Nômadas

Porque todos os pensamentos já foram pensados, nada há a perder.

Desejo de rigor intelectual é desejo de pureza. Se a impureza é o caminho, isso não exime de considerar o rigor. Os pensamentos não merecem um catálogo. Todos os pensamentos serão pensados novamente [Nietzsche, dizem], e cada pensamento vai quase sempre faltar no seu lugar, vai quase sempre deixar de abastecer a ação. Mesmo na raríssimas vezes em que isso não acontecer, que ganhos se pode ter? Na verdade os pensamentos nunca fazem falta [Confúcio]. Disso sim, vale a pena tomar nota.

Na matemática a teoria das categorias é uma questão de notação. Sem que se interponha o problema da notação, as categorias não são necessárias. Elas são uma notação para o genérico, que se justifica no âmbito de uma exploração radical do possível. Esse problema de assinalamento não é antigo, a matemática não se interessaria ordinariamente por esse tipo de coisa, potência de ciência que é. Os novos e sutis processos de formalização é que fazem a exigência. Mônadas nada leibnizianas invadem a pax programática da escrita dos programas. A face contra-revolucionária dos algoritmos se revela. Sobre essa irrupção mórbida do possível, também é o caso de anotar alguma coisa.

Anti-mônadas

Entre as corporeidades vivas que se encontram há, na medida da sua capacidade de implicar-se — e os dispositivos que operam a distância são diferentes nessa capacidade, hormonais, neuronais e significantes, por exemplo — a constituição de unidades somato-perceptivas mais ou menos efêmeras. Essas unidades somato-perceptivas heterogêneas são as unidades próprias do vivo, funcionalmente (ou processualmente) falando. Aquilo a que se atribui uma identidade imaginária permanente — e transcendente — dos corpos, aquilo que se toma como manifesto, já é efeito de articulações do plano da significação, e não tem, portanto, substância. O Animal não comete esse equívoco. O Animal — que aí inclui todo o espectro do vivo, que na medida em que faz tecido dinâmico, coletivo, se anima — está no mundo como a água na água [Bataille]. As unidades somato-perceptivas são, elas mesmas incorpóreas. As chamaríamos anti-mônadas.

É o caso de ir além disso, entretanto. Um exemplo: vai alguém andando pela calçada, e um gato de rua está logo adiante, num lugar por onde deve passar se continuar em linha reta. O gato lhe aparece como concepção, é assim que o pode entender. A consciência faz uma imagem estratégica do encontro, enquanto outros pensamentos a trespassam. Decide adotar a conduta menos ameaçadora (desviar o olhar; caminhar sem hesitação, mas suavemente; não produzir ruído inquietante). O mais importante, no entanto, é que o gato poderia, apesar da diferença de tamanho, atacar-lhe, e sair relativamente incólume. Poderia, mas não o fará. Isso dará a entender que o gato não pode realmente aquilo que se possa entender que ele pode, e que o poder do gato não está realmente nele, quer dizer, não se situa psiquicamente nele. O poder do gato já está em relação, ele já pertence ao comum. O poder real do gato já implica a animalidade que também implica ao passante, e também a animalidade da própria cena, e da terra. O gato nem mesmo é água na água, o gato e o humano, no campo da ação, já não são gato e humano. O Animal precede a eventual discrepância entre essas duas instâncias, cuja realidade depende da fala, no âmbito da qual o gato, aí sim, ainda se constitui por si, mesmo que não fale.

