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Ailton Krenak e a ilusão de que tudo podemos

Em meados de fevereiro de 2021, circulou a notícia da morte de Aruká Juma, cacique e último homem da etnia Juma, do interior do Estado do Amazonas.

Uma informação a mais entre as incontáveis com que nos deparamos no cotidiano das redes de informação e redes sociais? Outra vítima a lamentar dentre os milhares de brasileiros mortos pela Covid-19? Como nos afeta pensar num povo originário e sua cultura em via de desaparecimento? Por que, afinal, somos tacitamente induzidos a permanecer na superfície dos acontecimentos?

A leitura de dois pequenos livros que valem muitíssimo mais do que pesam poderão por certo cutucar a passiva naturalidade com que atenuamos problemas cruciais de nosso tempo. São eles: “Ideias para adiar o fim do Mundo” e “ A vida não é útil”, de Ailton Krenak, publicados pela Editora Companhia das Letras a partir de palestras e vídeos gravados anteriormente pelo autor.

Ailton Krenak (Fonte: https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=01412)
Ailton Krenak

As duas publicações vinculam-se aos contextos pós-rompimento das barreiras de contenção dos rejeitos de mineração em Bento Rodrigues (Mariana, MG, 2015) e Córrego do Feijão (Brumadinho, MG, 2019), catástrofes que catalisaram comoção e, tempos depois, caíram num quase esquecimento. Um esquecimento impossível aos habitantes desses cantos do mundo incluindo o povo Krenak — que tem nos “ecossistemas” da bacia do Rio Doce seu espaço de existência. Com a autoridade forjada pelo que vive e viveu como Krenak — povo que há muito poderia ter consumado destino semelhante ao da etnia Juma — é que Ailton Alves Lacerda Krenak nos instrui e adverte. Seria banal tentar reduzir a complexa história do povo Krenak a um parágrafo, conquanto, os desastres recentes possam dar alguma ideia da resiliência e coragem requerida dentro desta ainda terra brasilis.

Como integrante de um povo originário e cidadão brasileiro que escava as barreiras dos culturalismos fechados, Ailton Krenak nos conclama a refletir sobre a exclusão consentida de milhões de pessoas que permanecem à margem, qual fossem uma ‘humanidade menor’; nos adverte e encoraja quanto a premência de uma revolução na nossa maneira de organizar, valorar e compreender nosso espaço de vida e da necessidade imperiosa de partilharmos responsavelmente o planeta com outros seres, os quais, no geral, desconsideramos ou subjugamos.

Enfim, com fundamento e sentimento, Ailton nos desafia a deslocar nosso ponto de inserção na Natureza, e a questionar radicalmente os sentidos do que fazemos no e com o mundo.

“Ideias para Adiar o Fim do Mundo” veio a público antes da pandemia da COVID -19 e sacode nossa consciência para a dimensão do ecocídio que promovemos como espécie. Esse mote tem continuidade no segundo livro, “A Vida não é Útil”, mas com o olhar já modelado pelo contexto da pandemia.

Ailton claramente desvela que — como consumidores vorazes de tudo, desejosos por satisfazer necessidades inventadas pelo nosso modo de vida — nos colocamos como personagens além da Natureza. Dito de outro modo: nos comportamos e entendemos como seres externos à Natureza — a qual, por sua vez, fica reduzida a categoria de recurso.

Alimentamos uma visão de mundo que desnaturaliza o homem como espécie viva e perigosamente naturaliza o poder da técnica e da ciência que construímos e consumimos. Nessa perspectiva, assumimos a ficção — ou o delírio — de “superioridade autônoma”, que mantém implícitos o usufruto irracional de um suposto progresso e o domínio do homem sobre tudo o mais.

Uma visão de mundo que, afinal, fortalece a ilusão de que tudo podemos já que nossas tecnologias permitirão manipular e transformar o mundo ao nosso desejo e poder de criação.

