Karma, Astrologia e Depressão

Usarei esta série como um diário, podendo variar entre primeira e terceira pessoas. Ou seja, em parte auto biográfica, em outra uma mescla de acasos que passam por entre os dedos e pelas ruas.

Espero que minhas mãos tirem essa bola tênis que está na minha garganta.

Hoje é o dia 1 de um diário de alguém que se conscientizou de que precisava de ajuda. Não que ela não a tenha ao ao seu alcance, em forma de amigos, família, terapia, quem quer que lhe seja querido e que a queira bem, mas de uma ajuda que é estritamente racional e puramente química, como todo o processo que ela está passando.

Esse alguém sou eu, e gosto de falar de mim na terceira pessoa de vez em quando. Quando estou na terapia, tenho a ideia de que estou numa plateia me assistindo num palco, falando e decifrando sonhos, chorando e tirando sarro de mim mesma, às vezes tudo isso no mesmo ato. Acho que transpor algumas coisas para a escrita demanda um pouco de interatividade pessoal, para que quem lê também consiga entrar na trama, talvez até se sentindo na primeira pessoa.

Dia 1

Para falar do primeiro dia, tenho que contar o que aconteceu antes do primeiro dia, que no final é o mesmo dia.

Bem, tenho certeza que ao longo desse diário de bordo haverá muito tópicos a serem abordados de forma mais profunda e detalhada. Mas pretendo começar pelo dia 1, que é o primeiro dia que estou sendo medicada, por conta de crises extremas de ansiedade, choro e depressão.

Sempre fui muito de boa quanto à remédios. Utilizo sim, mas em últimos casos.Uma dor de cabeça, prefiro tomar um chá, ou um café, ficar no escuro (quando possível claro, inclusive adoraria trabalhar de óculos escuros de vem em quando, haha) Quando criança, tomava vitaminas e homeopatia, e sempre respondi muito bem.

Tive minha primeira gripe aos 7, quase 8 anos de idade. Achava que estava com falta de ar e que isso era muito grave e contei para minha mãe desesperada, mas era só nariz entupido, hahaha, aí ela me ensinou a assoar o nariz, pois afinal de contas eu não fazia a mais puta ideia do que era um resfriado.

Enfim, o tempo passa, a gente amadurece e começam a surgir demandas. Algumas responsabilidades maneiras e outras penosas.

Eis que aos 30 anos, claramente com algumas dívidas pós retorno de Saturno, alguns gatilhos foram (re)acionados, a balança das responsabilidades desregulou e rapidamente me vi num beco que outrora já havia visitado, mas como o tempo passou ele agora estava bem diferente. É engraçado que, quando a gente toma consciência DE FATO do pé em que está a situação, o quanto o seu estado fisico e emocional já estão completamente ostensivos e atípicos, notamos (pelo menos o que eu senti) é que essa condição já estava estabelecida há muito mais tempo que havíamos notado.

Claro, começa sutil, afinal de contas temos deveres, temos nossos compromissos, temos whatsapp pra responder, temos que nos divertir, temos que pagar boleto, ver um pouco a timeline, se dedicar à casa, mandar email pro chefe … Essas e muitas outras coisas que a gente costuma colocar num patamar de grande importância no nosso cotidiano.

Mas, enquanto tudo isso acontece, você sente umas pontadinhas, uns pequenos incômodos que logo você consegue deixar de lado pois chegou uma mensagem, ah não, peraí, acho que chegou aquele email, ah deixa eu aproveitar e guardar essas coisas aqui…

Difícil elencar uma atitude mais humana que essa. É cultural, é uma defesa rápida e eficaz fugir de algumas sombras. Porque de fato temos uma habilidade imensa, desde muito cedo, de mascarar feridas, de engolir rancores e de evitar conflitos.

Mas meus caros, chega uma hora que o caldo da alma engrossa e você tem que se virar, pegar uma lanterna, um cilindro de oxigênio e aprender a nadar.

Você pode levar 5 anos pra lidar com algumas coisas, pode deixa-las ali enroladas no tapete de Yoga que você comprou e nunca usou, mas uma hora nem ela aguenta mais ficar tão longe de ti, porque afinal de contas ela te pertence! É sua por natureza, é sua nessa vida e muito possivelmente em outras vidas!

Bem, hoje é o dia 1 mas já faz uns bons meses que durmo e acordo com minhas sombras lado a lado, cada dia uma aproximação diferente.

Lutei e fiz carinho, como pude, com a melhor das intenções, tentando acreditar que estava fazendo o meu melhor.. Mas quando dei por mim, o que eu estava fazendo não era suficiente, e bem, uma pessoa que está extremante ansiosa quando se depara com a frustração de seus atos, paralisa, a pele endurece, a boca morde sem estar comendo, as mãos fecham ainda que dormindo… E esse tecido cheio de nós e tramas é o prato cheio para a depressão rapidamente se emaranhar. E a culpa, já tão intrínseca, sai pelos poros, em forma de suor e lágrima.

