Neymar e o preço de ser adulto sem nunca ter sido criança

Atualizado em Jan. 18, 2018 - 16h05

Nem quando marcou o gol que deu o ouro olímpico inédito ao Brasil, Neymar conseguiu fabricar mais manchetes positivas que negativas a seu respeito. Nem quando está acima de qualquer contestação em campo, Neymar consegue ser o ídolo que sempre sonhou.

Me lembro de uma conversa em que um dos membros de seu estafe revelou o plano para que Neymar ocupasse, em cinco anos, o posto de ídolo nacional do esporte brasileiro deixado por Ayrton Senna. Isso foi em 2011. Porém, a imagem que o craque ostenta atualmente, embora campeão olímpico e já consagrado na Europa, passa bem longe de uma unanimidade nacional como Senna ou Guga.

“Há quanto tempo não temos um ídolo de verdade?”

Faz pouco tempo, Neymar desabafou durante as férias em Las Vegas para justificar a eliminação do Brasil na Copa América: “Vai aparecer um monte de babaca pra falar merda, foda-se”. Faz pouco tempo, Neymar mostrou comportamento inconciliável com a braçadeira de capitão da seleção, à qual renunciou logo após a Olimpíada. Faz pouco tempo, Neymar, inebriado pela conquista, encarou torcedores no Maracanã e saiu do gramado emulando Zagallo: “Vão ter que me engolir!” Faz menos tempo ainda, Neymar empenhou-se no esforço de prolongar a guerra de egos com Cavani no PSG.

Reações humanas e até certo ponto bem-vindas no universo cada vez mais robotizado e adestrado dos jogadores de futebol. Mas totalmente mal calculadas para alguém que tinha um plano de carreira com a pretensão de moldá-lo como o maior ídolo de uma geração. Quando tem tudo para ser o centro das atenções pelo que faz com a bola, Neymar alcança a proeza de atrair mais holofotes para suas atitudes infantis.

Me lembro ainda de todas as vezes que o entrevistei. Nunca pareceu um tipo arrogante ou antipático. Apenas um adulto que aparenta ter bem menos idade. Aos 25 anos, Neymar tem certa razão ao indagar jornalistas que questionam seu comportamento: “Imagina você, com 25 anos, ganhando tudo que eu ganhei, tendo tudo o que eu tenho… Você não seria igual?”

Entretanto, a melhor pergunta seria: “Imagina você, com 25 anos, ganhando tudo que eu perdi, tendo tudo o que eu não tenho?” Porque, apesar de milionário, Neymar também perdeu muita coisa nessa estrada até o PSG, passando pelo Barça e o ouro olímpico. E a principal delas foi sua juventude, sua fase natural de imaturidade que não pode mais recuperar, apesar de todo dinheiro que tem.

Aos 6 anos, Neymar já era tratado como estrela pelo pai, que até hoje costuma se referir ao filho como “meu cliente”. Aos 11, chegou à base do Santos e logo não demoraria a viver só da bola. Aos 14, tinha empresário e sua família já podia se dar ao luxo de depender de seus rendimentos como atleta. Aos 16, assinava o primeiro contrato profissional com o Santos e ganhava salário de jogador top. Neymar é mais um dos milhares de garotos no país que abrem mão de sua infância em nome de uma carreira tão próspera quanto incerta no futebol.

Regime de concentração com disciplina militar, viagens para campeonatos, assédio de treinadores e empresários, esforço físico incompatível com a idade, mais tempo no campo do que na escola, enfim, a profissionalização precoce. No Brasil, o que seria considerado trabalho infantil em qualquer outra atividade — e condenado por boa parte da sociedade — se transforma em um mundo de sonhos e glamour quando envolve meninos de chuteiras correndo atrás da bola. Pouquíssimos chegam ao patamar de um Neymar. A maioria sucumbe pelo caminho. Adultos que nunca foram crianças, como Brunos, Jóbsons e Adrianos, para ficar nos exemplos daqueles que ao menos vingaram.

Alexandre Battibugli/Placar

Me lembro também de uma imagem registrada pelo mestre Alexandre Battibugli, com quem trabalhei na Placar, em um dia normal de treino no Santos. Neymar chamou a molecada que assistia à atividade para bater bola. Foi uma farra. Ali, ele era o garoto que deveria ter sido por mais tempo. Brincando em casa, na rua, na escola, sem a responsabilidade de ser o pilar financeiro de uma família. Clubes de futebol oferecem a ascensão social, mas, na mesma medida do dinheiro, desvirtuam a fase mais delicada de formação de caráter de uma pessoa. Assim como poucos vingam, poucos alcançam a maturidade esperada para um ídolo de verdade. Aliás, há quanto tempo não temos um ídolo de verdade no futebol?

Quando Neymar recorre a sua faceta de criança, dentro ou fora de campo, ele simplesmente manifesta traços daquele moleque levado que se viu obrigado a trocar uma travessura por treinos de fundamento, que o futebol sempre enquadrou e não soube esperar amadurecer. Ele se permite viver o adolescente que perdeu porres e festas com amigos, trancafiado em uma concentração. Fazer isso quando se é adulto (pelo menos na idade), rico e badalado acarreta o risco óbvio da incompreensão. O risco de se tornar o “antídolo”. De suas atitudes e declarações refletirem mais o pensamento mesquinho de quem o cerca do que uma inocência quase infantil.

Alheia aos talentos que se perdem pelo caminho e aos craques que não cansam de desperdiçar oportunidades para se tornarem ídolos, a CBF faz lobby para que o Congresso Nacional mude a legislação e permita que meninos sejam recrutados com menos de 14 anos pelos clubes, cada vez mais cedo. Neymar hoje tem 25, é cobrado como adulto e responde como adolescente, sem nunca ter sido, de fato, uma criança.