O mundo está melhorando — ainda que você não acredite

O ano de 2016 foi repleto de manchetes ruins. Terrorismo, agravamento da guerra na Síria, crise econômica, corrupção generalizada. Esse bombardeio de notícias negativas pode fazer com que acreditemos que 2016 foi um ano pior do que os que o antecederam. Acontece que todo ano a cena se repete, de modo que frequentemente somos conduzidos a concluir que o mundo está caminhando ladeira abaixo. Mas as evidências mostram justamente o contrário: o mundo está melhorando em diversos aspectos. A seguir, uma série de gráficos que apontam justamente isso.

A pobreza está caindo sistematicamente, incluindo a pobreza extrema (caracterizada atualmente por uma renda inferior à US$ 1,90/dia). Enquanto em 1820 mais de 90% da população mundial vivia sob tais condições, atualmente menos de 10% se encontra na miséria.

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Os números da pobreza também caíram em termos absolutos, a despeito do enorme crescimento populacional que ocorreu nesse período: enquanto que em 1820 cerca de 1 bilhão de pessoas vivia em extrema pobreza, — número que cresceu para pouco mais de 2 bilhões até 1970 (devido em grande parte às elevadas taxas de natalidade em países mais pobres) — hoje esse número é de cerca de 700 milhões. Grande parte dessa queda nas décadas recentes deu-se graças à maior abertura econômica dos países mais populosos do mundo, Índia e China.

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A expectativa de vida está aumentando. Em 1800 a esperança média de anos de vida ao nascer era de apenas 32 anos, em grande parte devido à elevada mortalidade infantil. Evoluções no campo da saúde, como o desenvolvimento das vacinas, permitiram uma redução sem precedentes nos óbitos infantis.

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Conforme esta passou a entrar em franco declínio em todos os países do mundo, a expectativa média aumentou drasticamente, atingindo 70 anos de idade em 2012.

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Cada linha acima representa a expectativa de vida em diferentes períodos de tempo, ordena dos países de menor expectativa para os de maior. O eixo horizontal mensura a proporção acumulada da população mundial, de modo que é possível visualizar a evolução desse quadro para praticamente todos os indivíduos ao redor do mundo (uma visualização animada dessas mudanças é apresentada aqui pelo fantástico Hans Rosling).

Mas esse progresso não se deu apenas pela redução da mortalidade infantil. Na verdade, as mortalidades diminuíram para todas as faixas etárias. Por exemplo, no Reino Unido, descontando a mortalidade infantil, a expectativa de vida subiu de 55 anos em 1845 para 82 anos atualmente. Alguém com 50 anos tinha uma expectativa de viver mais 20 anos. Hoje, essa expectativa é de 33 anos. Esse padrão é bastante similar no mundo todo.

As pessoas estão atingindo maiores níveis educacionais. Em 1800 cerca de meros 10% da população do mundo podia ser considerada como alfabetizada. Atualmente esses números já ultrapassam os 80%, e seguem aumentando.

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Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas possuem níveis educacionais mais elevados, e essa tendência irá se manter pelas próximas décadas.

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Cada vez mais pessoas vivem em regimes democráticos. Há 200 anos apenas 1% da população mundial vivia em regimes democráticos — algo que estava ainda dando seus primeiros passos. Quase 40% das pessoas viviam em colônias de outros países, e quase metade vivia em autocracias. Atualmente mais da metade das pessoas vive em regimes democráticos, e já não existem mais colônias. Pouco menos de um quarto ainda vive em regimes autocráticos, mas esse número era de mais de um terço há menos de 20 anos.

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Pode parecer que tanto progresso veio às custas de mais trabalho. Mas a verdade é que as pessoas têm trabalhado menos. Em 1950 cada trabalhador dedicava, em média, mais de 2200 horas no trabalho. Esse número reduziu-se para cerca de 1850 horas em 2015, uma redução de quase 20%. E apesar de trabalharmos menos, a produtividade mundial mais do que dobrou no período — isto é, cada trabalhador hoje em dia produz mais do que dois trabalhadores em 1950. E isso com bilhões de pessoas a mais trabalhando.

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A consequência? A renda per capita quase triplicou (em termos reais) de 1960 até hoje.

