Sem Firulas entrevista: a Kombi Coral

Esequias Pierre é antes de mais nada um torcedor do Santa Cruz. Apaixonado pelo time, ele se dedica em diversas frentes para promover a agremiação que ama. Embora não seja funcionário do clube pode-se dizer que ele efetivamente trabalha para o Santinha: desde iniciativas oficiais como a Sala Memória até movimentos anárquicos e espontâneos como a troça carnavalesca Minha Cobra — passando pelo Movimento Popular Coral — contam com seu empenho.

Para a sorte do Sem Firulas, Esequias é amigo e colaborador de nossa página, de modo que recorremos a ele para entender que história é essa de uma Kombi ir de Recife até Medellín ver o Santinha em sua estréia internacional.


Sem Firulas: Nos últimos dias a Kombi Coral esteve muito presente na mídia. Desde quando essa Kombi existe e pra onde ela já foi?

Esequias Pierre: A Kombi Coral já existe há uns bons anos e sempre foi muito conhecida pela torcida coral. Talvez ela tenha estado mais presente na vida do clube e de uma boa parcela dos torcedores de 2005 pra cá, por conta da relação que se criou com a Saudosa Sanfona Coral e com o BlogdoSantinha, mas sua existência é anterior a esse período.

SF: Como a torcida do Santinha vem reagindo a essa história da Kombi? Qual o papel dela nesse momento importante do clube, que joga pela primeira vez um torneio oficial internacional?

EP: Foi um misto de surpresa e confirmação da doidice do torcedor coral. A torcida reagiu super bem à iniciativa e embarcou junto para Medellín, a Kombi e quem esteve nela representou naquele momento todo o desejo do torcedor de estar com seu clube onde quer que ele estivesse, independente da circunstância e do custo físico e emocional disso. Ela acabou, depois da grande repercussão, fazendo parte da promoção do jogo, já que apesar do ineditismo do clube em jogos oficiais internacionais o clube vivia e ainda vive um momento de bastante instabilidade na primeira divisão. A Kombi Coral ajudou a reverter um pouco esse quadro, levantou o moral da torcida e diria que até de alguns colaboradores do clube também, com sua irreverência e com o mito que se criou em torno da Komboza Coral.

SF: Se o Santinha já teve torcedor andando 200kms de bicicleta pra ver um jogo por que tem gente que duvida que uma Kombi pode ir até a Colômbia acompanhar o time?

EP: Essa é a grande questão: a loucura e amor incondicional do torcedor do Santinha pelo clube é tão grande, louco e incendiário que em geral não se duvida. Quem duvidou em geral é o adversário ou mesmo parte da parcial imprensa de Pernambuco. Aliás foram eles que nos procuraram em busca da confirmação da história, depois que repercutiram em geral sem checar. A repercussão foi tanta que teve veículo grande e blog repercutindo e posteriormente desmentido, teve citação em rádio FM no estado e em programas nacionais de TV aberta e fechada. Isso certamente deixou muitos descrentes acreditando e muita gente contrariada também rsrs. Nós tivemos torcedor andando mais de 200 kms, torcedor indo de bicicleta de Garanhuns a Salvador, indo de moto cinquentinha de Recife a Fortaleza, Campina Grande e por aí vai. Tu acha mesmo que devemos duvidar de uns caras que querem ir de Kombi daqui pra Colômbia? Eu não duvido de nada rsrs. Onde quer que o Santa Cruz esteja, a torcida sempre esteve ao lado, essa é uma verdade inconteste e não falo de quantidade. A presença se dá de várias maneiras e nisso a torcida coral é bem experimentada.

SF: Para o torcedor tricolor parece pouco importar se a Kombi viajou de fato ou não, o que importa é festejar. E para os jornalistas, o que importa é vender ou eles estão checando os fatos antes de publicá-los?

EP: Exatamente! Pouco importou ou importa se foram ou não, qual o custo, risco ou trajeto feito: fundamental mesmo foi, independente de qualquer coisa, brincar, festejar e zoar consigo mesmo e com os outros. Futebol é, antes de mais nada, tudo isso junto: alegria, festa e interação. Foi exatamente isso que a Kombi e a torcida juntas fizeram entre si e com o Brasil também. Costumo dizer que quem ama o futebol e nossos clubes somos nós, por isso destaco sempre que o torcedor é o ator mais importante de toda estrutura do futebol e tudo que o envolve. Cada vez mais jovens não tem saudade de um passado no qual o futebol era verdadeiramente popular e de festa, mas penso que nós da torcida do Santa Cruz ainda preservamos um pouco disso, apesar de todo esforço de quem organiza o futebol em acabar com esse lado. Penso que o jornalismo especialmente feito pelas grandes mídias e portais vive uma grave crise de identidade e de credibilidade. Não sou profissional da área mas vejo alguns grandes veículos fazendo tudo, menos jornalismo sério e comprometido. Hoje me parece ser mais importante noticiar antes, e com essa velocidade vem a falta de cuidado. Para vender, para obter likes e também cravar a notícia como sendo o primeiro a veicular. Esse caso da Kombi foi apenas um dos vários casos que ví aqui em Pernambuco e até no Brasil. Lembro de um caso famoso de um jogador que foi anunciado no Rio Grande do Sul por um celebrado jornalista e que sequer existir o cara existia, foi noticiado e replicado. A diferença é que a Kombi existiu e existe rsrsr

SF: Além da Kombi, existem diversos outros causos e personagens que fazem parte do folclore do Mais Querido. Conte nos sobre um ou dois deles.