As anti-mônadas não se relacionam, elas coexistem. A única resultante possível da sua coexistência, a única possibilidade de contato se situa para aquém de qualquer mediação possível. A única conexão que o passante — em seu processo narcísico — tem com a sua animalidade, por ocasião do contato com o gato, também passante, vem de um real para o qual não há correspondência possível no sistema de signos no qual ele e o gato não são estão amalgamados. Como essas intrusões podem ser ressignificadas é uma questão a ser tratada. Seria o caso, talvez, de pensar que as anti-mônadas têm uma espécie de membrana, ou uma interface (Schnittstelle? Kontaktschranke? [Freud, Projeto de 1895]). Mas isso não implica que seja possível uma composição dessas anti-mônadas. Não há metalinguagem [Lacan]. E na linguagem também estamos amalgamados em anti-mônadas, também já não somos indivíduos (a não ser em um só-depois, tarde demais). O que acontece com os significantes, o que têm de tão especial? Não muito: todos os sistemas de signos se fazem de anti-mônadas. Cada teoria semântica que hospedar o humano coincidirá com o seu substrato mítico, e com o seu corpo coletivo-comum: anti-mônada. Cada conjunto de conexões a distância que produz relações de recorrência — ciclos — cujo funcionamento se repete no tempo, corresponde uma composição somato-perceptiva. Que essas repetições façam imagem para outras repetições de “maior ordem”, não as confina a estas, não as pode subordinar. O que há de particular nos sistemas de signos que são imagens deve também poder ser situado por inteiro no âmbito de uma articulação com o real. Esse seria um modelo para o que se chama identificação, e para a constatação de que as identidades são epifenômenos: faz-lhes falta sempre uma tecnologia para se sustentem.

O amor não seria surpreendente, se se tomasse a identidade pelo seu mísero valor de face. É natural que todo tipo de amálgama corpóreo aconteça, e que siga acontecendo, amorosos inclusive. Imaginar que os amores se sustentem como resultado de uma engenharia das identidades só pode ser um drama. Talvez a questão central daquilo que se chama feminismo: sair desse drama, recuperar a capacidade de amar, mas agora, aqui, com os materiais que se tem, não um dia. As identificações se dão ainda, poderíamos pensar em uma “mecânica vetorial” das identificações. Isso se imbrica com o caminhar das anti-mônadas animais, inclusive. O que se pode fazer disso são ritornelos de não-identidade, ao modo das práticas meditativas, por exemplo, ou ao modo das formas nomádicas, que não se repetem, ou ainda ao modo “retificador de nomes” da ordem sem palavra chinesa, por exemplo. Exemplos do que se pode fazer da subjetividade sem mito de autorreferência.

Anti-pirâmides

O real se expressa, no quadro da subjetividade, na sequência do nascer e morrer. Esse é o modelo da cadeia significante, a linhagem. A sucessão da morte e nascimento do que é ideia (figura, imagem). Do modo como as coisas se reencarnam: por aí é que algo de real pode animar a língua. Por outra: a morte humana, e o nascimento, são exatamente aquilo que não pode ser natural. O que se faz para além disso é decalque, ou desdobramento. A morte e o nascimento podem ser sublimados, mas sem eles, como seria possível falar? Como seria possível começar a falar, senão em nome de quem já se foi, ou (ainda) não fala? O corpo vivo não se basta, essa é a sua essência. O corpo humano não se basta em nenhum momento, e de forma superlativa. Eis o que determina o desejo. Esse não se bastar é algo cuja resolução cessaria a vida do corpo. Existe a interpretação de que o desejo é a vontade de gozar, interpretação essa que se possibilita pelo uso técnico de um termo de uso comum, e que é nesse uso já sobrecarregado. O desejo, estritamente falando, é o que torna o encontro algo que precede logicamente qualquer possível identidade. E, portanto, à cessação da vida amada (e à sua irrupção) em algum lugar, como imagem, vai corresponder a uma irresolução em outro lugar. Nesse outro lugar, a fala do que morreu ainda necessariamente fala, e a fala daquele que vai nascer já se ouve. É por isso que toda fala, que realmente fala, é fazer de si boneco de ventríloquo. A morte não pode ser tão somente a morte do indivíduo, a morte individual não existe. Supor que a morte é individual é perder-se da morte. O espírito do corpo não existe, ele precisou ser inventado.

Territorializar-se é esquecer disso tudo, em maior ou menor medida, é exilar-se da animalidade, e enclausurar-se. As clausuras tradicionais da clareira, da aldeia ou da gleba rural são contenções imanentes. Estar enclausurado é fundir-se ao território. Já o confinamento clássico é abstrato e totalitário, monádico, na medida em que extingue o comum como “fora”, e introduz à existência o espaço neutro, público. As instituições, entre as quais a polícia é o modelo, se encarregam de garantir que o espaço público não seja passível de apropriação. A polícia não está ocupada em produzir, mas em esvaziar os lugares públicos, que passam a ser lugares de passagem, para que a produção ocorra somente nos confinamentos. Eis que permite fazer-se cercar dos arcobotantes da cultura, que acabaram indo na direção de uma tecnologia do eu. Há algo que persistia na vida tão só territorializada, deslocamentos genuínos das sequências do nascer e do morrer, que se produziam, ela ainda se nutria da riqueza das anti-mônadas. No trato do animal do qual se alimentará o homem, por exemplo, na sua rostidade. Na transmissão da terra, outro exemplo. Ela ainda era presidida pelo Céu, ou pelo Sol, enfim, essas coisas adquiriam patrocínio, todos os atos acabavam requerendo um intercessor, por que são símiles, não têm a potência da sequência original do nascer e do morrer.

