A televisão em nossas vidas

Artigo de Elmo Francfort

Televisão: um meio de comunicação muitas vezes enigmático — não apenas no seu modo de ser, mas nos registros que é capaz de fazer e de guardar. Realizada em produção industrial, é contínua e com conteúdo cada vez maior. Ela guarda o dia a dia de cada um de nós, numa quantidade de registros muito maior que a produzida pelo cinema. Na radiodifusão, ela só perde em agilidade para o rádio, mas ganha no que diz respeito ao registro de imagens em movimento (na difusão de conteúdo, a internet corre em paralelo, mas busca a convergência). A televisão é, ainda hoje, um membro da família, presente nas casas brasileiras desde 1950, acompanhando nosso desenvolvimento por mais de seis décadas.

Foi pensando nessa importância, dentro do nosso convívio, que me interessei em pesquisar a história da TV, realizando um mergulho a partir de um o panorama geral em que a TV estava inserida quando nasceu (em preto e branco); quando passou a usar a tecnologia em cores e quando se tornou digital. O futebol, a moda, os costumes, a política, a infância e seus brinquedos, a economia, a tecnologia, os carros do ano, o rádio… Três momentos do Brasil totalmente diferentes, em 1950, 1972 e 2007.

A primeira fase, chamada também da TV em preto e branco, teve início oficial em 18 de setembro de 1950. Foi quando surgiu a PRF-3 TV Tupi-Difusora, canal 3 de São Paulo. Ela reinava sozinha e seu maior desafio era competir com o meio que a gerou: o rádio. O nome era “Tupi-Difusora”, porque foi criada por essas duas emissoras radiofônicas, ambas dos Diários Associados. A primeira concorrente direta só surgiu dois anos depois: a TV Paulista (atual TV Globo São Paulo), em 1952. Um ano depois, em 1953, foi a vez da TV Record. Foi um início marcado por muita criatividade dos profissionais que descobriam o novo meio, com uma vontade incrível.

Grandes clássicos da literatura mundial, por exemplo, foram transformados em teleteatros. Era uma TV para a classe “A”, também com orquestras e operetas. A popularização veio apenas em meados da década de 1950. Na TV daquele período, toda a programação era transmitida ao vivo. O videoteipe só passou a ser usado no início dos anos 1960. Satélite? Apenas em 1969. A TV em rede ainda era um sonho! A TV testemunhou grandes acontecimentos, como a chegada do homem à Lua, em 1969, com 100% dos televisores ligados.

Já a televisão em cores só viria depois de mais de dez anos de experiências, oficializada em 31 de março de 1972. O maior problema naquele tempo não eram as questões tecnológicas, mas as questões políticas e ideológicas. Sobre a tecnologia, demorou-se para definir qual padrão de TV em cores seria escolhido, optando-se por uma modificação do modelo alemão, o nosso “PAL-M”. Já nas questões políticas, tínhamos intervenções do regime militar, que comandava o país, e no campo ideológico, uma discussão enorme pela falta de qualidade no conteúdo da TV. Debateu-se muito e, felizmente, por conta do fascínio dos telespectadores pelas cores, o caminho escolhido foi o de um conteúdo com mais cuidados técnicos e artísticos. A TV Globo se sobressaía cada vez mais, disputando o espaço da TV Tupi (que faliu em 1980).
Os avanços tecnológicos possibilitaram a organização dos canais em rede. Surgiram novas emissoras (TVE, Manchete, SBT). E o satélite transmitiu imagens do outro lado do mundo para o Brasil, facilmente. A década de 1990 testemunhou o surgimento e o crescimento da TV paga e da internet e, assim, a disputa com a TV aberta cresceu muito. A qualidade questionável de alguns programas provocou reações do público e dos críticos e os órgãos governamentais pediram mudanças. Novos rumos surgiram para o sinal aberto com a TV digital, inaugurada em 2 de dezembro de 2007, com um padrão digital nipo-brasileiro: ISDB-T. Hoje já não falamos mais só de HDTV. Pensamos agora em “K” (a ultra-alta definição), ainda a um custo muito alto.

Hoje é certo o debate: se já evoluímos tanto tecnologicamente, será que não é hora de repensarmos o conteúdo de nossa TV? Precisamos pensar em algo constante, evitando o uso das novas tecnologias para garantir sobrevida à TV brasileira. Repensar o conteúdo: esse é o futuro.

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Elmo Francfort é produtor de TV, pesquisador de história das mídias e escritor. Integra a equipe da Associação Pró-TV / Museu da TV e é autor do livro Televisão em 3 Tempos (Coleção Pró-TV, Editora In House, 2014).

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