A produção e o consumo da música: das majors às nuvens

Imagem: André Argemi
Texto: Wagner Rodrigues

Durante muito tempo as gravadoras multinacionais, conhecidas como majors, ditaram as regras do jogo, impondo ao mundo a música que todos deveriam ouvir. Assim, abriram caminho para o seu cast de artistas, através da prática do jabá — compra de espaços em diferentes mídias (rádio, TV…). Os lucros advindos da venda de discos eram exorbitantes e os músicos e compositores sofriam uma exploração brutal, recebendo valores irrisórios por cada álbum vendido.

Com o avanço da internet, o compartilhamento de arquivos, o advento dos home studios e as novas tecnologias o cenário começa a mudar, na virada do século XX para o XXI. As consequências disso foram uma redução significativa de artistas contratados pelas majors, crise da noção de álbum e o crescimento vertiginoso da música independente.

As grandes gravadoras tiveram que se adaptar ao novo modelo pós-industrial para não sucumbirem, fazendo parcerias com empresas de tecnologia, desenvolvendo plataformas para venda de músicas on-line, abrindo processos judiciais contra aqueles que ousavam disponibilizar obras de seus catálogos para download, etc.

Outro aspecto relevante da música atual é que cada vez mais se percebe uma desvalorização (em termos monetários) da música gravada e uma supervalorização da performance ao vivo (show). Nesse sentido, grande parte do acervo musical da maioria dos ouvintes é acessado ou obtido gratuitamente na internet. Em contrapartida, não se economiza na hora de comprar ingressos para um show. As grandes gravadoras, sabendo disso, passaram a inserir, nos contratos com os músicos, cláusulas que permitem que elas ganhem um percentual, nada modesto, sobre cada apresentação ao vivo. E percebe-se, ainda, uma atuação cada vez mais intensa das produtoras de shows, geralmente associadas a sistemas de venda de ingressos.

Em suma, é possível dizer que as majors, que monopolizavam o mercado, perderam uma parcela do seu poder, e muitas se diluíram ou se fundiram. No entanto, um grupo menor de grandes gravadoras continua em atividade (Warner, Universal e Sony), mais voltadas para a distribuição do que para a própria produção da música; gravadoras e selos independentes (indies) de pequeno e médio porte ganharam maior espaço; as empresas de tecnologia passaram a fazer parte do cenário (Apple, Google, Spotify Ltd., por exemplo); redes sociais diversas facilitaram a divulgação de bandas/músicos e possibilitaram um maior contato com seus fãs; o avanço tecnológico na área de áudio e o maior acesso à informação geraram uma guinada revolucionária, permitindo a autogestão e a produção musical caseira (os home studios, lembra?); e ainda, no âmbito do direito autoral o surgimento do Creative Commons, baseado no conceito de copyleft, tem colaborado para reduzir a burocracia em torno do uso de obras intelectuais e artísticas.

Com todas essas reviravoltas no cenário da música, os orçamentos milionários para produção de discos não fazem mais parte da nova conjuntura. Dentro de um quarto, com um laptop, um pequeno par de monitores de estúdio e uma simples interface de áudio, é possível produzir música com alta qualidade. Softwares multipista, como o genial Reaper ou o popular Pro Tools, possuem um potencial extraordinário, permitindo gravação, edição, mixagem e masterização de áudio com nível profissional. O Amplitube e o Guitar Rig simulam amplificadores e pedais analógicos de uma forma bem próxima da realidade. Instrumentos virtuais podem ser usados a partir de um controlador MIDI ou até mesmo do próprio teclado do computador. Assim, pode-se inserir em seu projeto um plug-in que simule o timbre do clássico órgão Hammond, por exemplo, sem precisar ter que gastar uma fortuna com este instrumento.

Outra faceta interessante do processo de produção musical contemporâneo é que ficou muito mais fácil de gravar uma canção em parceria com outros músicos que se encontram geograficamente distantes. Por exemplo, um guitarrista grava uma harmonia no Brasil e compartilha a sua trilha com um baixista da Nova Zelândia e com um percussionista da África do Sul que irão gravar os seus instrumentos e depois enviá-los para o guitarrista brasileiro através dos serviços disponibilizados por sites como WeTransfer ou DropSend. E assim, vários outros instrumentos musicais poderão ser gravados e compartilhados. No processo de mixagem todas as trilhas serão equilibradas através da regulagem adequada dos volumes, panoramas, frequências e inserção de processadores de sinal e efeitos. O efeito de reverb, por exemplo, pode criar a sensação psicoacústica de que todos os instrumentos foram tocados no mesmo ambiente.

No que se refere ao consumo da música gravada, é importante salientar, que houve um retorno do vinil e da fita cassete, mas tudo indica que este fenômeno está vinculado a segmentos bem específicos. O caso da fita cassete é particularmente interessante, pois, apenas em 2014, a gravadora independente Burger Records, da Califórnia, foi responsável por mais de 300 lançamentos neste formato, estando entre eles o álbum Everything Will Be Alright in the End da banda Weezer. Sendo que, ao contrário do vinil, a maior parte dos consumidores de fitas é composta por jovens que estão descobrindo agora este tipo de mídia.

Nesse contexto, é possível perceber que não existe, na atualidade, um padrão homogêneo na forma de consumir música. Pelo contrário, o processo ocorre de forma híbrida: vinil, cassete, CD, download e streaming. O que existe, na verdade, é a maior preponderância de uma forma com relação a outra. O vinil e o cassete representam mercados de nicho; o CD está cada vez mais obsoleto, pois compete com a música digital disponibilizada na internet de forma gratuita ou mais barata; o download já esteve mais em alta e foi responsável por causar um impacto gigantesco na indústria fonográfica; mas agora já mudou tudo e o streaming é a bola da vez. Ouvir música “na nuvem” é a nova tendência, principalmente se ela estiver associada ao vídeo.

Publicado originalmente em: Acordes de Fogo

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