Miller, Fried & Trump

Elitização do Futebol. De um tempo para cá este é o assunto preferido em 7 de 10 mesas-redondas, sejam elas do bar ou da televisão. Você certamente já se pegou falando ou ouvindo sobre preços abusivos dos ingressos, arenas higienizadas, falta de festa nas arquibancadas, espectadores teatrais, etc. Engana-se quem pensa que ela é um fenômeno recente, mais um filho do sempre odiado ~futebol moderno~. Não é.

Miller & Fried — As Origens do País do Futebol, ótimo documentário que entra em cartaz essa semana no Rio e em São Paulo, conta como Charles Miller fez rolar por aqui a bola que trouxe da Inglaterra. E como os clubes foram criando equipes de futebol em torno das influências trazidas por aquele rapaz bigodudo.

São Paulo Athletic Club, Germânia, Internacional, Paulistano e Mackenzie formaram o quinteto de disputa do primeiro Campeonato Paulista de Futebol, em 1902. Para poucos. Aristocratas jogavam. Aristocratas assistiam. Inclusive, o termo TORCIDA vem de uma peculiaridade desses espectadores, contada pelo jornalista Celso Unzelte no documentário.

O futebol acontecia dentro dos muros dos clubes. A bola rolava apenas para os olhos dos mais abonados. Mas antes mesmo de saber driblar, quem era do povo já dava seus jeitos de descobrir o que acontecia nas cercanias da elite paulistana. E, ainda bem, a bola foi rolar por todos os cantos da cidade.

Arthur Friedenreich tem um nome tão complicado de falar quanto aparentemente era dificultosa a missão de marcá-lo em campo. Como boa figura mítica do passado, a verdade sobre sua origem e seus feitos esbarra na fantasia dos que contam um pouco e sempre aumentam um ponto.

Fried, que se nascesse ao longo desses mais de 100 anos de futebol no Brasil seria chamado de FRIDÃO ou ARTUR FREDERICO (dependendo da época e local que surgisse), jogou em tudo quanto foi canto, da várzea aos clubes, e simboliza - entrando na onda mítica - o escanteio batido pela elite e a cabeçada do povo para marcar o gol.

Para sorte das cinco estrelas que hoje carregamos no peito, a elite paulistana não conseguiu evitar a miscigenação da bola através do aprisionamento do futebol nos clubes, cercados por muros de dar inveja a Donald Trump. O magnata, se paulistano fosse, desfilaria seu topete nos bailes do começo do século XX e espalharia a ideia de Let's Make Futebol Great Again, expulsando Friedenreich's do gramado e deixando o esporte menos popular que o críquete.

Para Charles Miller, já com o bigode de molho, restaria dormir com o barulho das ruas: Charlesãão! Devolve o futebol do povão!