Acessando sentimentos.

A luz se apaga, a música começa, o filme roda e você já não está mais presente no seu corpo.
Você agora é representado meramente por um fiozinho de consciência que pensa, reage e sente enquanto flutua, borbulha e vai respondendo à tudo aquilo que mexe com o mais íntimo do seu ser.
Muitas vezes, você precisa pedir para esse fiozinho descer só um pouco, afinal, ele estava se aproximando demais das nuvens de memórias e quando ia começar a se juntar a elas para fazer uma comparação ou problematizar algo do passado, você consegue puxá-lo de volta para que ele preste atenção naquela troca de olhares. Era uma lágrima brotando ali no olho do rapaz? Ou no seu?
Você, fiozinho, viaja com os personagens e se sente transformar, se torna mais otimista e até esperançoso com relação à vida. Se antes de entrar ali nada fazia sentido, depois que as luzes se apagam, até os planetas parecem se alinhar.
Até as luzes se acenderem.
Os olhos estranharem a claridade.
A realidade gritar e os passos apressados não deixarem sombra de dúvida: você está de volta à Terra. É normal se sentir até mais pesado nesse momento (talvez seja a transição fiozinho-corpo, talvez seja apenas o refrigerante).
E a Terra exige que você pegue o ônibus de volta pra casa (bom, não necessariamente a Terra, é mais especificamente a conta bancária quem dá a ordem).
No estica e puxa para conseguir se segurar em algum lugar que garanta a sua segurança já na próxima lombada, você tenta se lembrar das partes daquela experiência quase mediúnica que mais te emocionaram. Aquele sorriso, certamente…
Pisão.
Opa.
Tadinha, perdoa a velhinha, ela não tem como olhar pra baixo enquanto anda. Que bom que esse palavrão ecoou só na sua mente.
Onde estávamos?
Ah sim, naquela reflexão genial do diretor sobre meninos e homens. Ou melhor, aquele momento em que a frase dos porcos fez completo…
Espera, já tenho que descer?
Ai meu Deus, preciso chegar até a porta. Com licença, com licença, COM LICENÇA, PORRA.
Saí.
Que gente mais folgada fazendo figuração de hostess na porta do ônibus, eu hein.
Como era aquela metáfora mesmo? E qual foi aquela música que fez meu braço se arrepiar todinho? Foi na do começo ou aquela com a voz feminina do final?
Ah, droga. Já não sinto mais nada. Preciso ver o filme outra vez.