EP: La Kombita é uma entidade do folclore do futebol de Pernambuco e do imaginário do torcedor do Santa Cruz, mas não é uma ação isolada ou mesmo uma novidade. A torcida do clube tem uma tradição de torcedores folclóricos: costumo dizer que a torcida do Santinha é puro carnaval dada a alegria e irreverência que está dentro dela e em tudo que está ao redor do clube. Como a Kombi podemos citar o BlogDoSantinha com seus textos apaixonados e parciais, que já existe há mais de 10 anos, e a Sanfona Coral que surgiu nos idos de 2005 — ano que subimos para a primeira divisão e vencemos o estadual. A Sanfona era um conjunto de forró que animava as arquibancadas do Arruda e fora de casa também, com letras sempre cheias de duplo sentido e alegria, regadas a futebol e muita cerveja. A Sanfona chegou a viajar para São Paulo na reta final da série B daquele ano e tocou entre outros locais no metrô, no trajeto para o estádio e na arquibancada do Canindé. Falei da Troça que a torcida do Santa Cruz tem no Carnaval já há 11 anos também: é a maneira como nos expressamos nessa popular festa brasileira, todos os anos fazemos nosso arrastão (cobra não desfila, cobra se arrasta). Os torcedores símbolos são bem famosos também, mas deles certamente o leitor pode lembrar com bem mais facilidade: Bacalhau de Garanhuns, Cobrinha, Super Santa, Jesus Tricolor, Guerreiro Coral dentre outros vários.

SF: A Kombi deveria entrar no Arruda junto com o ônibus do time no jogo de volta contra o Independiente de Meddlín. Como se dá essa relação entre diretoria e torcida? As manifestações espontâneas que surgem na torcida costumam ganhar respaldo oficial aí no Recife?

EP: O plano era exatamente esse, o que exigiu uma articulação da Kombi Coral com o clube e sua segurança e dessa com a Polícia Militar e os batedores que fazem a escolta da concentração até o estádio. Mas a Polícia Militar de Pernambuco nunca “decepciona”: no dia estava tudo certo e ajustado por nós e até pelo clube, mas na hora do encontro da Kombi com o Expresso Coral um batedor criou caso e conseguiu estragar a festa. Embora tenha sido colocado a autorização e o clube tenha confirmado, a Kombi foi impedida de sequer chegar ao Arruda: o procedimento foi de extrema truculência da polícia e até houve até agressão a nosso motorista. Pra vocês terem ideia, a confusão de parte dos que estavam na Kombi só acabou na madrugada em uma delegacia do Recife. Não tivemos a chegada dos dois juntos e da torcida que estava numa rua lateral esperando para recepcionar e fazer a festa de sempre, com fogos, bandeiras, piscas piscas, sinalizadores etc. Nos últimos tempos temos tido mais acesso ao clube e em muitos momentos respaldo para incrementar algumas ações que surgem na torcida como o Orquestrão Coral por exemplo, que é uma iniciativa de músicos de frevo, samba, rock e outros ritmos e gêneros no sentido de ir para a arquibancada e tocar voluntariamente músicas de apoio ao clube, versões famosas de músicas pernambucanas e efetivamente apoiar o tempo todo com muita festa, como tem que ser. Em geral quando o clube é procurado ele tenta ajudar sim, especialmente com o que é fundamental que é interceder frente aos órgãos de segurança para liberação de instrumentos. O restante como a pirotecnia, bandeiras com mastro e até torcidas segue proibido.

SF: Nas redes sociais há diversas fotos da viagem da Kombi, até de torcedores que não saíram de casa. Qual sua preferida? Você também tem uma foto sua na viagem?

EP: Existem fotos que ficaram bem famosas e rodaram as redes sociais. Talvez a mais “famosa” tenha sido a primeira mesmo, aquela que tem o pessoal saindo do Poço da Panela em direção a Medellín. É bom frisar que embora a Kombi exista e tudo que falamos, a iniciativa de postar e mandar nas redes sociais foi da própria torcida: nem eu nem quem está diretamente ligado à Kombi fez isso. Foi mais uma resenha espontânea da torcida, a página mesmo só foi feita no decorrer da viagem a pedidos de várias pessoas para concentrar as informações. Muita gente que sequer estava na Kombi ou mesmo conhecia começaram a postar e replicar, o que deu um volume enorme à ação. Na saída tem outras fotos em que eu estava, posteriormente tem outras que tirei, mas em geral as fotos feitas dão destaque à Kombi, à estrada e às atividades rotineiras dos viajantes. A que mais gostei certamente foi a primeira, da saída.