O risco AFA

Para onde caminha o futebol argentino rumo à Russia-2018?

Não é de hoje a crise deflagrada pela entidade máxima do futebol argentino, sendo que a proporção dos problemas da Asociación del Fútbol Argentino (AFA) é semelhante ao tamanho da camisa que representa: gigante. Cenário sombrio para o futebol argentino como um todo, é latente o risco de uma das “escolas do futebol” ficar fora da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. Seria um final melancólico, de um tango triste e desafinado, que vem dando sinais de descompasso desde a final perdida no Maracanã, em julho de 2014. Contudo, para compreender o risco AFA, é necessária uma análise cronológica dos acontecimentos pós-Copa.

Alejandro Sabella se despedia do cargo de técnico, após ser vice-campeão do mundo com uma campanha quase perfeita. A seleção que por pouco não encontrou o antídoto para derrotar a máquina alemã – aquela que havia enterrado o futebol brasileiro no gramado do Mineirão ­– partia de cabeça erguida do mundial, mirando adelante. A constatação era de que não faltava talento (pelo contrário), tampouco mudanças drásticas se faziam necessárias, talvez faltasse um pouco de suerte.

Um fato marcante, também em julho de 2014, foi o falecimento daquele que havia presidido a entidade por mais de três décadas, Don Julio Grondona. Não se pode separar o nefasto legado deixado por um dinossauro do futebol do descompasso vivido pela AFA. Escândalos, negócios escusos e má administração, para dizer o mínimo. No entanto, esse não será o tema central, até porque, mesmo na Argentina, tornou-se comum e corrente escutar a frase: “A culpa é de um morto, o que se pode fazer?”. Segue o jogo.

Diego “El Cholo” Simeone.

Poucas semanas após o fim da era Sabella, assumia Gerardo Tata Martino. O rosarino havia deixado o Barcelona após eliminação nas quartas de final da Champions League e uma perda de título do campeonato espanhol. O que essas eliminações têm em comum? Ambas para o mesmo Atlético de Madrid, comandado pelo compatriota Diego Simeone.

Martino, apesar de certa desconfiança inicial, conseguiria levar a seleção de Messi e companhia a duas finais de Copa América. Uma delas, em 2015, no Chile. Outra, em 2016, na Copa América Centenário, nos Estados Unidos. O que elas têm em comum? Nas duas ocasiões, reveses na decisão para os rivais chilenos, dirigido por outro técnico argentino, Jorge Sampaoli. Era evidente que Martino não tinha a mesma competência de seus conterrâneos.

As perdas em sequência abalaram um grupo de jogadores consagrados como Messi, Mascherano, Di María, Agüero, Higuaín, entre outros. Geração marcada por não conseguir um título pela seleção principal. Não era mais possível acreditar apenas em falta de suerte. Três finais perdidas em três anos, — la puta madre!. O turbilhão de emoções que tomou conta da Argentina foi digno de um tango dramático de Gardel. Ainda mais espetaculoso com a imagem de Messi, caído no gramado aos prantos, seguido de sua declaração dizendo que ali encerrava-se seu ciclo com a camisa da seleção. Pobres hermanos, mal sabiam que para tocar o fundo do poço faltava um poquito más.

“Desastre” dentro e fora de campo: Messi lamentando após perder a final da Copa América Centenário.

Naquele cenário devastado, Martino abandonou o barco. Veio à tona o real motivo pelo qual o treinador havia pedido demissão: atrasos nos salários. A AFA não cumpria com suas obrigações em relação aos funcionários. Lionel Messi resumia publicamente seu descontentamento: “Um desastre”.

A crise tornou-se pública. O governo argentino resolveu intervir quando já pipocavam de todos os lados acusações e investigações contra a AFA. Como as associações ligadas à FIFA não podem sofrer influência ou gestão de governos, sob a pena de exclusão de torneios, foi proposta a criação de uma Comissão Normalizadora. Fica a dúvida: Fosse uma seleção de menor expressão — e talvez até por menos desmandos do que cometeu a AFA — teria o mesmo tratamento? Melhor seguir o jogo.

