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Sentidos e Memórias

Crer ou não crer — uma delicada questão (parte 1)

eu avô João nunca acreditou que o homem houvesse pisado na Lua e foram muitas as nossas “contendas” sobre o assunto. Nesse embate — sempre sob a observação arguta da minha avó Joana que se divertia muito com tudo — eu (onze) e ele (setenta e três) não dávamos trégua um ao outro.

Capa da Revista Manchete, edição 904, de julho 1969 | fonte: acervo da Biblioteca Nacional, link aqui

De nada adiantavam os recortes de jornal ou as revistas Manchete e Fatos&Fotos que eu caçava na banca da esquina. Nada o convencia. E quando cansava da conversa, meu avô dava início à tradicional “batalha de cócegas” que invariavelmente terminava comigo rolando no chão de tanto rir…

Mas houve o dia em que quase “brigamos” pois ele também não podia acreditar que duas cidades inteiras — Hiroshima e Nagasaki — foram de fato destruídas cada qual com única bomba. Quanto a isso, carreguei de lá pra cá diversos fascículos da ‘Enciclopédia Conhecer’ que toda semana meu pai comprava pra mim. Li e reli, reli e li aqueles artigos que buscavam explicar coisas tão complexas. Vô João sabia do meu esforço e gostava. Mas, quando eu conseguia explicar algo com relativa consistência, o olhar de meu avô fugia para um lugar inacessível e, ao final, pra encerrar a conversa, “tudo era coisa pra enganar tonto”. E dá-lhe cócegas!

Os anos se passaram e com eles passaram também as batalhas de argumentos e cócegas. A maturidade me fez compreender que na visão do meu avô as experiências que viveu com seu Chevrolet 38, o liquidificador Arno e chuveiro elétrico eram assimiláveis porque ele podia compreender alguma coisa do funcionamento daquelas máquinas; não obstante, seu querido televisor Telefunken tinha um outro ‘status’ em sua emoção e visão de mundo. As válvulas do equipamento o deixavam silencioso e intrigado… Como aquele conjunto de peças funcionava e permitia ver e ouvir pessoas distantes? Como isso podia acontecer simultaneamente em tantas e tantas casas? Decerto, tais questões não estavam exatamente colocadas à consciência e meu avô assentiu da “magia”, abdicou de entendê-la e vibrou com a aquisição que fez da primeira TV colorida da família.

Hoje, quando usamos o Waze, fazemos uma selfie ou pesquisa no Google também não pensamos na corrida espacial, não lembramos de Yuri Gagarin circum-navegando a Terra, não pensamos na NASA ou na chamada “Guerra Fria”. Quando utilizamos uma frigideira revestida com Teflon não pensamos no químico Roy Plunkkett que acidentalmente o descobriu — e só posteriormente pesquisou os processos de sua produção controlada para a DuPont. Tampouco pensamos que esse mesmo polímero seja utilizado em enxertos cirúrgicos, tenha sido usado no sistema de vedação das bombas de Hiroshima e Nagasaki e, como todos os polímeros, provoque impactos de amplitude com sua degradação.

Numa ilustração do popular Norman Rockwell, o registro de alguns rostos envolvidos no empreendimento Programa Apolo | fonte: Revista Manchete, edição 900, de 1969, digitalizada pela Biblioteca Nacional (ctrl+clique para abrir o link anterior em outra janela)

Isso poderia bastar para que comecemos a matutar sobre a relação que mantemos com a tecnologia e a ciência. Somos frenéticos usuários dos artefatos tecnológicos e esquecemos por completo as cadeias produtivas da ciência que possibilitam tais artefatos. Não obstante, podemos nos mostrar absolutamente céticos ou, no sentido contrário, passivamente crentes em relação à ciência que possibilita tecnologia. Enfim, a tecnologia que domina nosso cotidiano tornou-se habitual e como que “natural”. Como fossemos crianças nos encantamos com aparelhos e efeitos cada vez mais surpreendentes. Não pensamos nas cadeias de pesquisa envolvidas, não refletimos sobre os interesses que as movem, sobre as contingências humanas sempre presentes em sua construção.

Não avaliamos os impactos decorrentes e se foram ou não estudados os custos ambientais que sempre têm e terão. De certo modo, a incrível plasticidade do nosso sistema cognitivo rapidamente dá lugar à fruição imediata e impensada das coisas. Com isso, a ideia de Ciência & Tecnologia —vista de forma integrada —é lançada ao ponto cego de nossa percepção de mundo.

Deveríamos então recuar ante os avanços que a ciência e a tecnologia nos trouxeram como empreendimento humano? Deveríamos abdicar das facilidades e condições do chamado “progresso”? Talvez essas questões sejam tão inadequadas quanto o dilema em torno do qual eu e meu avô duelávamos: crer ou não crer que o homem tenha pisado na Lua. O fato estava dado, afinal, independentemente de sua crença.

Crer ou não crer, utilizar cegamente ou cegamente recusar são dilemas que encobrem o real e complexo desafio: ciência & tecnologia estão presentes a cada instante de nossas vidas, e no mundo comum e incomum que temos é imprescindível pensá-las. É preciso conhecer e refletir sobre as inevitáveis contradições que seu desenvolvimento carrega e pensar que há muito tempo abdicamos de tal responsabilidade.

Ora nos quedamos crédulos, ora incrédulos; ora temerosos, ora fascinados — quando o desafio seria pensar porque nos comportamos assim; e, por conseguinte, ponderar como podemos aprofundar nossa reflexão sobre ciência e tecnologia, lembrando que ambas se autopromovem com a busca de soluções para problemas que direta ou indiretamente criaram — tomemos, como exemplo, as toneladas de lixo espacial e nuclear acumuladas em algumas décadas e as complexas implicações da degradação de polímeros cada vez mais e mais utilizados no cotidiano.

Os motes “porque e como”, “ para quem e para que” podem nos ajudar a romper a inércia e ativar a busca de fontes consistentes de divulgação e crítica. Como tudo na história humana, ciência & tecnologia não prescindem de nossa responsabilidade comum.

Meus avós cruzaram o oceano em barcos a vapor e aqui lavraram a terra ‘no muque’, com enxada e arado. No tempo de suas vidas, outros homens manipularam a energia do átomo e criaram uma diversidade fantástica de novos materiais e máquinas. A meus avós e meus pais estaria colocado o desafio de compreender transformações praticamente inconciliáveis com a sua experiência concreta no mundo. O mesmo não deveria se aplicar às gerações seguintes e, no entanto, tornamo-nos consumidores cada vez mais vorazes do que também não compreendemos.

Desnecessário dizer que eu e meus avós João e Joana amaríamos tirar muitas selfies lado a lado, vibrando por ter em nossas mãos, no mesmo instante, a visão colorida dos nossos sorrisos.

1958 — Vô João, Vó Joana e eu aí no meio. Época em que se esperava, com ansiedade, ‘completar o filme’ e revelar em estúdio profissional as caras e preciosas fotografias

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blog sobre vida, saúde, bem-estar e medicina, com uma visão vitalista e homeopática

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