E o dia 1 começou no caminho pro trabalho, em que chorei no ônibus de não conseguir esconder o soluço. Chegou o meu ponto, paralisei. Voltei a sentar e percorri três pontos adiante, sem a menor chance de me movimentar. Me assustei. Respirei, e desci e andei as quatro quadras que havia deixado passar.

Vale ressaltar que estou vivendo um hiato da minha terapia. Sinto muita falta, mas essa lacuna tem me forçado a encarar coisas que hoje vejo que mascarava (sem intenção consciente) achando ser melindre e também às vezes mesclando esses sentimentos em enredos de outra natureza, como se fosse um mero detalhe de uma situação-problema que estava expondo na sessão.

Só que esses meros detalhes não eram tão rasos assim.

E eles chegaram com o pé no peito. Tipo onda do mar do Rio de Janeiro. Me deixaram sem voz (literalmente), me deixaram sem um fio de coerência verbal e sem raciocínio lógico. Completamente confusa, me percebi guiada pela dor e pela sombra e não tinha força nenhuma pra segurar nesse cavalo desgovernado.

Após chorar o dia todo, por sorte consegui um encaixe numa psiquiatra que me atendeu de forma humana e coerente, ou seja, dei uma sorte danada. E chegamos no assunto medicação.

Para mim, algo temido. Uma grande parte da minha árvore genealógica sofre/sofreu dessa condição depressiva, e todos sabem que é algo que acompanha gerações. Não significa que com certeza todos os descendentes passarão por esse processo, mas a probabilidade aumenta consideravelmente em casos anteriores na família. Cada corpo é um corpo, que isso fique claro aqui.

E, como disse, meu contato com medicamentos a priori era quase nulo e, há alguns anos atrás, quando desencadeou em mim a primeira crise de pânico, em seguida uma depressão que mais parecia rinoceronte nas minhas costas, eu acabei recorrendo à medicação, que me fez muito mal. Na época, fazia terapia, mas por circunstâncias bem peculiares, me vi sem esse apoio por um bom tempo.

Foi a mistura perfeita para conhecer pela primeira vez o beco. E lá, fiz algo parecido como um pacto aqui dentro, estabelecendo algumas diretrizes que levei por muito tempo dentro de mim, como verdades absolutas.

Elas duraram até hoje, o dia 1.

E hoje iniciei um tratamento com medicação específica.

Mas eu só tomei essa iniciativa pois busquei material, ouvi podcasts, conversei muito com pessoas próximas, ouvindo seus relatos e opiniões, muitas contra, muitas outras a favor de partir para a medicação. Achei importante colher todo esse material. Porque, de fato, no final, você tem que ouvir a si mesmo. O que os outros dizem são aqueles pedaços do quebra-cabeça que te auxiliam nas bordas, te dão o impulso pra chegar na parte difícil, que é o meio, que as peças são parecidas e diferentes ao mesmo tempo, e cabe somente à você ir tentando encaixar.

Saindo do consultório, fiz uma sessão de Reiki. Estamos nesse mundo para buscar, para dividir e para receber. E você pode escolher o que busca, o que divide e o que recebe. Não existe uma única possibilidade, uma única alternativa de tratamento. E a minha intenção é de reencontrar o equilíbrio. Com os remédios, com o Reiki, com cristais, com astrologia, com Miguel Arcanjo, com banho de lavanda, com o tarot, com o mar, com o sono, com os alimentos, com atividades…

Mas, com a consciência de que nada é pra já, vou ainda vacilar muitas vezes, o universo ainda vai me testar em muitas situações. Mas ao menos estou tentando. A inércia corrói, paralisa o que há tempos está se enrijecendo. É preciso sair desse ciclo. Mas cada um tem sua hora e seu estopim. Não estou aqui para doutrinar nem dizer que sua hora é agora.

Processos são processos, e cada um tem seu ritmo. O que posso dizer, por hora é: se abrace, se aceite. Pega na mão do monstro. Observa. Não precisa tomar nenhuma atitude drástica. Sinta. É um dia de cada vez.

E esse é meu dia 1.

Dia 2, Dia 3, Dia 4, Dia 5

Para mim, esses dias são a somatória de um longo e único dia, que só terminou há minutos atrás.