A entidade máxima do futebol mundial e o governo argentino chegaram a um denominador comum para a reorganização da associação. O objetivo era tornar sua administração mais transparente. Curioso foi ver a FIFA responsável por fiscalizar alguma coisa. A mesma que em 2015 passou por episódios que culminaram em prisões de dirigentes, escândalos de corrupção e renúncia daquele que presidia a entidade desde 1998, Joseph Blatter.

Em julho de 2016 foi oficialmente apresentada a tal Comissão Normalizadora. E com desafios pela frente: Convencer Messi a voltar e contratar um novo técnico. Quais eram, então, dois dos melhores técnicos argentinos naquele momento? Diego Simeone e Jorge Sampaoli. Houve clamor popular, contatos, especulações, mas não um acerto definitivo. Ao que pareceu, nenhum deles estava disposto a assumir o desafio sob tal circunstância.

O que funcionou foi o plano B, ou, plano Bauza. Edgardo El Patón Bauza foi quem aceitou o desafio de dirigir a seleção e agarrar o ferro quente. Não estava entre os nomes mais cotados. O treinador, de certo destaque no futebol argentino e sul-americano, estava longe de ser unanimidade. Pesou a seu favor o bom relacionamento com Messi.

Apesar da nova Comissão, seguia a desorganização na AFA. E foi no jogo contra o Brasil, em Belo Horizonte, que eclodiu uma nova crise interna. Funcionários da segurança foram até Messi pedir que ajudasse com o pagamento de salários, atrasados há meses. A confirmação é de que o jogador pagou do próprio bolso o devido pela entidade. “De no creer”, diriam os argentinos. Mais assustador ainda é saber que vieram ao Brasil com a companhia aérea LaMia, a mesma do fatídico vôo da Chapecoense.

Bauza balançava no cargo quando comecei a escrever o texto. Obviamente, como se previa, El Patón pagou o pato. Simeone e Sampaoli ainda são os nomes sonhados pelos dirigentes e torcedores (sempre os mesmos desde a saída de Martino) A crença é de que são os únicos capazes de resgatar o futebol e classificar na eliminatória. Situação semelhante viva o Brasil antes do início da era Tite, a mudança funcionou e a seleção canarinho está virtualmente classificada. A diferença é que a Argentina corre contra o tempo.

Jorge Sampaoli é o mais cotado para assumir o cargo. Espera-se um acerto assim que encerrar sua participação no campeonato espanhol pelo Sevilla. A negociação, porém, não parece fácil. Sampaoli tem contrato com o clube até 2018, que poderia exigir multa para liberá-lo. Além disso, deve-se discutir o tempo de contrato. A princípio, não parece disposto a aceitar o convite para uma “aventura” de risco, e poderia ser contrário a um projeto de curto prazo mirando apenas a Rússia. Ya lo veremos.

Jorge Sampaoli: Provável próximo treinador da Argentina.

A apenas quatro rodadas do fim da fase classificatória, a Argentina encontra-se na zona de repescagem. Para agravar a situação, Messi havia sido punido por ofensas a um membro da arbitragem após vitória contra o Chile. Situação que foi contornada junto à Comissão de Apelação da FIFA, aceitando o recurso da AFA e tirando a suspensão de quatro jogos imposta ao camisa 10. Mais polêmica.

No Uruguai, próximo rival da Argentina nas eliminatórias, ecoou na imprensa: “Rússia sem Messi não é a mesma” e “Sanções para todos, menos para Messi. Quando a justiça não é igual para todos, deixa de ser justiça”. O clássico do Rio da Prata, marcado para agosto, já começou caliente.

O risco AFA é iminente. Haverá tempo hábil para arrumar a casa, classificar e chegar a Rússia com força? Sendo o futebol um esporte desprovido de lógica, mesmo motivo que o torna tão apaixonante, é impossível cravar o que acontecerá. Fato é que para além do campo, a própria AFA colocou sua seleção em uma situação de risco. O risco AFA.