi uma parte do jogo e perdi os dois gols da partida, muito provavelmente por teimosia minha. Mesmo assim, voltei feliz para o hotel.

Hoje, ao pensar naquele Fortaleza x Juventude, lembro dele com carinho e a mesma felicidade que senti em 27 de julho de 2005. Mas o Castelão sabe que me deve — ainda que grande parte da culpa tenha sido minha. No dia em que eu voltar lá, espero ser recompensado com, no mínimo, os dois gols que o estádio me escondeu. Prometo ir de numerada, mãe. E mijarei apenas no intervalo. Eu prometo.


Este é o primeiro texto de uma série de relatos de viagens com experiências futebolísticas que contarei aqui no Medium. A inspiração para escrever os relatos veio do livro 11 Ciudades, do jornalista espanhol Axel Torres. Falei sobre o livro e por que ele me inspirou aqui: