Minha Bipolaridade em Dois Atos

Sempre fui uma pessoa sem muito filtro. As pessoas me viam como uma pessoa sempre alegre e disposta, não importando o que aconteça. E eu acreditava nisso. Muito. Tanto que quando eu ficava triste sem motivo eu me sentia culpada até. Mas às vezes tinham motivos, como as críticas que eu não digeria bem vinda de colegas de classe. Cabelo? Alisei. Espinhas? Fiz tratamento. Mesmo assim não conseguia ser a querida da sala (e do crush), nem jogar bem handball. Na minha sala, se aproximava quem queria aprender algo ou arranjar uma cola (coisa que eu não fazia). 
Por isso, eu frequentava as salas de todas as outras turmas sempre que possível e eu era bem recebida e podia ser eu mesma sem que houvesse interesse do outro além da minha companhia.
Eu queria que os meus colegas de sala me vissem assim.
Aí começa a minha história.

Olhando agora, eu sempre tive períodos de felicidade inabalável e tristeza infinita, principalmente na minha adolescência.

A felicidade eu não questionava mas e a tristeza? Sempre tive uma vida ótima, pais ótimos, roupas legais, materiais para as minhas artes, notas acima da média... Porque essa tristeza que faz coisas como comer e sair de casa ficarem difíceis assim do nada?

Até que um dia eu surtei em plena sala de aula. Deve ter sido uma coisa forte porque não me lembro que quase nada. Lembro ter me afastado da escola e receber tratamento psicológico para tratar a depressão. Três meses depois – e da minha mãe suspender uns remédios – eu tinha voltado a ser a pessoa de antes e voltava para a escola.

Por algum tempo as pessoas tinham medo de "brincar" comigo e eu não sabia como lidar com isso. Depois vieram outras crises, numa delas eu picotei todo o meu cabelo para que minha mãe visse que eu precisava de outro cabelo. Dias depois eu estava ok, mas com um cabelo acidentalmente chanel e liso.

Quando eu finalmente terminei o ensino médio achava que isso ia parar. Consegui entrar para a faculdade! Seria licenciada em História, minha matéria favorita no colégio. E comecei a interagir mais e mais com pessoas online, encontrar pessoas mais parecidas comigos e não me sentir tão estranha.

Essa foi a época que comecei a ser fã de pessoas. Bom, eu ficava meio obsecada mas como não estava sozinha, td certo. Eu corri atrás dos shows que queria ir com unhas e dentes, mesmo sendo longe da minha casa. Era por ali que eu sentia a união que não consegui no ensino médio, e tive ótimas amigas. As fases tristes passaram, pensava eu. Mas a euforia... horas na internet, assunto único, irritabilidade com opiniões contrárias estavam ali. Por sorte, eu cansava às vezes e ia ouvir outras coisas. E o estudo não foi muito abalado por isso.

A tristeza voltou devagar. Acho que foi quando eu notei que não conseguiria ser professora. Pensei que era falta de vontade e não falei com ninguém sobre. Às aulas sobre educação e didáticas eram meio chatas. Os próprios professores dos meus estágios me desestimulavam. Como eu ia falar q ia fazer só bacharelado, uma área tão restrita de atuação? Já estava na hora de trabalhar, certo?Nessa incerteza de futuro, minha obsessão voltava e minha tristeza também. O esforço que eu fazia para não mostrar isso era o maior possível. Tanto que procurei uma psicóloga e chorava bastante.


Eu surtei no início do show da minha banda favorita, com centenas de pessoas e conhecidos em volta.
Dessa vez eu lembro de quase tudo: a expulsão, o ficar perdida na rua e ser achada pela minha mãe, a tentativa de que eu comesse alguma coisa com remédio, a injeção, os delírios, as janelas que eu tentava abrir e finalmente a minha internação.

Fiquei internada por 16 dias. Eu tentei fugir algumas vezes, consegui invadir uma sala com computador (e notar q tava td ok e podia ficar bem sem internet) e falava em inglês para alguém que não existia. Assim que eu comecei a aceitar o tratamento (demorou uns dias), eu ia voltando bem devagar. Tomava uns remédios, dividia o quarto com uma interna engraçada e falava com uma outra mais fechada. Até eu ir para a terapia ocupacional, finalmente! Lá eu me recobrava ainda mais rápido o que eu era pintando, fazendo crochê, jogos e até maquiagem em uma sexta-feira. Como sempre interagia com todos, não importando o problema que tivessem, mesmo que me assustassem um pouco. Lá eu tinha uma fome doida e ia ficando fisicamente mais saudável também. Frequentei um grupo de oração e falava com a psicóloga sempre que podia.

Segunda-feira passou a ser um dos meus melhores dias da semana, porque foi quando eu fui liberada. E eu jurando que ia ver a copa de 2014 no hospital.

Ainda bem medicada, o médico me disse que eu tinha bipolaridade. Só que eu nunca tinha ouvido falar daquilo e tive que fazer minhas pesquisas, me acostumar com os remédios (que só ficaram fixos em 2017 e mesmo assim tem chance de troca de um deles), continuar com a psicóloga, dizer tchau para a vida de balada que eu tanto queria e virar uma pessoa diurna.

Daí veio a coragem de ser o que eu queria: concluí a faculdade de história como bacharela, mudei de religião, fiz um curso de guia de turismo, tranquei mas pretendo voltar para a modelagem, hoje faço/costuro roupas e vou construindo minha loja online com tudo o que aprendi.

Seria mentira se eu disse q eu não tenho mais nada, mas as quedas viraram tropeços e agora confio mais na minha família e em quem quer me ajudar, sem deixar de ter minha opinião e meus sonhos.

E eu? Continuo alegre pra cacete!

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.