Diário de Escrita #009

Existe uma razão para você precisar escrever todos os dias se quiser concluir um livro (rapidamente).
A razão para escrever todos os dias é se manter conectado ao mundo (ficcional, no meu caso) que você está criando.
O mundo real, essa coisa repleta de boletos e notícias deprimentes na TV, tem a função de te sugar e roubar a sua atenção e capacidade de mergulhar de volta na ficção que você criou, impedindo que você encontre os amigos com os quais vinha dialogando até então (sei que essa frase soou estranha, mas não sou louca, juro).
Na sexta eu recebi uma notícia muito ruim do mundo real. Essa notícia tirou meu chão e me jogou para dentro de uma nuvem escura em que produzir qualquer coisa criativa parecia um absurdo. Consegui sair de dentro dela aos poucos, conforme o dia passava, com a ajuda do livro que estou lendo (O Conto da Aia). É uma distopia tão bem escrita que te convida a saborear cada frase. E assim eu fui, lendo cada uma delas bem devagar e devagar me reergui, de volta à vida.
No final de semana, escolhi me isolar. Fui fazer todo tipo de coisa aleatória para evitar pensar na notícia que tinha recebido na sexta e nas consequências com as quais precisaria lidar na segunda, na terça, na quarta… Pelo menos o final de semana seria meu e durante ele ninguém me faria infeliz.
Conclusão: não vi nem a cara do arquivo do livro por três dias.
Corta pra segunda-feira, dia em que magicamente, eu me torno 300% mais produtiva. Acordo cedo, planejo meu dia hora a hora e consigo seguir o planejamento sem cair em nenhum poço de procrastinação. É uma maravilha.
Claro que enfiei o trabalho no livro no meio dessa lista de tarefas. O que eu não contava é que esse abismo que me separou do meu mundo ficcional por três dias faria com que fosse muito, mas muito mais lento retomar de onde eu havia parado. Some a isso o fato de que eu havia encerrado uma das grandes partes e precisava agora começar a segunda, então o abismo era ainda maior.
Nesse mesmo dia, antes de começar a escrever, eu li alguns artigos do Medium e um deles me deu o conselho que eu gostaria de ter lido na sexta, antes de me deixar levar por esse hiato: você só precisa escrever meia hora por dia para conseguir terminar seu livro. Meia hora. Você consegue arrumar meia hora. Um período do dia é mais complicado, uma manhã, uma tarde. Essas coisas compreendem pelo menos quatro horas. Mas meia hora é o que você consegue se acordar um pouco mais cedo, se almoçar um pouco mais rápido, se for dormir um pouco mais tarde do que normalmente iria. E puxa, quanta coisa dá pra produzir nessa meia hora.
Fiz um teste de cronometrar só os sprints de escrita (pausando o cronômetro quando parava pra fazer alguma pesquisa) e concluí que, nessa lerdeza pós-abismo em que eu me encontrava, consegui produzir uma média de 1.000 palavras a cada meia hora. Então, em um dia bom, em que a história já está encaminhada na minha cabeça e eu só preciso desenvolvê-la, deve dar pra produzir muito mais. E tudo isso com apenas meia hora cronometradinha.
Por isso, obrigada, texto magicamente recomendado para mim pelo Medium. Daqui pra frente, faça chuva ou faça sol, esse livro terá a minha dedicação diariamente, nem que seja por apenas meia hora.
No fim, venci o abismo e me reconectei com o universo, voltando à normalidade da coisa. Escrevi por 2h30 e adicionei +4.900 palavras na conta, encerrando o capítulo 05 que faz parte de um arco de quatro capítulos antes de chegar ao capítulo em que eu FINALMENTE apresento a COISA sobre a qual é esse livro. Só de pensar em chegar lá já me empolgo toda.
Enquanto isso, os post-its na minha parede estão se acumulando descontroladamente. A última adição foram os tópicos que eu não posso esquecer de voltar para contar quando for fazer a primeira revisão. Detalhes simples como sobrenomes ou outras pequenas historinhas que não consigo mais contar porque já avancei demais mas que também não posso deixar de fora pois darão um charme extra ao livro.
Então, 'bora pra frente que amanhã tem mais meia hora pra colocar no papel.