O início desse tratamento está sendo um pouco chocante para mim. Estou bem aérea, mas atenta. Nenhum dia foi fácil, todos bem atípicos. O dia 2 eu acordei letárgica, sem perspectiva nenhuma de executar funções básicas. Tomei banho, tomei café e ainda assim meus pensamentos estavam em modo avião. Não fui trabalhar. Me comprometi a trabalhar de casa, sem sucesso. Depois de algum tempo me rendi e dancei pelas horas no ritmo que meu corpo estava disposto a dançar.

Quando chegou o meio da tarde, senti fome e já me sentia um pouco mais alerta e disposta à sair na rua. Então me vesti e fui à padaria. E aconteceu algo curioso no caminho.

Mas antes, preciso fazer um mini flashback: Fiz minha primeira tatuagem quando tinha meus 23 anos acho, num sábado após uma sessão de terapia. No início da minha adolescência, tive uma empatia enorme por literatura russa, pela cultura desse lugar maluco, e pela vodka (KKK brincadeira). Enfim, li muitos autores e seus contos, e me identificava muito mesmo. Hoje já não tenho mais muito afinco à esse tipo de estilo, e vejo como um traço marcante na minha transição, nessa fase de adolescência, que já é um tanto quanto melancólica por natureza. Crime e castigo estava no meu altar literário. É um livro paulada, quem leu pode dizer. Não quero desencorajar quem não leu, pelo contrário. Mas esteja preparado.

Hoje vejo que estava buscando em ficções àquilo que não sabia nomear que acontecia dentro de mim.

Voltando à tatuagem, sai da sessão de terapia, comprei um dicionário russo-português e busquei a palavra força. Encontrei. Liguei no estúdio. Tinha horário no dia, marquei. Fiz. E depois disso, um mundo de coisas aconteceu na minha vida, que foram muito intensas e tristes. Eu precisava dessa força, precisei deixar marcado na pele pra me lembrar todo dia que eu ia conseguir.

Todo mundo tem muita curiosidade quando vê essa tatuagem, por estar em cirílico, por estar num lugar esquisito na perna, hahaha… Sempre me perguntam o significado. Uma vez, há um tempo atrás, minha irmã teve contato com uma russa e ao mostrar uma foto da minha tatuagem para ela, ela disse ter um significado além de força, mas de algo que de que se tem poder, ou que se apropria. Levo essa interpretação como o poder de ser dona de si e da minha força, que a priori sempre foi essa a mensagem que queria passar a mim mesma quando fiz.

E nesse dia 2, no caminho para a padaria, um cara que não sei de onde surgiu (eu ainda estava um pouco aérea, mas de fato acho que ele brotou do canteiro do prédio, haha) me abordou pedindo desculpas e me perguntando se eu falava russo. Disse “quem sabe um dia”, ri e ele disse que morou na Rússia por um ano e havia aprendido a ler e a falar. Pronunciou perfeitamente o que está escrito na minha perna e completou: poder, certo?

Afirmei com a cabeça e com um sorriso, e disse a ele que foi a única pessoa até então ter decifrado o significado. “Há a primeira vez para tudo” ele disse e continuou seu caminho virando a esquina e sumindo.

E fui pensando nesse poder. Que poder é esse? É o verbo ou o substantivo? Nem mesmo uma tatuagem é a mesma pra sempre.

Nada é permanente. Na nossa trajetória procuramos resistir à tantas coisas, a ter o controle de tantas outras, e acho que isso é uma grande parcela responsável daquilo que nos adoece. Viver a impermanência é para fortes e conscientes. Controle não é poder. O dia 2 me mostrou isso.

O dia 3 foi bem esquisito, ainda me senti um pouco fora de órbita, encontrei amigas queridas num bar mas não consegui ficar meia hora, logo voltei pra casa. Tive um certo mal estar físico, um incomodo sem nome, mas dormi. Falei com minha psiquiatra sobre a sensação aérea, ela diminuiu a dose.

No dia 4, pensei em muitas coisas mas não conseguia ter muito discernimento do que pensava, eram muitos pensamentos dissonantes. Talvez eu devesse te-los escrito. Um casal de amigos do coração vieram aqui em casa de noite, tudo correu bem, mas falar sobre o que me tem acontecido ainda me faz sentir confusa. Tive dificuldade para dormir.

O dia 5 está sendo hoje e está sendo horrível. Estava colada na cama, sem vontade alguma de interagir com o mundo. O lençol já estava com minha silhueta. Tomei um banho, fiz um ovo mexido. Voltei pra cama. Chorei. Saiu o Sol, fui pro quintal. Voltei pra cama.

Consegui falar com algumas pessoas. Notei uma fobia por celular, uma necessidade de distância de contato. Lidar com minha Lua em Libra na Casa 12 é uma doideira, ainda mais agora.

Não sei se abracei meus sentimentos como deveria, realmente não sei. Amanhã é segunda-feira.

Izabela Lyra·
9 min
·
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