A eficiência dos times ingleses na temporada 2015–16

A temporada 2015–16 da Premier League chegou ao seu final, marcada principalmente pelo resultado histórico: o time campeão foi um desacreditado Leicester City, um dos times de menor orçamento e que no início do campeonato era um dos favoritos ao rebaixamento. O título não apenas consagrou uma das maiores zebras da história do futebol mundial, como mostrou que os resultados no futebol não são apenas questão de quanto dinheiro um time tem.

A história de superação do Leicester é uma dessas coisas mágicas que de vez em quando acontecem no esporte, e muitas matérias já narraram a dimensão desse feito para o futebol. O que se pretende aqui é nada mais do que revelar uma dimensão econômica sobre o resultado final dos clubes ingleses nesta temporada, tomando como referência o campeão Leicester.

A folha de pagamento do time foi a quarta menor na temporada, somando aproximadamente 48,2 milhões de libras. Esse valor representa apenas 22% da folha do clube mais caro, o Chelsea (com cerca de £ 215,6 milhões), e cerca de metade do orçamento médio de todos os clubes (em torno de £ 93,39 milhões). A limitação financeira, entretanto, não impediu o time de alcançar 81 pontos no final do campeonato, com impressionantes 10 pontos a mais do que o segundo colocado, o Arsenal — cujo orçamento foi quase quatro vezes superior ao seu.

Em economia, é possível obter medidas de eficiência relativa através de uma comparação entre os recursos despendidos com os resultados obtidos. Tradicionalmente, esse tipo de análise é realizada para firmas, onde contrastam-se insumos e produtos de modo a se mensurar a capacidade de obter o máximo de produto para um dado nível de recursos (ou, alternativamente, minimizar os insumos necessários para se alcançar um dado nível definido de produção).

Um dos métodos mais difundidos para realizar esse tipo de mensuração é a Análise Envoltória de Dados, também conhecida por DEA (sigla para o seu nome em inglês, Data Envelopment Analysis). De maneira bastante sucinta, a DEA consiste em um método matemático de otimização aplicado simultaneamente sobre várias unidades tomadoras de decisão, que visa maximizar uma função objetivo e que permite obter uma fronteira de eficiência empírica. Essa fronteira informa quais as melhores práticas entre as unidades analisadas, isto é, quais destas estão obtendo eficiência máxima. A eficiência das demais unidades é avaliada em termos comparativos com as melhores práticas (a distância para a fronteira de eficiência).

A DEA pode ser aplicada não apenas para firmas, mas para quaisquer unidades onde existam insumos e produtos mensuráveis. No caso do futebol, o produto pode ser considerado como o número de pontos, que todo time busca maximizar (ao menos em campeonatos por pontos corridos). Os insumos, por sua vez, podem ser considerados os valores monetários envolvidos nas atividades do time, como os salários dos jogadores, do corpo técnico, dos dirigentes. Naturalmente esses não são os únicos fatores envolvidos: há, por exemplo, toda a infraestrutura do clube.

Com isso em mente, busquei realizar uma análise de eficiência¹ dos clubes de Premier League nesta última temporada, assumindo como produto o número de pontos obtidos ao final do campeonato, e como insumo o valor anual da folha de pagamentos. A utilização de apenas este insumo se deve à disponibilidade restrita de informações sobre as finanças dos clubes, sendo o único valor encontrado para todos os participantes da competição. Contanto, essa restrição não deve implicar em prejuízos à análise, pois considera-se que tais números são um bom indicativo das escalas financeiras dos times — no mínimo, representam a dimensão onde estes realizam seus maiores gastos.

O gráfico abaixo apresenta os pontos obtidos e o orçamento de cada clube, de onde obteve-se uma fronteira de eficiência, representada pela linha laranja.

Os resultados revelam aquilo que se confirmou dentro de campo: o Leicester obteve uma eficiência de 100%, o que significa que, dentre os clubes considerados, ele obteve a melhor prática, isto é, o maior número de pontos obtidos para cada libra gasta com salários. Além do fenômeno da temporada, o Bournemouth também conseguiu atingir máxima eficiência, muito embora tenha finalizado o campeonato apenas na 16ª colocação, com 41 pontos. Essa eficiência se deu pelo fato do clube ter o menor orçamento de toda a Premier League, com apenas £ 25 milhões, o que certamente também fazia dele um dos principais candidatos ao rebaixamento no início do campeonato — projeção que o clube derrotou, mantendo-se por mais uma temporada na elite do futebol inglês. Em situação bastante semelhante encontra-se o Watford, segundo menor orçamento (£ 25 milhões) e 13ª colocação na tabela, com 45 pontos, o que resultou numa eficiência de 92,4%.

No outro extremo, o time de menor eficiência foi o Aston Villa, cujo orçamento de £ 65,1 milhões se traduziu em apenas 17 pontos, rendendo ao time uma eficiência de apenas 21% e a última colocação na tabela. Em sequência vem o Newcastle, cuja eficiência foi de 45,7%, o que levou o time a ser rebaixado, com 37 pontos obtidos e a 18ª colocação, muito embora seu orçamento fosse o sétimo maior (£ 75,8 milhões).

E quanto ao time de maior orçamento? Apesar de sua gorda folha de pagamentos, o Chelsea obteve apenas 50 pontos, o que lhe garantiu apenas um décimo lugar na classificação final e uma eficiência de 61,7%. Outros grandes clubes se saíram relativamente melhor, como é o caso do Arsenal (87,7%), Tottenham (86,4%) Manchester City (81,5%) e Liverpool (74,1%).

Esses números reforçam o feito grandioso do Leicester, que desbancou times com muito mais recursos e tradição para tornar-se campeão com folga. Sua eficiência foi acompanhada pela eficácia, mostrando ao futebol inglês e ao mundo que um grande orçamento não se converte automaticamente em vitórias e títulos. Nunca subestime um azarão.


¹: Dois detalhes metodológicos aos curiosos:

  • Foram utilizados retornos variáveis de escala, onde se leva em consideração o fato de que as unidades em análise podem operar em dimensões muito variadas (como é o caso quando sua amostra contém clubes de tamanhos tão díspares quanto um Manchester United e um Bournemouth);
  • Aplicou-se a ótica do produto, onde almeja-se maximizar o produto levando em consideração que o montante de insumos disponíveis é fixo.
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