Ailton Krenak enfatiza: “…eu não vou me salvar sozinho de nada, estamos todos enrascados. E, quando eu percebo que sozinho não faço a diferença, me abro a outras perspectivas. É dessa afetação pelos outros que pode sair uma outra compreensão sobre a vida na Terra. Se você vive ainda a cultura de um povo que não perdeu a memória de fazer parte da Natureza, você é herdeiro disso, não precisa resgatá-la, mas se você passou por esta experiência urbana intensa, de virar um consumidor do planeta, a dificuldade de fazer o caminho de volta deve ser muito maior. Por isso, acredito que seria irresponsável ficar dizendo para as pessoas que, se nós economizarmos água ou só comermos orgânico e andarmos de bicicleta, vamos diminuir a velocidade com que estamos comendo o mundo — isso é uma mentira bem embalada.” (*)

O tecnicismo e cientificismo alimentam nossa miopia a ponto de parecer ingênuo e exótico que outros povos ainda vejam a si como Natureza, como espécie que partilha com outros seres o planeta comum. Para o povo Krenak, o Rio Doce não é recurso de vida; o rio é ente vivo e também humano. O Rio Doce é Watu — um ancestral querido, um avô de todos os Krenak. Para nós que despejamos em nossos cursos d’água toda a sorte de dejetos inimagináveis e permanecemos cotidianamente alheios a isso, como essa outra relação ecoa?

Estamos muito longe de enxergar relações mais amplas no espaço e tempo, muito longe de apreender e aprender a pensar totalidades complexas. Daí a absoluta relevância do que Ailton Krenak nos fala. E do vigor com que nos fala e duplamente ultrapassa: como cidadão comprometido com as lutas de seu povo — irmão nosso neste chão e tempo comum; e como um cidadão da Terra, radicalmente comprometido com a vida no planeta.

“… excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver — pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só desta abstração que nos permitimos construir como uma humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. Essa humanidade que não reconhece que aquele rio em coma é também o nosso avô, que a montanha explorada em algum lugar da África ou da América do Sul e transformada em mercadoria em algum outro lugar é também o avô, a avó, a mãe, o irmão de alguma constelação de seres que querem continuar compartilhando a vida nesta casa comum que chamamos Terra.” (**)

Atingimos a ‘escala’ de mais de quatro mil mortes diárias em nosso país — uma tendência cujos modelos matemáticos não atenuam em previsão breve. Realidade triste e reveladora: menos do que seja como patógeno, o vírus em questão, e mais do que somos, afinal, como sociedade.

A grandeza do que Ailton Krenak comunica nasce do amor e dor daquele que olha, enxerga além e sabe. E porque muito além se compromete, dá vazão à indignação que sente, valendo-se vez por outra de ironia, já que como ele diz “ninguém come dinheiro”. Compreendê-lo demanda um profundo custo ético. Não compreendê-lo reafirma nossa coletiva tragédia. Ou farsa.

Citações feitas no texto:

(*) Krenak, Ailton — A Vida Não é Útil — São Paulo: Companhia das Letras, 2020 — pp. 104–5

(**) Krenak, Ailton — Idéias para adiar o fim do Mundo — São Paulo: Companhia das Letras, 2019 — pp. 46–8

Para saber mais:

  1. Sobre a morte de Aruká Juma, siga este link.
  2. Sobre os livros “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, do qual retiramos as imagens de Ailton Krenak e seus dois livros, no site da editora Companhia das Letras.
  3. Sobre a história recente e passada dos índios Krenak:
  • No site Povos Indígenas do Brasil, neste link.
  • No YouTube, a série “Krenak — Vivos na Natureza Morta”, abaixo:

4. E como a esperança é um enigma que amamos, as imagens seguintes dirão por si, no Facebook, por aqui.

Dedicado a Maíra, por também amar o que aqui traduzi…

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blog sobre vida, saúde, bem-estar e medicina, com uma visão vitalista e homeopática

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