dor de cotovelo

Apaixonar-se não é bonito da forma que as pessoas falam. Eu me lembro do desamparo. Sentar sozinha na livraria, olhando para os corredores. Eles não eram tão longos no mês passado. Mês passado tinha sido tão longo. Passar por todos aqueles quadros do museu e só ver paredes. Sem calor. O que era uma respiração descompassada virou só um suspiro. Dói por dentro ver um rosto fora do ônibus, sorrindo. “Até mais”, e fui.

No meio da noite, com receio de te acordar, mas precisava contar. Contar que o mundo é meio torto, que as medusas questionam a mortalidade, que o tempo é nossa maior ilusão. Voz cansada, sono, madrugada no relógio. Risada para falar que talvez não exista uma forma de amar para sempre, porque se o tempo não existe, então o ‘para sempre’ também não. Eu precisava te contar. Só não podia passar mais uma noite pensando. Zero chamadas recebidas.

Abri nossa conversa pela décima vez hoje. Escrevo alguma coisa boba, aquela saudade disfarçada de história. Aquela lembrança de manhã seguinte, deslocada. Também aquelas coisas que eu nunca consegui falar, talvez para te poupar de um turbilhão de sentimentos e pensamentos. Quando me encontrar por aí, siga em linha reta. Algumas curvas só não valem. Sigo em curvas. Talvez algum dia eu não abra mais a sua conversa. Espero.

Letícia Porfírio·
1 min
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