Caderno de receitas.

Imagem: acervo pessoal da minha avó. Se fizerem a receita da irmã dela, favor me enviarem fotos para contar.

Minha avó, declaradamente a melhor cozinheira que eu conheço, hoje se desesperou.

O motivo era a sua busca, sem sucesso, por uma receita de bolo de fubá.

Ué, como é que uma pessoa que fazia bolos mirabolantes como os muitos que eu vi ganharem vida em sua cozinha precisava de receita para fazer algo tão simples quanto um bolo de fubá?

Me prontifiquei na busca e graças à minha altura, encontrei a folhinha em cima da geladeira. Dizer que ela estava amarelada seria uma bondade. A folha já ultrapassava os tons de marrom. Com as bordas já comidas pelo tempo, vi naquelas letrinhas tremidas e graciosamente dispostas pela página uma relíquia.

Perguntei quantos anos ela tinha e minha avó deu apenas um indício, dizendo que era da época em que minha mãe ainda era uma criança. Aquela folhinha ressecada e sem vergonha era mais velha do que eu.

Também descobri que ela pertencia à irmã da minha avó, alguém que não conheci. Talvez por isso, quando tentei estabelecer algum laço afetivo por meio daquelas letras arredondadas não obtive êxito. A sensação foi a mesma de olhar para uma antiguidade em um museu.

Já minha avó, fez o bolo sorridente seguindo as instruções da folhinha. Foi só então que entendi que ela poderia ter feito qualquer bolo de fubá de olhos fechados e com uma das mãos atada às costas, mas preferiu fazer aquele pois era uma forma dela se conectar à irmã.

Ao observar essa cena, me nasceram dois ímpetos:

1. O de roubar todos os cadernos de receita da minha mãe para ver se fazendo as receitas dela essa conexão mágica aparece (vou testar e volto pra contar).

2. O de começar o meu próprio caderno de receitas para impedir que essa tradição termine na minha geração.

As receitas do Cybercook e do Tasty me entregam praticidade, mas depois de hoje, não sei se gosto mais da ideia de me conectar com estranhos na Internet para uma tarefa tão prazerosa como o ato de cozinhar…

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