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E também podemos achar que, ainda assim, mais dinheiro não significa que estamos mais contentes com nossas vidas. Mas há sim uma relação positiva entre o nível de renda per capita e as avaliações que fazemos de nossas próprias vidas. Quanto mais rico o país, melhor tende a ser a percepção de qualidade de vida de seus indivíduos. Não significa que dinheiro necessariamente traz felicidade, mas sim que mais recursos tendem a permitir que as pessoas tenham maior qualidade de vida.

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A violência tem se reduzido, de diversas maneiras. Um estudo publicado recentemente na Nature aponta que vivemos o período com menos homicídios na história da humanidade.

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O gráfico acima mostra as taxas de mortes por violência humana para diversos períodos, no velho e no novo mundo, bem como nos períodos mais recentes em todo o mundo. Enquanto que ao longo de praticamente toda nossa história essas taxas médias variaram entre algo em torno de 3% até 12%, nos últimos cem anos (Idade Contemporânea) tal proporção reduziu-se para 1,33%. Esses dados corroboram estudos como o do psicólogo Steven Pinker, que levanta inúmeros dados históricos a respeito da violência em seu livro Os Anjos Bons de Nossa Natureza.

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Listando apenas outros dois exemplos além dos homicídios, as guerras e os genocídios, também observamos uma tendência de queda nos anos recentes. Após períodos de conflitos mundiais e experiências totalitárias e de coletivização dos meios de produção, o mundo tornou-se menos violento nesses aspectos.

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O mundo está ficando mais verde. A cobertura florestal está aumentando em diversas partes do globo, apesar de ainda diminuir em florestas tropicais (mas em ritmo menor), e biomas não-florestais também estão aumentando, de modo que ao longo da última década houve um ganho líquido de cobertura vegetal no planeta. Além disso, os Estados Unidos e a Europa já possuem mais florestas hoje do que há um século.

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Mas se o mundo está realmente melhorando, como explicar tanta notícia ruim? Uma pesquisa conduzida recentemente aponta duas possibilidades para explicar o predomínio desse tipo de manchete nos noticiários. A primeira tem a ver com o que se chama de viés de negatividade: sobrevalorizamos as notícias ruins em decorrência de uma resposta evolucionária a possíveis ameaças. Essas notícias seriam uma espécie de gatilho, nos avisando da necessidade de largar o que estamos fazendo para evitar o perigo. Evidências de experimentos suportam essa hipótese: reconhecemos e reagimos mais rapidamente a palavras negativas.

A segunda diz respeito ao fato de que as pessoas tenderiam a ser levemente otimistas, de modo que as notícias negativas se desviam de nossas expectativas, podendo ser encaradas, portanto, como mais úteis. Ambos os fatores se complementam, mas esse segundo aspecto tem apelo especial quando contrastamos isso com as evidências acima expostas. Se o mundo está realmente melhorando, e se somos capazes de assimilar isso mesmo que inconscientemente, então as notícias ruins serão ainda mais úteis e chamarão ainda mais nossa atenção. Isto é, diante de um mundo onde as condições gerais da vida humana melhoram, ficamos cada vez mais indignados com os eventos que se desviem dessa tendência.

Grande parte do progresso descrito ocorreu nos últimos 200 anos, o que é um período de tempo bastante curto quando o colocamos em perspectiva histórica. Ainda assim, há muito pessimismo em relação ao tempo em que vivemos. Ser pessimista sobre o mundo pode ter um certo ar intelectual, enquanto que o otimismo é visto como ingênuo. Ainda no século XIX John Stuart Mill escreveu que “não é o homem que mantém a esperança quando os outros se desesperam, mas sim aquele que se desespera quando os outros possuem esperanças, que é admirado por um grande número de pessoas como um sábio”.

Talvez esse pessimismo pudesse encontrar mais justificativas naquele período, mas hoje em dia as informações disponíveis nos dão uma perspectiva bastante diferente: o mundo está melhorando, e temos muitos motivos para sermos otimistas — de preferência, claro, com boas doses de sobriedade, pois naturalmente ainda existe muito a melhorar. Ser otimista, afinal, não significa negar os problemas que existem no mundo, mas sim saber reconhecer os progressos já realizados, e a partir dessa perspectiva entender que podemos sim seguir avançando. Em outros termos, é nada mais do que ser realista.

Nota: Boa parte das informações e gráficos acima apresentados podem ser encontrados no Our World in Data, um ótimo site para visualizar informações globais e as diversas mudanças pelas quais estamos passando.

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