Morre Jean Padureanu, criador da maior fraude da história do futebol romeno

É muito difícil que o nome Jean Padureanu tenha ficado conhecido fora da Romênia, sua terra natal. Você provavelmente lê este nome pela primeira vez. Mas o cartola mais longevo no comando de um clube em seu país é um dos personagens que marcaram época no futebol da terra de Hagi, Popescu & cia. Ele morreu na madrugada desta sexta-feira, aos 80 anos, após sofrer de problemas cardíacos, diabetes, Alzheimer e um câncer generalizado.

Não só pela longevidade no clube do coração, o Gloria Bistrita, Padureanu é marcado pelas controvérsias e por ser considerado o pai da maior fraude que já viveu o hoje destruído futebol romeno: a Cooperativa.

Antes de ficar eternizado como dirigente, Jean Padureanu teve uma carreira modesta como lateral-direito. Nasceu na pequena cidade de Bailesti em 22 de março de 1936. Atuou a maior parte da carreira no Universitatea Craiova, nos períodos 1950–1956 e 1960–1964, quando o clube ainda disputava a terceira e segunda divisão do país; de 1956 a 1958, jogou no Steaua, e entre 1958 e 1960 e de 1964 a 1970, no Gloria Bistrita, um clube médio-pequeno que quase sempre figurava na primeira divisão. Encerrou a carreira aos 34 anos.

Mas desde 1964, quando ainda era jogador, Padureanu esteve ligado à diretoria do Gloria Bistrita. E entre pequenos hiatos, lá ficou até 2013, quando finalmente se aposentou. Recebeu como homenagem o nome do Estádio Municipal Gloria, que passou a se chamar Estádio Jean Padureanu.

Mantendo o Gloria Bistrita na primeira divisão romena de 1990 a 2011, o cartola foi batizado de “Lorde”, ganhando a fama “de homem que resolvia tudo num aperto de mão e com uma palavra”, como explica o jornalista Marius Mitran no documentário Em Busca do Futebol Perdido. Neste período na elite do futebol romeno, Jean Padureanu e outros dirigentes fundam uma grande sociedade para fraudar resultados de inúmeros jogos oficiais: A Cooperativa.

No meio dos anos 90, justamente no melhor momento da história da seleção nacional masculina, o futebol romeno começa o caminho ao colapso no qual se encontra hoje. E a passos largos. Negociantes, chefes sindicais, chefes e ex-proprietários de fábricas e usinas que dirigiam clubes de futebol na época faziam um esquema em que subornavam árbitros, fraudavam resultados, apostavam passes de jogadores em jogos de azar e mantinham a imprensa recém-saída do Comunismo na mão. Esta era a Cooperativa.

No geral, cada clube ganhava em seu estádio e perdia fora, e ficava decidido sobre quem lutaria pelo título, quem buscaria vaga nas competições continentais e quem lutaria contra o rebaixamento. Sobrava para quem não fazia parte do esquema ser rebaixado para a segunda divisão. A imprensa, que desde 1990 experimentava um regime democrático capitalista, ficava de mãos atadas com a indolência e o deslumbramento de jornalistas e com subornos em produtos típicos das regiões dos clubes. Tudo com o aval e a vista grossa da Federação Romena de Futebol, comandada por Mircea Sandu, e da Liga Profissional de Futebol presidida por Dumitru Dragomir. O “Lorde” admitiu que arranjou resultados, mas que jamais teve dinheiro envolvido no esquema, e sempre negou a existência da Cooperativa.

Após campanhas anti-fraude e a transição para uma outra geração de dirigentes (não tão mais íntegra que a anterior), a Cooperativa foi enfraquecendo. Mas o trauma foi tão grande que não é raro que qualquer resultado incomum ou virada difícil na Romênia sejam rapidamente acusados de blat (marmelada”, “jogo comprado”, em tradução livre) pelo público ainda hoje.

Já aos 77 anos, em 4 de março de 2014, Jean Padureanu é condenado a três anos e quatro meses de prisão no julgamento do Caso das Transferências. Foi um escândalo de corrupção em que dirigentes e empresários declaravam valores menores do que os reais nas transferências de alguns jogadores entre 1999 e 2005. Na ocasião, até Gica Popescu, zagueiro da Geração de Ouro e ex-capitão do Barcelona, foi preso, um dia antes de concorrer à presidência da FRF. Padureanu foi condenado por fraude, lavagem de dinheiro e evasão fiscal nas transferências do atacante Ionel Ganea para o Stuttgart em 1999 e do meia Lucian Sânmartean para o Panathinaikos em 2003. O “Lorde” recebeu liberdade condicional em 18 de junho de 2015, devido à idade avançada e aos vários problemas de saúde.

Jean Padureanu foi o maior dirigente da história do Gloria Bistrita, levando o clube fundado em 1922 a competições europeias, ao título da Copa da Romênia de 1993–94 e lhe dando uma longevidade na elite do futebol romeno como somente os grandes conseguem obter. Um período manchado pelas fraudes do “Lorde”, que levariam seu amado Gloria Bistrita, direta e indiretamente, ao colapso total em 2014. O clube foi refundado em 2015 e hoje disputa a quarta divisão, buscando uma nova história sem manchas, sem fraudes, e sem o herói-vilão, Lorde Jean Padureanu.

Confira o trecho do documentário Em Busca do Futebol Perdido que fala sobre a Cooperativa. Já está no ponto.

Sem Firulas

Cultura Futeboleira

João Vítor Roberge

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jornalista, craiovano e digiescolhido

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