Cidade das Cores

Acordei dez da manhã. Bem antes do que estava acostumado. Éramos dois amigos, dois sonhadores em voo de volta. Nossa viagem havia terminado. Era hora de ir para casa. Mas estávamos transformados.

Me sento com meu almoço. O sol entra pelo teto de vidro do aeroporto. Fico pensando sobre porque viajo. Encontro a resposta nas noites anteriores– porque acredito que viajar me faz viver momentos que nunca mais vão existir.

Por mais que os motivos que te fizeram estar ali eram uns, a vida te surpreende e te carrega para ocasiões especiais. Voltava de uma viagem diferente do Rio de Janeiro, depois de dias vivendo música, pessoas, noites, culturas você não tem como não sair diferente.

Chovia na Lapa, estávamos embalados de som ao fundo, por um ídolo canadense que se apresentava em solo carioca. Uma pessoa se aproxima. Ao seu lado, havia uma mulher, tímida, que não deixava de ser carismática. Nos identificamos por um motivo comum: eu e meu amigo, turistas gaúchos, e o casal, confortantes equatorianos. Uma conversa muito interessante começou: filosofia, viagens, futebol, embriaguez ou qualquer coisa que vinha na mente.

Parece ser uma coisa simples: uma conversa, conhecer pessoas novas, shows, chuva. Porém, dada a emoção de cada ser presente, um ponto de vista novo se abre. Noto que isso não aconteceria na rotina, no meu trabalho, no meu ônibus ou almoço. Tudo contribui para que a conversa, o show, tudo, o momento se eternize.

Outro ponto a se ressaltar, a forma de que cada coisa toca diferente nas pessoas. Na noite seguinte da viagem, nos encaminhávamos novamente para Lapa para uma noite de música. Lá, encontramos um amigo de longa data “das internets”. “Pô, então” foi o abre alas de outra conversa marcante. Política, amizade, bandas, música ou qualquer outro adjetivo para outra conversa estavam no enredo.

No meio da conversa, meu celular toca, era de Porto Alegre, casa. Alguém que não era tão próxima acabara de posicionar ao meu lado. Trocamos algumas mensagens e áudios. Ali eu sentia que quando voltasse essa magia ia se compartilhar e momentos bons estavam por vir.

Começou o show, todos já estavam no palco, mas eu não conseguia prestar atenção. O público estava efervescente e parecia algo de outro planeta o que estava acontecendo. A áurea de quem estava ali encantava e as emoções estava na pele. É difícil explicar quando o público dá um espetáculo, ainda mais quando se faz parte dele. Mas vendo como um intruso talvez fosse mais fácil palpar a forma como aquele momento tocava aquelas pessoas.

Por mais que pudessem acusar ser mais um show, mais uma banda de quatro jovens, rock e rodas, para aquelas pessoas não era só aquilo. O show daquela noite marcava a volta de rever amigos, conversas antigas, saudosismos e “rolês” e isso é muito importante de vivenciar.

Não desperdice esse tempo. Você nunca vai tê-lo novamente. E os momentos que você vive, tudo o que acontece ali, é para sua vida. Viajar permite que você se sinta mais ligado aos seus amigos, as pessoas, de uma forma profunda e duradoura. Esses momentos marcaram minha vida, e nunca mais vão existir daquela forma.


Este texto é relacionado com o shortfilm “Memórias do Rio”, lançado pela Silva Home Movies. Para assistir: http://bit.ly/memoriasdorio