Mestres, Discípulos e Loucos

Por Ezequiel Fernández Moores*

Arte de Sebastián Domenech

Marcelo Bielsa considera César Menotti, treinador campeão mundial com a Argentina em 1978, um mestre. Mas tem pensamentos opostos aos dele. Sabe que “é muito perigoso pensar o contrário de um professor, porque a chance de cometer um erro é maior”. Ao contrário de Menotti, Bielsa crê em polivalência no futebol. O rosarino de 61 anos acredita que todos os jogadores são obrigados a saber jogar em pelo menos duas posições. E saber como se adaptar às mudanças em um jogo. Por isso, longe de idealizar La Masia (a base do Barcelona), ​​Bielsa acredita que nas categorias de base os sistemas de jogo deveriam mudar a cada dois meses: “Para que os jovens ganhem cultura tática”. Tanto aprendizado, entretanto, serve para Bielsa reforçar suas ideias, não para modificá-las. Por isso diz que que Jorge Sampaoli é melhor que ele. Porque seu suposto discípulo é “mais flexível”. E porque, assim, conquistou mais. “Loco”, como é conhecido, pode ser um apelido carinhoso. Mas é também um desprezo. Seria bom tirar os rótulos. Bielsa, acima de tudo, nos convida a pensar.

O argentino admite que “uma das virtudes dos treinadores é a flexibilidade, ou seja, não se apaixonar por suas próprias idéias.” Mas ele mesmo diz que não tem essa qualidade. Porque ele precisa “se apaixonar para convencer” seus jogadores. Em debate no último Congresso da CBF, realizado no início de maio, Bielsa admitiu ter tido que se sacrificar em alguns momentos ao longo da carreira. Em seguida, falou sobre tática e citou a seleção brasileira. Ele estava no Brasil e junto de Tite: “Por favor, me corrija se eu estiver errado”, pediu Bielsa. E sugeriu: “Coloque Thiago Silva no lugar de Miranda”.

Bielsa observou que o Brasil utiliza quase sempre os mesmos jogadores e o mesmo esquema (descreveu como 4–3–3, não 4–1–4–1, como diz a maioria). Disse que, se isso continuar, o Brasil de Tite poderá ser campeão na Rússia. Como argentino, confessou que isso não lhe trará prazer. O treinador afirmou ter ido ao Macaranã e, ciente do que acontece nos estádios argentinos, se mostrou contente por ter visto torcedores de Fluminense e Flamengo misturados no mesmo setor. No entanto, já ao final do encontro na CBF, recusou posar com a camisa da Seleção Brasileira. Além do vasto conhecimento, Marcelo Bielsa é pura paixão. Essa é a sua maneira de entender o futebol, sua credibilidade à prova de balas. Não há nenhuma outra personalidade como a sua na elite super profissionalizada do futebol mundial.

Já faz um bom tempo que Marcelo Bielsa vem nos falando sobre o verdadeiro significado das palavras VITÓRIA e DERROTA. Sem nenhuma vergonha, ele se sente como um “fracassado” pelo fato de ter conquistado “muito pouco” ao longa da carreira. De fato, ninguém chorou tanto quanto Bielsa pela queda da Seleção Argentina na Copa de 2002, dirigida por ele, ainda na primeira fase. É nesse tipo de análise que aparece o Marcelo Bielsa mais profundo. E que assusta a todos quando afirma, taxativamente, que a mídia invadiu e dominou o papel educativo das famílias e das escolas. E que isso é uma vergonha, porque os meios de comunicação “têm interesses específicos que são diferentes dos de uma escola”. E porque, de acordo com esses interesses, “eles se especializam em perverter o ser humano, julgando-o a partir de uma vitória ou uma derrota”.

Foi quando surgiram os aplausos na plateia. Todos entenderam que Bielsa estava falando de algo muito mais complexo do que o futebol. Foi inevitável recordar da infeliz sequência fotográfica do jornal Perfil, que comparou o torturador argentino Alfredo Astiz com Lionel Messi, já que o primeiro foi beneficiado por uma decisão da Corte de Justiça da Argentina e o segundo foi absolvido em julgamento da FIFA.

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1998, o escritor Elie Wiesel disse certa vez numa conferência em Paris que ele sempre admirou A Mulher de Ló. Segundo a Bíblia, ela se transformou numa estatua de sal, um castigo divino por ter desobedecido a ordem de não olhar para trás e, assim, ter virado para observar Gomorra, sua cidade, que havia sido incendiada por uma pecadora. “Como não querer olhar uma última vez para sua casa, sua família?” questiona Wiesel, que pediu desculpas aos jovens por também querer transmitir-lhes a missão de nunca esquecer o horror, mesmo que eles não o tenham vivido.

Wiesel, em seguida, contou a história de um rei que, certa vez, avisou que todos ficariam loucos após comer a próxima colheita e, por precaução, separou um de seus conselheiros para continuar com sanidade: “Quando todos estivermos loucos, terá que ir de cidade em cidade gritando ‘não se esqueça que você está louco!’”. Isto, seguiu Wiesel, “é o que tentamos fazer: dizer ao mundo que loucura é matar, loucura é odiar”. Loucura é ser cruel. Embora, em seguida, chamemos de louco aquele que simplesmente nos avisa que somos.

*Texto publicado no jornal La Nacion e traduzido livremente pelo Sem Firulas