A vida contemporânea e as mudanças ambientais globais

Redação SescTV
Jan 27 · 6 min read

Nos curtas que compõe o filme Interdependence, 11 diretores retratam desde a seca que destrói plantações até a poluição que torna regiões inabitáveis, passando pela quantidade crescente de lixo produzido; os pesquisadores Maira Begalli e Leonardo Freire de Mello analisam os impactos do nosso modo de vida na saúde das pessoas e do planeta.

Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo.

John Donne (1572–1631)
Poeta inglês


Ao longo da história da humanidade, diferentes populações desenvolveram e aprimoraram técnicas para manipular recursos naturais e obter água, alimento e abrigo. Foi com o desenvolvimento de tecnologias específicas que conseguiram manejar ambientes que antes eram extremamente hostis e altamente competitivos. Antes do estabelecimento da agricultura, existia uma correlação entre baixas densidades demográficas e locais onde os recursos naturais eram escassos, e inúmeros indivíduos precisavam migrar sazonalmente para obtê-los e sobreviver. A criação e domesticação de animais, assim como o cultivo de vegetais, possibilitou uma mudança crucial na densidade e na distribuição desses recursos, que se diversificaram e foram agrupados em locais estratégicos de acordo com as necessidades de cada grupo.

Foi assim que populações humanas alteraram o modo de vida nômade e se estabeleceram em territórios específicos. Como consequência, seus grupos passaram a ter maior densidade populacional, e seus assentamentos se tornaram mais sofisticados do que os identificados antes nas sociedades de coletores-caçadores. A continuidade e intensificação das práticas agropecuárias possibilitou o aumento desses grupos e, posteriormente, o desenvolvimento dos centros urbanos. Depois da Revolução Industrial, esses assentamentos tornaram-se cada vez mais complexos, passando a depender continuamente de grande alocação de recursos e de alta quantidade de energia para sua manutenção.

O bater das asas de uma borboleta num extremo do globo terrestre, pode provocar uma tormenta no outro extremo no espaço de tempo de semanas.

Edward Lorenz (1917–2008)
Meteorologista, filósofo e matemático norte-americano


As cidades de hoje são ecossistemas extremamente complexos, que podem ser delimitados tanto por fronteiras espaciais como funcionais. Elas agregam elementos biológicos, geográficos e físicos, assim como relações entre indivíduos e instituições, além de trocas que possuem elos de equilíbrio sensíveis e interdependentes: indivíduos, poder público, investidores, pesquisadores, ativistas, geografia, biodiversidade, cultura, aspectos políticos e de infraestrutura, entre outros.

No mundo globalizado o funcionamento de uma cidade (seja Manhattan, Mumbai ou Mariana) possui conexão e interferência exponencial em outras localidades. As cidades de hoje, mesmo as consideradas como “descentralizadas” são ambientes interligados e altamente modificados. Grandes corporações instalam fábricas, descartam rejeitos e extraem recursos em territórios remotos — e com isso muitos indivíduos têm suas vidas impactadas.Essas ligações têm sido narradas tanto na ficção quando na realidade há décadas. O curta Ilha das Flores, de Jorge Furtado, relatou em 1989 os processos de consumo-descarte. Jamie Uys, em 1980, mostra esse efeito em Os Deuses devem estar Loucos, quando uma simples garrafa de Coca-Cola (descartada por um piloto de um avião) altera a vida de muitas pessoas de uma tribo.



Os habitantes de São Paulo, Dubai, Tóquio têm acesso a produtos do mundo inteiro que viajam centenas de milhares de milhas em mega navios, que carregam microrganismos de um continente para outro em seu lastro. Pessoas se deslocam rapidamente de um continente para outro, tornando praticamente impossível o controle de uma grande epidemia — como a atualmente alarmada do vírus Corona, que também é nome de uma marca de cerveja e está em todos os cantos. Produtos variados são feitos a partir de recursos extraídos em diferentes lugares, e confeccionados com mão-de-obra de que geralmente recebe pouco e tem pouca qualidade de vida. Surplus (2003) e a História das Coisas (2007) ficaram conhecidos nos anos 2000 por discutirem essas temáticas em um mundo globalizado e desigual. Os satélites das empresas de tecnologias conseguem dar zoom em qualquer rua, em qualquer pessoa, em qualquer vida. A série documental Don’t Fuck with Cats (2019), da Netflix, mostra como hoje ninguém mais pode se esconder, ao mesmo tempo de que os ideias de superexposição e fama estão alterando drasticamente a sanidade das pessoas.

Nenhum homem faminto e sóbrio pode ser convencido a gastar seu último dólar em outra coisa que não comida.

John Kenneth Galbraith (1908–2006)
Economista, filósofo e escritor norte-americano


fomos nômades, depois agricultores. Hoje, nós humanos do planeta Terra, somos majoritariamente urbanos. Nos locomovemos de todo modo (trem, carro, avião, navio), estamos conectados. Uma pequena parcela tem um alto poder de consumo e descarte, enquanto outra maioria sofre com falta de água e alimento.

Enquanto isso, negacionistas afirmam que derrubar “apenas mais uma árvore” não poderia causar influência direta no clima. Mas, em 2020, estamos falando sobre escala. Estamos falando de séculos de exploração e transformação de matérias-primas, estamos falando em milhões de habitantes consumindo muito, em superlotar os oceanos de plástico, em colocar carros em órbitas, em fabricar carne sintética. Se os caçadores-coletores não podiam mudar o clima e as bases geológicas da Terra, nós humanos modernos, mudamos.

Criamos o Antropoceno, a Era Geológica da Terra que começa depois das grandes bombas nucleares após a Segunda Guerra Mundial. A Era em que transformamos dinossauros fossilizados em colheres de plástico velozmente descartadas. A Era em que entendemos a Terra como um organismo complexo, com a capacidade limitada de renovação de recursos, mas ainda acreditamos no consumo como solução para o desenvolvimento.

Desenvolvimento pra quem?

De acordo com a NASA, 2016 e 2019 foram os ano com temperaturas mais altas, desde que os dados meteorológicos começaram a ser registrados. Mas não é apenas o “estar quente”, é o equilíbrio que todo esse novo cenário apresenta: declínio de espécies de fauna e flora, eventos climáticos extremos, escassez de água potável e alimento. É também o fluxo migratório de milhares de pessoas “consideradas ilegais” pois partem em busca de sobrevivência, é a live da sexta extinção em massa acontecendo diante dos olhos de todos, enquanto muitos consideram essas informações apenas alarmistas demais.

O futuro é um lugar sensível e complexo. Dizem que muitas civilizações colapsaram ao longo do tempo e, como espécie, sobrevivemos. Mas, agora a questão, como já dito, é a escala. Não poderemos recomeçar em outro país, continente ou até mesmo planeta. Estamos interligados, e as soluções talvez venham da análise, da interpretação e do entendimento daquilo que realmente é essencial à vida. No coletivo, plural.

Maira Begalli e Leonardo Freire de Mello são membros do Grupo de Pesquisa Paradoxo: Antropoceno e Felicidade da Universidade Federal do ABC.

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