Como usar o Design para impacto social?

postado originalmente na minha newsletter

Como em qualquer outra profissão, a vida de um designer é (ou deveria ser) solucionar problemas. Muitos (a grande maioria) estão resolvendo problemas mercadológicos. No entanto, cresce a cada dia o número de pessoas que estão encontrando no design as ferramentas e as habilidades necessárias para resolver problemas da humanidade. É o design sendo usado em projetos de impacto social.

Mas o que são projetos de impacto social?

Antes de falarmos sobre a aplicação do design em si, é bom relembrarmos o que projetos de impacto social são projetos onde os resultados não são medidos pelo lucro ou pelo potencial de mercado mas pelas mudanças de comportamento que podem beneficiar desde indivíduos a comunidades inteiras.

Ok, mas o que muda ao usar o design para impacto social?

Apesar da forma de pensar, metodologias e ferramentas serem praticamente as mesmas, existem pelo menos quatro pontos que fazem com que a abordagem do design, quando usado em projetos de impacto social, seja diferente da abordagem mercadológica que estamos acostumados.

1 — Projete para todos

Focar ou priorizar grupos de usuários específicos pode ser improdutivo.

Em um contexto comercial, focar seu produto a um certo nicho pode ser a chave do sucesso. A mala de viagem com rodinhas é um exemplo clássico de algo que foi projetado para atender as necessidades de um pequeno grupo de pessoas: os assistentes de vôo. É claro que após um tempo muitas pessoas perceberam que tinham os mesmos problemas e o produto se tornou um sucesso de vendas, mas quando ele foi projetado se tinha como clientes potenciais um público extremamente segmentado.

Quando nós estamos projetando com o intuito de gerar algum tipo de resultado social, nós não temos o luxo de restringir nossos projetos a um nicho de pessoas. Um serviço público, por exemplo, existe para atender todos os cidadãos, assim, ao focar sua solução apenas para parte desses cidadãos, podemos interferir no real objetivo do projeto e acabar criando vantagens para aqueles que menos precisam do que estamos criando.

2 — Se coloque no lugar do outro

Desenvolver empatia requer humildade e sensibilidade.

Historicamente, projetos de impacto social têm sido conhecidos por darem pouca atenção ao que as pessoas realmente desejam, o que as motivam e quais desafios elas enfrentam. É aí que entra o design!! Metodologias como o Human-Centered Design (Design Centrado no Ser Humano), por exemplo, são fundamentais para entender as pessoas envolvidas no projeto.

Se você está buscando criar algo disruptivo, certifique-se de incluir no processo as pessoas que terão que conviver com essa disrupção no dia a dia.

Lembre-se, o foco de um designer é ajudar pessoas se ajudarem, não criar coisas para elas. Trabalhar com design para impacto social é uma oportunidade de trabalhar COM as pessoas e não PARA as pessoas.

É muito importante também que designers saibam a diferença e os limites entre se colocar no lugar de alguém e sentir pena por ele. Mesmo que pareça uma diferença óbvia, muitas vezes a tentação de querermos ser a solução para o problema é grande. Designers não são heróis. Não vamos salvar o mundo com as nossas próprias forças. Sempre enfatize com sua equipe a necessidade de criar soluções que tragam independência e autonomia para a comunidade. Somos como médicos, ajudando a diagnosticar e encontrar a solução pra uma doença, nós não somos o remédio.

3 — Foque na mudança de comportamento

Obter resultados sociais involve motivações psicológicas muito mais profundas do que para mudar hábitos de compra de uma pessoa.

Fazer com que alguém consuma um produto ou serviço, especialmente na sociedade consumista em que vivemos, geralmente não envolve motivações tão profundas. Um bom exemplo é olhar as propagandas por aí, a maioria delas funciona como "entretenimento", levando pessoas a um estado superficial e momentâneo de prazer e satisfação, suficientes para ativar o interesse de consumo.

Agora imagine que você esteja trabalhando para resolver o seguinte desafio: "Como podemos, através da tecnologia mobile, melhorar o acesso a saúde?". Mercadologicamente, talvez desenvolver e estimular as pessoas a baixarem um aplicativo pode ser considerado um case de sucesso. No entanto, lembre-se, não queremos promover o consumo, mas a mudança de comportamento. Muito antes de oferecer, nesse caso o aplicativo, precisamos identificar motivações, medos, anseios e desejos a fim de fazer com que o nosso produto seja apenas uma ferramenta para auxiliar essa mudança.

4 — A tolerância ao erro é baixa

Cometer erros ou focar em hipóteses erradas pode ser fatal.

Empresas como a Apple podem "cometer erros". Um recall de iPhone, por exemplo, pode até aborrecer alguns clientes mas a marca e o valor que a Apple tem são tão fortes que eles conseguem sair de uma situação dessas quase ilesos.

Agora, quando você pensa em projetos de impacto social, não existe tanta compreensão assim por parte das pessoas. Imagine uma falha no sistema de um programa como o Bolsa Família, ou um bug no aplicativo para fazer a declaração do imposto de renda. Percebeu o quanto isso iria causar nas redes sociais? Isso porque as pessoas tem uma tolerância menor quando estão lidando com projetos públicos e sociais. Uma tolerância muito menor do quando seu celular ou carro tem um problema.

É por isso que o design é tão importante como processo de experimentação e validação. A todo momento precisamos pegar nossas hipóteses e encontrar uma forma de descobrir se ela é verdadeira. Não temos muitas chances para erro. Gerar uma solução inadequada e/ou ineficaz pode comprometer toda confiança que as pessoas depositaram em você nas fases anteriores do projeto, que em muitos casos é difícil de se recuperar.


Espero que esse texto possa ter te ajudado a entender um pouco mais sobre como o design pode ser usado em projetos de impacto social.

Se você quiser compartilhar algum insight, eu adoraria discuti-lo nos comentários ou, se preferir, me manda uma mensagem lá no Twitter.

Este post foi inspirado e baseado no livro “Designing for Social Impact”.
Se você quiser se aprofundar um pouco mais, super recomendo a leitura ;)