O que restou de tudo isso? O trabalho, nos restou, talvez. Ou nem isso. De todo modo, o temos como vínculo fatal que ainda resta, a manifestação do necessário que sobrou. Como consegue o trabalho ocupar esse lugar? Não é por que por ele se dá de comer a si mesmo, mas por que ele dá de comer ao outro, ao que é elo da linhagem. Ou, por que o trabalho ainda é como pôr a mão na terra, tirar dela todas as coisas — em especial a carne humana, que a terra simboliza — e eventualmente devolvê-las à terra. Quer dizer, por que o trabalho ainda tem algo de nascer e morrer. Assim vinha sendo, ao menos. De que modo isso se quebra, recentemente, e se emenda? De início, se pôde atribuir ao trabalho um valor icônico. Trabalhar por trabalhar. Quanto do pensamento utópico não foi devotado aos modos pelos quais isso deveria funcionar… E eis que logo se deu a ideia de não ser mais assim, de nenhum modo. Há agora uma ideia de que o trabalho pertence ao campo dos movimentos, nem um pouco mais ao das ações. Por exemplo, pode-se pensar que o trabalho se justifica exclusivamente pela remuneração, ou talvez por alguma qualidade estética, tão somente imaginária. O trabalho se tornou perfunctório, vazio, ou então apenas uma espreita, uma espera. Isso porque ele descolou-se da manufatura, da gênese da mercadoria, hoje inteiramente a cargo das máquinas. Máquinas às quais tratamos como escravos, o que rebaixa os seus artesãos à posição de senhores, ou de competidores pela servidão. O trabalho residual se restringe à concepção das máquinas, às sua regência, e à sua manutenção. Ele não tem mais ligação nenhuma com qualquer ciclo de vida e morte, e também perdeu a possibilidade da auto-referência. A mais-valia recentemente passou a extrair-se do consumidor, como usuário, privado da possibilidade cidadã, acorrentado a dívidas de todos os tipos, dependente do investimento, do uso não destrutivo (não mais consumo, portanto) para permanecer em relação. O uso é a única comprovação possível da sua potência. A capacidade produtiva não produz evidências, não se dá a ver. Antiprodução é o nome do jogo. O trabalho volta a ser fusão de corpos. Não existe um mercado, ou uma oikonomia geral, para aquilo que se dá em qualidade e não em quantidade, àquilo que se denomina por semelhança, ou em gênero. Por aí é que se retornará a alguma imanência.

Então, impelido por que força se trabalha? Trabalha-se por emulação do princípio que presidia a transmissão da linhagem, o laço. Veja-se: que as pessoas venham umas das outras não está dado. Para que isso aconteça, é necessário que algo circule entre elas. Que a sua presença seja objeto de uma circulação. Foi preciso que a necessidade imediata (fome, proteção, cura) fosse inteiramente convertida em estratégias necessárias. Trabalha-se na medida em que o trabalho é feito de performances vinculadas a um conjunto de estratégias, estas sim circulantes, estas sim necessárias. Por elas se vive. O que aconteceu, mais recentemente, é que a expansão dos mercados produziu um regime de circulação centrada nos processos de produção, que se tornou, por isso, produção do mesmo, pelo mesmo. O capitalismo unificado não será ao final, entretanto, um regime de equivalências, um regime monetário. No centro do mundo, essa ideia de circulação totalitária já se perdeu. As estratégias econômicas racionais se descolaram dos corpos, e o que aparece no seu lugar é um fervor burocrático desnudo, descolado de qualquer visão de futuro. É o que sobrou da capacidade de representar a si mesma da sociedade disciplinar. É o que de visão ainda tem o mundo dos controles: a visão da ordem icônica, sem palavra (de ordem). Não é de uma tentativa de reterritorialização violenta que se trata. Não é uma recuperação da voz das massas que acontece, e sim uma expansão em rede dos espaços que se situam fora de qualquer lei civilizada. Com efeito, um trabalhador territorializado só pode trabalhar na construção das pirâmides do seu tempo. Uma exceção seriam os quadros sintomáticos capazes de produzir “por acidente”, aos quais situamos no que se denomina, um tanto fantasmagoricamente, “espectro do autismo”. Ali talvez estejam sendo colocadas as inteligências computacionais.

