“Não é um trabalho sobre os índios, mas com eles”

Entrevista com Cristina Flória, diretora de documentários com temática indígena

Formada em Ciências Sociais e atuando na área audiovisual, Cristina Flória dirigiu documentários com temática indígena como “A’uwê Uptabi: O Povo Verdadeiro”, “Piõ Höimanazé: A Mulher Xavante em sua Arte” e “Dasiwa’uburéze: Nossa Cultura”; Seu engajamento com a questão do índio começou no fim dos anos 1980, e o contato com a etnia xavante se estende por mais de 20 anos.

Em 2008, você dirigiu para o SescTV um documentário sobre as mulheres indígenas. Como foi essa experiência?
Meu relacionamento com o povo xavante começou com os homens da tribo, principalmente com os anciãos, pois são eles que falam português, tomam as decisões políticas e fazem a intermediação com as mulheres. No universo xavante, as mulheres e crianças têm uma relação mais distante do mundo exterior. E eu, como mulher, tinha muita curiosidade sobre o ambiente feminino indígena. Até começar a gravar, foi um longo processo, conheci as lideranças da aldeia, fui me aproximando e estabelecendo uma relação de confiança com elas. Então foram escolhidas 12 mulheres da tribo, de várias gerações, que já haviam passado por rituais de iniciação. Registramos o casamento de uma, o dia a dia de outra, as responsabilidades delas na comunidade, os desejos, as obrigações. Elas trabalham muito, são o núcleo familiar e têm um cuidado todo especial com as crianças.

O documentário Dasiwa’uburéze: Nossa Cultura tem alguma relação com esse primeiro filme?
Sim, esse trabalho faz parte de uma trilogia. O primeiro foi sobre as mulheres xavante, o segundo — feito em parceria com Wagner Pinto — aborda os rituais e o terceiro, ainda em fase de projeto, será sobre as crianças da tribo. O nome Dasiwa’uburéze remete a todos os rituais e à cultura da etnia. Os anciãos vão morrer e estão preocupados com as novas gerações, com a forma como elas vão sobreviver, revitalizar-se e ao mesmo tempo manter esses ritos, apesar de todas as interferências. Nesse sentido, o documentário audiovisual é uma ferramenta para a comunidade, pois não é um trabalho sobre os índios, mas com eles. A maioria das imagens dos dois filmes foi feita por cinegrafistas da tribo, com um olhar de dentro.

O foco de Dasiwa’uburéze são os rituais indígenas. Por que jogar luz nessa questão?
O universo dos anciãos xavante está intimamente vinculado com os rituais, que são o fundamento da tradição e da cultura indígenas, explicam a criação dos mitos, o surgimento do Sol, da Lua e a origem do povo. Os rituais também estão ligados ao meio ambiente, às estações do ano, às plantações e às épocas de chuva ou seca. E são relatados no documentário pelos próprios anciãos, pois eu não queria perder essa forma de contar, que fala de um tempo ancestral. Além disso, os desenhos que aparecem no filme foram feitos por um xavante.

Quais foram as principais dificuldades logísticas para produzir o documentário?
Fiz três viagens para gravar e em cada uma permaneci de 12 a 20 dias, no Mato Grosso. Ficamos hospedados em um antigo posto da Funai, uma casa de alvenaria onde também funciona uma escola e uma farmácia. Esse espaço pertence à aldeia Pimentel Barbosa, e da primeira vez que eu fui não havia energia elétrica, fizemos tudo com gerador. Agora tem luz, já tomamos banho quente, facilitou a vida da comunidade. Dormimos em barracas individuais, cozinhamos ali e usamos equipamentos próprios e alguns da tribo, que os índios utilizam porque estão mais acostumados. Registramos tudo em mini DV, com captação em full HD. Todo o processo de produção levou cerca de um ano e meio, e não dá para fazer em menos tempo, porque tudo está ligado ao meio ambiente e às estações.

Durante as gravações, houve algum conflito cultural?
Não, porque eles estavam conosco o tempo todo, participaram ativamente do processo, do começo ao fim; analisavam tudo, consentiam, davam feedback. Em relação à língua, havia interlocutores e tradutores da própria tribo, pessoas que saíram da aldeia para estudar em escolas de Ribeirão Preto (SP), aprenderam português, conheceram o mundo “warazu” — como nós, “estrangeiros”, somos chamados — e se tornaram peças-chave dentro da comunidade. É preciso levar em conta que o primeiro contato dos xavante com o homem branco ocorreu no fim da década de 1940, então é relativamente recente. Por isso, procuramos intervir o mínimo possível, pois a comunidade já vive em uma situação difícil. Faltam alimentos, a caça está cada vez mais rara e há muito desmatamento, plantações de soja e pastagens de gado em volta. A cidade mais próxima fica a 40 quilômetros da aldeia, e é lá onde eles fazem compras no supermercado, com a ajuda de benefícios sociais como aposentadoria rural e Bolsa Família. Além disso, cultivam frutos, arroz, feijão, melancia, mandioca, mamão e outros alimentos para subsistência. Nestes anos de contato, vi o Mato Grosso se acabar, andamos horas sem avistar uma única árvore, existem ilhas verdes de devastação. Acabaram com o cerrado, só o encontramos nas áreas indígenas, onde há um cuidado com a preservação da natureza. É por isso que essas terras são tão cobiçadas, porque concentram muitas riquezas. Outro problema é o enorme desconhecimento no Brasil sobre a questão indígena, pois se costuma pensar nessa população como uma cultura única, mas o país reúne mais de 200 povos e mais de 270 línguas diferentes.

Qual a sua opinião sobre o espaço dado à difusão das causas indígenas na televisão?
Acho que ainda é pequeno, teria que haver muito mais divulgação, não só dos índios xavante, mas dos guarani, dos ianomâmi. A TV é um veículo imediato e de grande alcance, e as pessoas têm muita curiosidade sobre os índios, mas ainda se baseiam em estereótipos, acham que, se eles usam roupa, carro, internet ou celular, deixam de ser indígenas. Só que a cultura é dinâmica, e o índio pode se atualizar e se reinventar sem perder sua identidade, suas raízes e a noção de onde veio e o que deseja. Não podemos querer que eles vivam em uma redoma, pois estão cercados pelo outro. Se você os mantém fechados, é aí que mata esse povo e sua cultura. Nós, warazu, precisamos vê-los com respeito, para haver uma troca, e não uma interferência violenta.

Como esses filmes podem ajudar na ampliação desse debate?
O documentário ajuda muito, porque leva elementos novos para outras comunidades indígenas também. O Piõ Höimanazé, por exemplo, foi exibido em escolas de outras aldeias, que não conheciam esses xavante, então houve uma troca muito interessante. Isso também incentivou mais comunidades a revitalizar sua cultura e a trabalhar com as novas gerações. Em relação ao Dasiwa’uburéze, os mais velhos de Pimentel Barbosa já viram o resultado, e os demais devem conferi-lo neste ano.