Se no dia 31 deste mês não estiver pronto, te entregamos no dia 32!

Bom, antes de começar a escrever de fato, quero deixar claro que não sou um fã incondicional (como os consumidores Apple) das boas práticas do PMBOK ou do framework SCRUM, realmente acredito que ambas tem muito valor, porém, dependendo do contexto uma funciona melhor que a outra. Também não sou gerente de projetos.

Trabalho com tecnologia da informação desde o ano 2000, já trabalhei em alguns projetos distintos, inicialmente de implantação de sistemas e depois com desenvolvimento de software em si.

Confesso que passei por uns projetos traumáticos. Projetos quase nenhum planejamento (na base do vamo que vamo!), outros já tinham algumas apresentações em Powerpoint e planilhas com tópicos sequenciais com as etapas do projeto ou gráficos de gantt em Excel (era um desafio atualizar este gráfico), depois alguns com MS Project. Bom, tudo isso é ferramenta, mas, o que esses projetos tinham em comum? Bom, vamos lá: Atrasos, atropelo de etapas, horas atualizando cronogramas, reuniões de tiro ao alvo (adivinha quem era o alvo?)…

Nessa época, vivenciei algumas situações inusitadas (até cômicas).

Numa reunião com o cliente, estavam, nós (3 desenvolvedores), o Gerente de Projetos e mais uns 5 stakeholders do cliente. O responsável pelo projeto no cliente no alto de sua imponência, cobrando prazos.. prazos e prazos.. Vira para o nosso gerente de projetos e pergunta: Até que data vocês entregam o projeto? O gerente extremamente pressionado responde: Se no dia 31 deste mês não estiver pronto, te entregamos no dia 32!”. Nós nos olhamos e não sabíamos se ríamos ou chorávamos. É cômico, mas, demonstra a pressão que o grande planejamento gera em cima do gerente de projetos, beira ao desumano. Além disso, a insanidade de estimativas de tempo em software, mas, isso é outro assunto.

Outro causo interessante foi em um projeto onde trabalhava eu e um consultor funcional, ele levantava as regras de negócio e eu implementava. O gerente de projeto nos via uma vez a cada 15 dias, somente no dia da reunião para passar o status report para o cliente. Como isso funcionava? uma hora antes da reunião com o cliente, ele nos chamava, ligava o notebook, abria o cronograma no MS Project com umas 300 atividades e nos perguntava o que estava pronto e atualizava na hora, os eventuais atrasos ou impedimentos explicávamos pra ele.

Na hora da reunião é claro o cliente fazia vários questionamentos pra ele e nós acabávamos ajudando ele a responder.

Neste caso específico, como eu e o consultor estávamos diariamente na frente do cliente, tomamos uma ação por conta própria para melhorar a satisfação do cliente e gerar mais transparência, passamos a fazer um simples relato diário do progresso do projeto, todo o final do dia enviava para ele uma lista das atividades e o status de cada uma. Essa atitude nos rendeu muitos elogios do cliente e ele sempre queria nós para tocar os projetos dele.

Um último relato, trabalhando em um outro cliente, ouvi um relato interessante sobre a opinião dele a respeito de gerenciamento de projetos. Ele me disse: “Uns anos atrás tínhamos um projeto aqui que era pra durar 6 meses, a primeira consultoria começou e não conseguiu terminar, veio a segunda, também, a terceira levou mais uns 4 meses e nada, os caras vinham aqui, passavam o dia preenchendo documentos e atualizando cronogramas… Pra resumir a história, mandamos embora e eu assumi o projeto, com um mês finalizamos internamente, pra mim esse negócio de PMBOK não funciona!”. Palavras do cliente.

Bom, quero deixar claro que este texto não é uma crítica velada ao PMBOK, são fatos que presenciei durante a minha carreira. Depois que me formei em sistemas de informação, virei um entusiasta de gerenciamento de projetos, fiz pós-graduação, estudei para o PMP, mas, pra falar bem a verdade, sempre achei tudo muito complexo e trabalhoso, pelo menos no contexto de software.

Nestes casos que citei, claro que a culpa dos problemas não é do PMBOK e também não detalhei os projetos e seus atrasos, mas, quero chamar atenção para muitos gerentes de projetos chegam nas empresas apresentando uma série de documentos, cronogramas, gráficos, etc. enquanto que a entrega de valor para o cliente fica em segundo plano.

Outra coisa que atestei é que a postura da maioria dos gerentes de projetos não geram engajamento no time, as pessoas trabalham como taxímetros, ou seja, consumo de homem-hora, virando noites para cumprir prazos insanos, além de as vezes ter que trabalhar com gerentes de projetos turistas. Isso é altamente desmotivador!

Realmente acredito que o PMBOK funciona, mas, para contextos de grandes projetos como construir uma represa ou um estádio para a copa, nestes casos certamente todas as boas práticas do PMBOK são muito aplicáveis.

Mas, para contextos de projetos que trabalham com conhecimento, como Software e Marketing, onde o risco, a incerteza e as mudanças de requisitos são grandes, o PMBOK não é a melhor opção.

Como essa publicação ficou um pouco grande, farei uma outra sobre meu ponto de vista em relação as Metodologias Ágeis, conceito que estou mais inserido atualmente.

Essa foi a primeira vez que escrevi, estou aberto a feedbacks.

Um grande abraço,

Marcelo Araujo.