Depois de alguns séculos de industrialização do nascer e do viver, do morrer e do matar, as mortes vãs e as violações se reduziram muitíssimo, mas parece que são muito mais sentidas. Há toda uma economia dos anúncios de mortes vãs, e os assassinos vãos que restaram parecem atribuir-se a missão de alimentá-la, isso lhes dá uma pirâmide provisória (!) para construir. Nem mesmo um trabalho de Sísifo fazem, estes a quem se chama terroristas. O que falta às mortes de hoje? Mais assustador do que elas, propriamente, é a suspeita de que já não estavam vivas as vítimas, de que já não poderiam ser efetivamente mortas. Parece estar a cargo de um certo fascismo a pretensão de autorizar novamente o amor à morte, de soltá-lo novamente sobre o mundo, fazer com que algo de uma certa natureza retorne à vida. O começo do seu argumento diz que se exclusão de fato é um dado, porque não torná-la novamente de direito — em novas bases conceituais, evidentemente. Isso nos traria a paz, dizem: bem supremo. Mesmo que fosse esse o caso, como poderia ser bem sucedido o projeto? A morte do corpo não nomeado não sacia. O trabalho genérico não retornará. E o que se interpreta como avanço de uma visão hiperconcorrencial, radicalmente individualista, parece reclamar para si um mundo liso e sem privilégios, mas oculta o retorno de uma sociedade de afecções, numa retomada plena do regime de apreensão dos corpos pelo uso, pelas composições heterogêneas, e não pelas equivalências, pela capacidade fazer de circular o mesmo.

O que fazem as desidentidades contra-genéricas, nesse caso, é lutarem pelo modo como essa recodificação contra-significante se faria, como se fosse possível uma espécie de nova ordem genérica, para a qual talvez se tornasse necessária uma “Organização dos Gêneros Unidos”. A língua segue seu processo de formalização. É agora uma estranha e monstruosa luta por não ser obrigado a falar, a textar, a escrever, sobre si ou sobre qualquer coisa.

Haverá novas nações? Novas massas? Há hiper-maltas, mas não novas massas. Essas novas fronteiras são intraçáveis. Por outro caminho, seria possível uma “greve geral” do não-ser? De todo modo, acontece que a natureza está agora definitivamente excluída do papel de juiz das diferenças, por que o que está em jogo não é a possibilidade de agir do corpo (inteligência, força, virtude), mas a capacidade de ser objeto da ação, de ter seu corpo utilidade, uso. Imensa ironia do retorno aos regimes de servidão. É por isso que a defesa das pessoas com deficiência é hoje tão presciente e vigorosa. É por isso que a voz dos povos de ex-escravos e ex-colonizados se faz ouvir. E é por isso que a questão feminina é tão urgente, nela está contida mais inteiramente a questão da servidão, por ela se enuncia mais claramente uma visão existencial da civilização que havia antes da civilização. Ao mesmo tempo, é por isso que a experiência do conforto material se converteu em escândalo, como o gozo infinito de uma moeda sem lastro, e até a prevalência da paz se tornou uma indecência.

Não existe uma tecnologia do coletivo, que possa ser justaposta à tecnologia do indivíduo. Esta precisaria ser suprimida antes. O mito individual [Lacan] se encontra esgarçado: os super-heróis são o que restou da cultura de massas. Os poderes mágicos de um super-herói aparecem no lugar das relações, eles são uma imagem das relações como coisas mortais, coisas às quais é preciso sobreviver, a qualquer custo. É certo que as relações não existem, mas seria necessário esquecer do afã de produzí-las. Para isso concorrem, violentamente, as tecnologias que não são mais de informação, mas de afecção, e então controle. Qual é o efeito da justaposição de um “#” a uma palavra de ordem? É um sinal de conversão em número, de algebrização. Os novos memes são palavras de ordem? As criptomoedas são moedas? Se a sua graça é nada terem de risco, não podem ser. Se tiverem algo que por enquanto se oculta, poderão ser. Os gadgets também querem morrer… Querem tornar-se tecido. Desde o início foi assim.

