A felicidade do encontro

Nota do editor: este é um trecho do livro “Por Que Não Somos Felizes?”, escrito pelo prof. Tiago Amorim e que pode ser adquirido, com muitos benefícios, no link www.bit.ly/naosomosfelizes


A afirmação de Julián Marías — “a felicidade é assunto pessoal” — cada vez fica mais clara e podemos fazer um adendo: se é a pessoa quem pode ser feliz, também é nas pessoas (ou com elas) que encontramos felicidade. As coisas nos oferecem prazeres e quando não sabemos desfrutá-las sentimos o fastio dos entediados. Com as coisas precisamos operar, fazer nossas vidas; mas não é nas coisas que encontramos o bem de que falava Aristóteles. Se tivermos o mínimo de ansiedade pelo Sumo Bem, — o que consideramos necessário — é com outras pessoas que poderemos provar, à maneira íntima que a convivência permite, um gozo limitado da infinitude.

Miguel de Unamuno foi um dos primeiros a reconhecer a necessidade deste encontro: “uma pessoa isolada deixa de sê-lo; pois, a quem amaria?”. Ou seja: se é pessoa, de maneira mais atualizada e perfeita, frente à outra pessoa. Ou ainda: amando. Daí que nos soe no mínimo desesperador conscientizar que muitas das nossas relações sejam baseadas no utilitarismo que intensifica o processo de despersonalização que vivemos (no qual, paulatinamente, “perdemos” nossa substancialidade e nos afastamos do foro íntimo que nos define como pessoas). Sob nossas relações ocorre a diminuição, por um auto-engano do sujeito, da realidade ontológica do outro. Não o vejo como pessoa, — portanto não tenho como amá-lo — mas como algo — portanto, não tenho como amá-lo. É o que acontece, por exemplo, quando tratamos por telefone com alguma atendente de telemarketing e, ignorando quem está do outro lado da linha, requisitamos uma relação funcional, não nos importando se A, B ou C resolverão nosso problema ou escutarão nossas reclamações. Nenhum de nós pensa que tem alguém falando conosco — alguém de carne e osso, dimensão pessoal, realidade radical — , uma máquina programada para atender pode servir aos mesmos propósitos.

O que se destaca aqui é uma das conseqüências da complicação do processo de divisão social por meio de novas funções, cada vez mais específicas e, ao mesmo tempo, mais impessoais (como a de telemarketing). Num tempo em que uma vila tinha apenas um médico, que cuidava de gerações e gerações de concidadãos, a relação entre paciente e doutor era muito mais pessoal (como se tenta fazer atualmente com a figura do “médico da família”). Hoje, nossas relações são técnicas, impessoais e distantes: dirigimos-nos uns aos outros em busca de soluções e realização (a contento) de funções que mantenham a engenharia social que inventamos.

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A coisificação do outro — aspecto do processo de despersonalização — tem conseqüência imediata na pretensão de amar, característica de todos os homens. Se existe uma diferença crucial entre desejar algo e desejar amorosamente alguém, é esta: no primeiro, vivemos um movimento centrípeto, que pretende trazer a “coisa” desejada para nosso espaço vital. Quero aquele carro significa: ele em minha posse, dentro dos meus domínios. No desejo amoroso, na pretensão de verdadeiramente amar alguém especificamente, acontece um movimento centrífugo: “saio de mim”, em direção ao outro. A inclinação é para fora, no sentido de ir ao encontro, querer a intimidade e, por isso mesmo, ser alterado pela presença do amado.

Minha preocupação, neste sentido, é evidenciar a radicalidade (e singularidade) do encontro a dois. Estar em face do outro é ver-se quase sem saída ou subterfúgios: ou provo da intimidade — que toca a pessoalidade — ou fujo. Uma das coisas mais emblemáticas da vida humana é estar cara a cara com alguém. Apenas você e o outro. Sem terceiros. Sem grupo. Sem aglomerações. Em todas as outras formas de convivência existem mil maneiras de fugir da intimidade. O olhar pode se perder na multidão, o diálogo pode ser dissolvido numa roda, a mentira pode passar despercebida. Três pessoas reunidas num bar ou numa sala de estar já têm a possibilidade de desviar as respectivas atenções.

Encontro, radicalmente falando, só é possível entre duas pessoas. Expostas, impedidas de fuga e de negligência com a presença do outro, cada uma é impelida a ver e ser vista. A distração é menor — não há outros com quem dividir — e a inclinação da intimidade tem apenas um vetor a ser percorrido: ou vai-se em direção àquele Tu que está à frente do Eu, ou foge-se. Ou expõe-se, ou fecha-se. Ou interessa-se ou despreza-se. Em face do outro atualizamos nossos graus de humanidade ou recusamos o chamado a ser.

E assim como a presença, a fala humana é sempre dirigida. Quando falamos a um grupo, literalmente “espalhamos” a mensagem: diluímos a fim de que todos possam captá-la. Olhamos em volta e distribuímos as palavras e intenções entre os ouvintes no intuito de fazê-las chegar a todos (ou à maioria). Estando a dois, a capacidade de comunicar só pode ter um sentido e por isso mesmo sai do emissário com muito mais força; no receptor, tem maiores chances de achar terreno fecundo. Uma conversa pessoal é uma conversa a dois. Sempre. Sem exceção. Os melhores livros e os melhores discursos são aqueles que aparentemente falam comigo: o autor queria que eu soubesse daquilo. A ilusão de intimidade, nestes casos, é intenção de quem escreve justamente por saber que diálogo verdadeiro dá-se entre dois. Os vetores — direções de mensagens — vão de um para um.

E toda a comunhão entre os homens, todo o gozo da convivência, solidariedade e efetivo consolo entre nós é possível apenas a partir dos encontros íntimos entre as pessoas. É isto que sustenta nossa comunidade. Amizade, amor, discipulado: dois a dois, verdadeiramente interessados um no outro e confessos de suas misérias, vergonhas e centelha divina. Todos estes elementos devem naturalmente estar presentes num encontro e nenhum deles é conquistado na homogeneidade das massas, na identidade de grupo ou no exibicionismo das redes sociais.

É preciso voltar a percorrer o longo caminho que extrai da minha realidade radical e leva à do outro. É preciso recuperar aquele atrevimento que me faz tocar alguém com a mesma intensidade de quem não deseja a solidão infernal. Sim, porque existe uma solidão paradisíaca: é a que sentiremos na hora da morte e no derradeiro encontro entre nosso eu e o Tu absoluto, como diria Gabriel Marcel.

Para que este encontro derradeiro aconteça — e para que eu esteja preparado para tal — é necessário que eu prove muitas vezes da insegura e transcendente relação a dois. Sem armas, estratégias ou falseamentos, devo me inclinar a pessoas de carne e osso; procurá-las e identificá-las individualmente, respondendo com minha própria vida o lugar que nela ocupam, o continente biográfico em que habitam. Cada uma das minhas relações tem uma história e nenhuma delas deve ser tomada em abstrato (o que, praticamente, seria traí-la).

Contudo, é emblemático e doloroso, no mínimo. Todo aquele que experimenta a intimidade a dois sai alterado (do processo centrífugo) e nenhuma alteração é absolutamente indolor. Por isso muitos fogem dos encontros pessoais como quem foge do fogo do Iinferno. Não percebem que, agindo assim, dele se aproximam, pois nada acelera mais a descida ao inferno do que a solidão neurótica e ilusória; a impostura que confunde individualidade com suficiência.

A solidão e o grupo têm seus motivos de ser. Mas só a comunhão a dois tem a possibilidade de salvar.


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