Como se pode ser um homem, agora? Como se pode não depender da subjugação — secretamente consentida — de um negativo como garantia? Como se pode extrair da própria angústia de castração um valor positivo, senão por milagre? Como se pode ser amoroso na crueldade sem ser não-todo? Até que ponto a coragem masculina será tão somente contrafóbica? Teria ainda algum valor esse significante normativo, lugar de enganchar gozos heterogêneos? Será finalmente possível devir-(h)omem? À condição de que ninguém mais possa ser oficial emissor de garantias… quem sabe.

O alvo do humor costuma ser tudo aquilo que é símbolo de poder, e agora eles (e elas), se voltam diretamente para o superego, sem intermediação. Ri-se de tudo o que é forma de abnegação. Cada contra-gênero é o nome de uma dor, e dá nome a uma dor. A dor de existir é o veículo desse tipo de desidentificação, mas existe agora a dor de não existir. É em busca daqueles junto aos quais se pode fazer o canto da própria dor que se colocam os homens. Os homens Guayaki [Clastres, “O Arco e o Cesto”] cantam seu canto individual, mas cantam juntos. Os homens Guayaki não são emissores de garantias permanentes, eles não as produzem em excesso. As mulheres Guayaki cantam o seu canto em comum, mas não é um canto de dor comum. Talvez para as mulheres selvagens não seja ainda possível cantar a dor junto. As línguas têm o seu jeito de desenhar os mapas dos gêneros que nomeiam, de acordo com as dores a que dão voz. As dores que não têm voz estão por toda a parte, à espera de se fazerem comuns, portanto humanas. Isso por que o humano está entre a dor e o falar.

Eis a questão: mamíferos nascem desmontados. Essa é a graça da sua dentição especializada, da sua digestão em etapas, da sua capacidade de controle térmico, da sua pele sensível e sensibilizante, dos seus hábitos flexíveis, do seu olhar enigmático. Seu corpo não nasce pronto, precisa ser montado, ter suas partes conectadas, o que acontece durante o seu processo de maturação. Isso permite também a sua organização como agenciamento coletivo complexo, outro fator essencial da sua maleabilidade. Outros vertebrados normalmente necessitam de uma acoplamento preciso com o meio ambiente, e é assim que não os vemos (com raras exceções) proliferar no Antropoceno. Aos mamíferos não humanizados também não vemos com facilidade, mas muito porque os identificamos — corretamente — como ameaça.

Humanos nascem desmontados a ponto de falharem em passar por espécie, ou mesmo gênero. Sua montagem maquínica, lenta e laboriosa, produz e reproduz o que identificamos como cultura, um outro nome para humanidade. As culturas são multiplicidade, a humanidade é multiplicidade. Para além das culturas, parece ter emergido um modo de produzir humanos em série. Capitalismo se chama a esse regime dos corpos montados à semelhança uns dos outros, ou em poucas séries genéricas, de modo a funcionarem como tijolos, parafusos, vigas, e outras peças de medidas padronizadas, e/ou cujo processo de fabricação é padronizado. Eis o homem. E eis que os contra-gêneros devem cuidar da sua diferença, da sua montagem singular, dos seus acoplamentos, e mesmo das coisas que crescem na sua pele, espontaneamente, unhas, cabelos, cílios, e a pele em si. Teve antecessores esse modo de produção, é provável, não se pode criar isso de uma vez só. Ocorre que, na saída dele, é preciso aprender a respirar novamente. E a comer, a beber, a defecar, a transar, tudo isso de novo, e muitas coisas será preciso criar que não existem ainda, que o humano é sempre e muito feito de coisas que não existiam ainda. Mas sem a cultura/multiplicidade como ponto de partida, estamos como a floresta desmatada: quando nascerá no seu lugar algo que funcione?

André Souza Lemos
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35 min
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9 cards

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